Julimel: “É gratificante saber que meu blog ajuda as pessoas”

Hoje o OITO TEMPOS conversa de blog para blog. A entrevistada da vez é a queridíssima e super atenciosa Juliana Mello, mais conhecida pelo apelido de Julimel, dona do Vídeos de Ballet Clássico. O blog começou em agosto de 2009 como uma comunidade do extinto Orkut, com o intuito de compartilhar vídeos de espetáculos de ballet completos para download. Atualmente com seis anos de existência, o blog já conta com acervo de mais de 300 títulos, e segundo as palavras da própria Juliana “não vai parar tão cedo”!! Assim esperamos!!!

Conte um pouco da sua vida de bailarina para nós. Como começou o seu amor pelo ballet?

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Espetáculo “Era uma vez… uma Cigana” – inspirado no ballet Paquita (foto: Arquivo pessoal)

“Delicada, toda de branco e na ponta dos pés. Essa é a imagem da bailarina que toda menina sonhou um dia ser”. Essas palavras, ditas por Inês Bogéa no documentário Uma Roupa que Dança, produzido pela São Paulo Companhia de Dança, simplesmente não me definem. Eu sempre gostei das artes, fiz aulas de teatro e de piano clássico, e eu até já tive algumas experiências com dança na infância, mas ela nunca fez os meus olhos brilharem. Porém, dizem que quando é pra ser, tudo conspira de maneira divina! Aos 14 eu tive contato com a peça O Quebra-Nozes, e após assistir uma montagem completa com o Teatro Municipal de São Paulo, eu me apaixonei completamente! Eu sempre digo que essa peça é o meu marco zero. Eu comecei nas aulas pra valer aos 22 anos, curso o método Royal Academy of Dance, e esse ano vou prestar exame para o Grade 7. Além disso, eu faço faculdade de jornalismo, e foi o blog que me fez descobrir que eu levo jeito pra essa profissão.

O que te levou a começar o blog e disponibilizar os vídeos para download?

Compartilhar vídeos e informações sobre dança com as pessoas remonta o meu próprio desejo de ter uma coleção de DVDs de Ballet, e acredito que tudo iniciou com a vinda para o Brasil da coleção O Melhor do Ballet. Eu adquiri o primeiro fascículo, e como eu não pude prosseguir, eu comprei outros DVDs por outros meios, como sebos e lojas especializadas. Mas ainda assim, é meio complicado, pois por não haver divulgação desse tipo de material, os preços não são muito convidativos. De repente, eu não sei dizer exatamente quando, veio a ideia de procurar os DVDs pra baixar na internet. No início não era fácil, eu usava programas específicos pra fazer os downloads. Certo dia, eu estava zanzando pela net e encontrei um site que disponibilizava esse tipo de material de forma fragmentada, e aí veio o insight: abrir uma comunidade no Orkut e compartilhar com todo mundo! Assim, no dia 24 de agosto de 2009 surgiu o Vídeos de Ballet Clássico. De primeira, eu colocava os links do jeito que eu achava, mas com o tempo eu percebi que muitos vídeos tinham falhas (não estavam completos ou estavam fora de sincronia). Por isso eu comecei a verificá-los antes de publicar, e eu passei a ser criteriosa com a qualidade dos vídeos. O formato de blog surgiu alguns meses depois, no dia 19 de dezembro, pois nem todo mundo tem perfis em redes sociais, e assim o acesso ao conteúdo poderia ser muito maior!

Você acha que mais pessoas se interessaram por dança através do seu blog?

Eu acredito que a dança tem um poder transformador, e como dona do blog, eu já recebi muitos relatos que me deixaram emocionada! Pessoas que, com a ajuda do blog, fizeram trabalhos de faculdade, puderam responder questionários de suas escolas de ballet, utilizaram os vídeos pra estudar uma peça que iam remontar e/ou dançar.

A história mais recente é de um leitor do Mato Grosso, que com o acervo disponibilizado montou um projeto no centro cultural da cidade dele, no qual todo final de semana ele faz a exibição de ballets de repertório. É muito gratificante saber o quanto essa minha iniciativa ajuda as pessoas de alguma forma, e é isso o que me mantém motivada a seguir em frente.

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Coreografia “Tarantella” , inspirada no ballet Anyuta (foto: arquivo pessoal)

Você já disponibilizou muitos títulos em seu canal. Tem algum deles que, por mais que você já tenha visto, você sempre assiste a uma nova versão de uma companhia diferente?

Tchaikovsky é o meu compositor preferido, e por isso eu tenho um carinho muito especial pelos ballets que ele compôs. Não por serem os mais famosos, e sim porque eles me emocionam. Mas eu costumo dizer que aqui é como coração de mãe: sempre cabe mais um! A vantagem de ter um blog assim é poder conhecer todo tipo de ballet, e eu gosto de me deixar encantar pelas diversas leituras que uma mesma peça pode ter, e também descobrir títulos novos. E eu vou confessar uma coisa: até hoje eu nunca consegui assistir todo o acervo do blog! Daqui a pouco, serão 365 vídeos postados, vai literalmente dar pra ver um vídeo por dia durante um ano inteiro! Será que alguém consegue essa façanha?

Recentemente você tem encarado o “sumiço” de parte de vídeos em sua conta. Fez até mesmo um post dentro do seu blog sobre isso, apontando um possível responsável sobre a questão. Como você está lidando com isso (sabendo das dificuldades para fazer upload de cada parte de ballets grandes)?

Lidar com esse tipo de situação é sempre complicado. Certa vez, eu enfrentei um problema semelhante, quando cheguei na faixa de 100 vídeos publicados. Na ocasião, foi por causa do próprio servidor que eu usava (o Mediafire), que mudou as políticas e eu precisei encontrar um novo pra continuar sem maiores dores de cabeça. Só que agora é diferente… Dá um pouco de raiva pensar na possibilidade de que alguém quer atrapalhar o projeto, e muitas vezes, me sinto remando contra a maré. Tudo o que posso fazer é respirar fundo e ter paciência. Recentemente, eu descobri um recurso no próprio 4shared que, ao que parece, deu uma trégua no sumiço, e ao mesmo tempo, acho que confirmei a suspeita de sabotagem. Vamos ver, daqui pra frente, quais serão os próximos capítulos… Mas uma coisa é certa: haja o que houver, o Vídeos de Ballet Clássico não vai acabar!

Quais são os planos futuros para o blog? Algum outro projeto futuro seu dentro dessa ideia de conteúdo de dança?

Bom, ainda há muito material em vídeo pra compartilhar! Aos poucos, tenho entrado nas peças modernas e contemporâneas, o plano é disponibilizar o maior acervo possível. Um projeto em andamento, e que espero lançar ainda esse mês, é o meu canal no YouTube, onde pretendo abordar as histórias do ballet de um jeito bem dinâmico e divertido. Penso também em abrir duas divisões no blog: uma só pra filmes de dança, e outra para CDs, mas isso não é pra agora. Primeiro, quero resolver de vez a questão do sumiço dos vídeos.

 

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Let’s (pole) dance!

Erika Thompson (Foto: Roberto Cunha)

Um estilo que vem crescendo muito no Brasil (e no mundo também, é só ver o número de campeonatos internacionais) é a famosa dança com o mastro. O pole dance, ao contrário do que diz o imaginário popular, vem beeeem antes das strippers de lingerie e salto agulha nos bares americanos, e requer muito mais força, técnica e leveza do que parece.

De cara, dá para ver que existem semelhanças com a dança clássica: os pés das pernas de trabalho SEMPRE estão esticados, as pernas também fazem movimentos conhecidos, como o espacate, arabesque, penchée, e os braços, quando não estão segurando a bailarina no mastro, podem fazer port-de-bras riquíssimos. E tudo sem impacto!

Conversamos com Erika Thompson, pole dancer – ou polerina – que já participou de vários campeonatos nacionais e internacionais (ano passado ela competiu no Mundial na China, ficando entre as finalistas, e foi vice-campeã do Miss Glamour em 2014), que explica as diferenças entre pole dance e pole sport e como fazer para começar.

 

Como foi que surgiu o pole dance?

É uma atividade que veio de uma ginástica, e não veio como dança, a princípio. Ele surgiu na Índia e o pole era de madeira. Os homens – porque mulheres não podiam – faziam várias acrobacias. Com o tempo isso foi se aprimorando até chegar ao circo. De lá se dividiu em duas vertentes. Uma foi a acrobacia, mesmo, que se consolidou como esporte tipo a ginástica. A outra foi a dança sensual.

Muita gente ainda hoje associa o pole dance à sensualidade, com a dançarina de salto alto e lingerie…

Sim, sim. Se eu não me engano, durante as guerras as mulheres eram chamadas para dançar em volta do pau da barraca que os soldados ficavam. Acho que saiu daí. E, ao mesmo tempo, tinha o circo usando o pole no mastro chinês, de uma forma completamente diferente. Daí a isso virar o que fazemos hoje levou bastante tempo. Tem uns seis anos que fazemos pole dance dessa forma, incorporando dança contemporânea, jazz, stiletto… Aí o salto entra com outra funcionalidade, é parte da dança, tem técnica. Como uma sapatilha.

Erika no Mundial na China Foto: Acervo pessoal
No Mundial na China. Foto: Acervo pessoal

E quais são os benefícios?

São infinitos. Desde físicos até psicológicos. No corpo é uma atividade que trabalha muito os músculos. De cara, os braços, até para conseguir subir no mastro. Mas não fica nada de fora: pernas, glúteos, costas, abdômen… Tem que ter muita força. É muito completo como atividade física. Mas eu vejo que o pole traz algo que não sei se outras danças trazem, pois é algo mais democrático. Todas as pessoas podem fazer em qualquer momento da vida. Não precisa ser desde pequenininha, até porque o pole kids começou tem uns quatro anos. A maioria começou já adulta ou adolescente. E você pode fazer uma performance incrível independente do peso, altura, porte físico.

Nas aulas e apresentações vocês estão sempre de top e shortinho, analisando bastante o próprio corpo. Isso acaba sendo ruim?

Pelo contrário. Muitas alunas até chegam complexadas com o próprio corpo, mas todas elas me disseram que passaram a ter uma relação melhor com o corpo depois de ver capaz de fazer. Aquele corpo, que elas achavam tão imperfeito, pode fazer tanta coisa que elas nunca imaginavam, que elas passam a amá-lo do jeito é. Tem outra coisa: você tem que começar a tirar a roupa, porque senão você não avança. O pole precisa do atrito da pele, e com blusa e short muito longos você não consegue isso. Você tem que escolher se você se esconde ou se evolui.

A movimentação do pole dance parece ser infinita. São muitos passos ou variações de passos?

Esse é um processo que ainda está em formação. Às vezes uma aluna que está mais avançada começa um movimento e ele se desenvolve de um jeito diferente. Aí me perguntam se está errado. Não, só não existia antes! A gente ainda está criando passos e movimentos. Existem os básicos e tradicionais, variações deles, também, mas tem mais coisa sendo inventada. Novas combinações, novas técnicas… No instagram, mesmo, todo dia tem coisa nova aparecendo. O pole ainda não está pronto. Não sei se um dia vai ficar.

O que é preciso para começar a dançar?

Algumas travas, posições de mãos, trava de pernas para se segurar no pole, e saber descer. Porque muitas vezes a pessoa executa bem o movimento mas “cai”. Não é uma atividade de impacto, ou você desce escorregando ou desce controlado. Se cai “tombando” pode machucar. E, assim como em outras danças, a ponta de pé é essencial. É uma atividade longilínea. Em campeonatos, mesmo, se você deixar o pé mole, as pernas frouxas e ficar se ajeitando muito na barra você perde ponto.

E os homens no pole dance?

Não é tão antigo como as mulheres, mas não é tão recente. O primeiro homem campeão brasileiro foi em 2010. Se o pole dance tem uns 15 anos como atividade aqui no Brasil, a participação masculina deve ter metade disso. Os meninos que faziam mastro chinês no circo descobriram no pole uma variação daquilo que eles já conheciam. Acho que eles vêm mais pela questão da força, mesmo.  Ainda existe o preconceito de que é coisa de mulher, de gay… Faz quem quer, gente. Não tem isso. O pole dá muita força, agilidade, flexibilidade, e isso começou a chamar atenção deles. E que bom!

Você começou como atleta, não foi? O que te fez mudar para dança?

No decorrer da minha carreira como atleta eu me percebi muito mais como artista do que como atleta. Nos campeonatos de pole sport, mesmo, eu comecei a enjoar do que via. Funciona como a ginástica, tem movimentos que dão mais pontos, quando combinados com outros têm mais pontos ainda, tanto tempo no solo, tanto tempo na barra… Então as coreografias ficam muito iguais. Você tem que colocar determinado movimento porque senão você não vai ganhar. E eu comecei a querer dançar do jeito que eu queria, colocar os movimentos que eu queria, sabe? Por isso me identifico, hoje, mais com a dança do que com o esporte. Eu gostava muito de competir. Hoje eu quero ter liberdade para criar, e ter um corpo que me permita criar.

Erika tem um studio onde treina e dá aulas de pole dance em Salvador. Quer saber mais? Clica aqui! O instagram dela é @erikathompson.poledancer. Segue que é babado!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Victor Hugo: “Quero ajudar a popularizar a dança na Bahia”

Diretor do Grupo Experimental de Jazz, Victor Hugo Paiva – ou apenas Victor Hugo, como ele prefere ser chamado – se viu numa encruzilhada quando se viu sem o apoio financeiro do edital Agitação Cultural, da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult). Assim como sua companhia, vários outros artistas que passaram no edital tiveram suspensos os repasses por conta da crise financeira.

Determinado a comemorar os cinco anos do grupo, Victor Hugo resolveu assumir os custos do espetáculo e produzi-lo do jeito que tinha imaginado – ou o mais próximo disso. Em nossa conversa, ele conta que problemas como esse são comuns, e que tanto o empresariado baiano quanto o governo falham na hora de incentivar artistas.

Mesmo assim, Victor Hugo espera conseguir mudar um pouquinho esse cenário, e popularizar a dança na Bahia até que ela faça parte do calendário das pessoas. Seu espetáculo, “A Última Ceia”, que será apresentado no Teatro Isba no dia 21 de janeiro, será o primeiro passo nesse sentido.

Sua companhia chegou a passar num edital- que depois retirou o apoio financeiro por conta da crise. No que isso alterou seus planos?

Isso nos impactou de uma forma muito forte. Eu tive que assumir praticamente 100% tudo financeiramente, quando eu contava com um apoio. Então, fica complicado. Mas quis manter tudo que tinha planejado, na medida do possível. E resolvi trazer o Owen (Lonzar, coreógrafo sul-africano). Trazer alguém de fora é ampliar o conhecimento. Eu já tinha visto shows dele e achei as produções bem diferente. Conheci o trabalho dele na Turquia, quando ele fazia shows em hotéis. Na época, percebi que ele fazia algo extra de entretenimento e o convidei para ver meu grupo.

E como foi essa troca de experiências?

Existem informações novas: ele pensa de uma forma diferentes e tem uma organização diferente. Houve um choque entre elenco e professor. Ele não tolera atraso. A gente tem esse negócio de chegar dez ou quinze minutinhos atrasado que ainda ‘está na hora’. Com ele, não. Na cabeça dele tá tudo organizado, mesmo que a gente não entenda. Na questão coreográfica não tem nada muito diferente do que a gente faz, do movimento. Mas é um cuidado diferente, não é o que se faz, mas a forma com que se faz.

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Filipe Monteverde e Victor Hugo (centro) com  o corpo de baile do Grupo Experimental de Jazz (Foto: Arquivo pessoal)

Por que você resolveu, agora, fazer um trabalho maior?

Meu grupo está fazendo cinco anos, por isso eu quis fazer algo diferente e movimentar a cidade, que está parada – culturalmente falando. Eu tenho um TOC de datas, quase, e gosto muito de comemoração. São pessoas que estão comigo há um tempo. Tenho medo de estagnar e fazer sempre a mesma coisa, porque isso é o que me motiva, para vivenciar outras coisas. Faço muitos cursos, participo de congresso de dança. Mas não são todos do grupo que vivem de dança, até para que eles se permitam continuar no grupo. Sei que não são todos que têm as mesmas oportunidades que eu de estar tão imerso no meio da dança. Ao mesmo tempo que trago esse coreógrafo pra mim trago pra eles também.

O que te fez escolher a dança para viver?

Me divirto muito dançando, dançava para extravasar. Quando escolhi dança como profissão, escolhi para me comunicar. Falo muito na sala de aula, nos ensaios, porque não me sinto sempre compreendido. Isso acontece mais com a dança. Quando crio uma coreografia de cinco, dez minutos, consigo ouvir dos que assistiram que se emocionaram, que se divertiram. Isso que me motiva na dança.

Existem empecilhos para trabalhar com dança na Bahia?

Ouço muita gente dizer que somos atrasados aqui na Bahia. Mas o que falta mesmo é uma postura profissional, não é atraso de técnica. A gente tolera muitos atrasos, muitos problemas. A gente tem que colocar mais verdade, mais compromisso. E isso não está relacionado a poder aquisitivo ou status. Tem muita gente em companhia que não vive de dança, e muitas vezes são essas as que se empenham mais. Se tem atraso aqui na Bahia é porque as pessoas querem separar tudo. Se eu faço jazz, meu trabalho é menor do que meu colega que faz contemporâneo. O pessoal que faz afro não passa em edital porque é afro, as pessoas têm preconceito. A gente entende a dança como estilo, e deve passar a entender como movimento. Se eu escolhi o jazz é porque eu me sinto mais confortável dançando e criando assim, não quer dizer que eu não faça outras coisas.

E na parte operacional da coisa, o que dificulta mais?

Existem empecilhos, como conseguir um teatro, apoio financeiro. Minha companhia passou duas vezes em edital, inclusive me disseram que foi o primeiro grupo de jazz a conseguir isso. Tem gente que diz que não dá pra viver de edital pra não ficar dependendo. Esse ano mesmo não teve, como é que faz? Como funciona o apoio? Tem gente que tem sorte de conhecer pessoas. O diretor de uma empresa que dá mil reais, que seja, já ajuda muito.

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Apresentação do Grupo Experimental de Jazz (Foto: Arquicvo Pessoal)

Como é o público de dança?

Nosso público não lota teatro. Temos um problema em Salvador, porque as pessoas não saem de casa para ir ao teatro. A gente não pode contar com o público de teatro. Nossos ingressos são vendidos entre familiares e amigos da dança. Quem assiste dança em Salvador é quem pratica dança. Hoje em dia temos as redes sociais, e é por lá que a gente divulga muito, porque não temos muito espaço na mídia. Além disso, as pessoas não têm o costume de abrir o jornal pra procurar uma apresentação de dança pra assistir. A gente compete com cinema, com show de Pablo… Às vezes as pessoas perguntam ‘quanto é’ e a gente fala o preço, R$ 30 reais. As pessoas não pagam R$ 30 numa apresentação de dança, mas gastam mais que R$ 50 numa sentada de bar num domingo. A gente quer popularizar a dança na Bahia. Quero arriscar, to lançando um canal do Youtube para disseminar a dança aqui. Amo cinema, adoro uma sala cheia. Adoraria ver isso com o teatro também.

 O que: “A Última Ceia”, coreografia de Owen Lonzar. Os ingressos custam R$ 30 e podem ser conseguidos através dos bailarinos

Onde: Teatro Isba, Ondina, Salvador (BA)

Quando: Dia 21 de janeiro. Sessões às 19h e 20h30

Lysion Vieira: “Foi um desespero fazer tantos movimentos novos”

Dono de uma risada contagiante, uma disciplina militar e de um eixo de dar inveja, Lysion Vieira é um dos bailarinos brasileiros que precisaram ir para fora do Brasil para realizar o sonho de dançar profissionalmente. Nascido em Porto Alegre e radicado na Bahia, onde se formou em Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lysion dança desde 2013 na Ad Deum Dance Company, em Houston, no Texas, Estados Unidos.

De formação majoritariamente clássica, ele conta um pouquinho do desafio que foi aprender e se acostumar com passos e estruturas tão diferentes – além das diferenças culturais, claro.

E a dança não foi tudo que ele conquistou! Foi na companhia que ele conheceu a namorada, a americana Emily Runyeon – que até já veio conhecer o Brasil.

Lysion dançando pela Ad Deum (Foto: Sotter Fotografia)
Lysion e Emily dançando pela Ad Deum (Foto: Sotter Fotografia)

Como foi sua chegada na dança profissional depois de se formar?

Foi bem tenso, fiquei na verdade o ano de 2013 apenas dando aulas, e no final deste mesmo ano descobri que o que eu queria mesmo era dançar. As companhias de dança que me interessavam aqui no Brasil pelo perfil de trabalho nunca me aceitavam em audições, então decidi me desafiar a algo no exterior. E fui aceito. Fiz inicialmente a audição por vídeo e currículo. E depois passei por três meses de avaliações já dentro da companhia. Quando finalizaram os três meses, fui chamado para fazer parte da companhia principal.

 

Apresentação ao ar livre da Ad Deum (Foto: Arquivo Pessoal)
Apresentação ao ar livre (Foto: Arquivo pessoal)

Como foi sua adaptação nos Estados Unidos?

A adaptação foi algo bem desafiador, culturas bem diferentes, mas estava bem aberto ao novo, fui para lá sem muitos muros. A saudade da família e a adaptação com a língua foram um dos maiores desafios no começo. Nas temporadas que participei, havia apenas eu, brasileiro, e uma japonesa de estrangeiros.

Como é a dinâmica de aula numa companhia profissional?

É uma exigência completamente diferente. Muito mais desafiador, porém muito inspirador estar com pessoas que têm diferentes envolvimentos com a dança no nível profissional em uma sala. Você se vê desafiado a melhorar dia após dia, e muitas vezes fazer um “reforço individual” fora da sala de aula para atender melhor essas demandas. Mas é muito gratificante poder ver o crescimento gerado através deste desafio diário.

Sua base é essencialmente clássica. Foi difícil se adaptar a outros estilos?

Mesmo a companhia tendo linhas contemporâneas e modernas, a base  permanece clássica. Mas foi um desespero, honestamente falando, receber aquela carga de qualidade de movimento completamente diferente da que eu estava acostumado. Hoje percebo que acrescentou muito mais na minha linguagem corporal, e comecei a curtir e amar mais as contrações, espirais e “high releases” de Martha Graham Technique, as liberações de Limón, os trabalhos de força exigidos  da linha de Horton. A respeito do ballet, de dançar, bate aquela saudade dos pas de deux de repertório, mas ele ainda está muito presente no meu dia a dia. Foi e é uma base fundamental para o que executo hoje!

E seu namoro com Emily? Namorar uma bailarina e partner é mais fácil ou mais complicado?

Na verdade o nosso namoro começou dois dias antes de eu retornar para o Brasil – minha volta foi por motivos familiares  – e foi exatamente a última temporada que ela estava participando. Tivemos a experiência de sermos partners, mas também construímos um relacionamento de amizade muito lindo antes do coração começar a bater mais forte e as “borboletas começarem a dançar na barriga”. Dançar com ela depois de estarmos namorando mudou completamente a atmosfera de dançar junto. Esse algo especial valorizou ainda mais os momentos em cena, e acredito que o relacionamento atingiu um outro nível de maturidade. E a dança super ajuda no relacionamento! Não apenas como bailarina e profissional, mas também pela pessoa maravilhosa que ela é de dentro para fora, que me faz desejar ainda mais estar ao lado dela a minha vida toda.

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Lysion e Emily ❤

Filipe Monteverde: “Eu sempre tive esse lado dramático em mim”

Foto: Júlia Lima

Logo que chego, já vejo a movimentação expressiva, forte e marcada característica da companhia. O ensaio já acontece a todo vapor e bailarinos em vigor dão tudo de si na carga emocional e feroz que “Instinto” demanda. Eu, que fui integrante da companhia por cinco anos, toda vez que assisto sinto uma vontade avassaladora de estar junto e dançando, partilhando desse momento tão gostoso. Por hora fico apenas como espectador observando. Por enquanto… (risos)

Lipe, como sempre, muito focado na correção de intenção de movimento que os bailarinos devem passar para o público, isso para ele é essencial. Quase que uma marca registrada. Corre tudo muito bem durante os ensaios e o elenco vai refinando cada vez mais os movimentos, para que tudo esteja perfeito para a estreia, dia 15 de dezembro (aliás, estarei lá assistindo rs).

Graduado em Dança pela Universidade Federal da Bahia, Filipe Monteverde também é bailarino, professor, coreógrafo e diretor da Kátharsis companhia de Dança, já ganhou por três vezes o primeiro lugar no concurso Ballace, na categoria Livre Avançado. Agora, ele conta para OITO TEMPOS sobre esse momento especial para ele e seu elenco, e o que esperar do futuro da cia.

Foto: Divulgação
Kátharsis em movimento

Como surgiu a Kátharsis?

Surgiu a partir de um laboratório de corpo e criação, durante o curso de dança da UFBA. Em um trabalho de pesquisa de movimento, surgiu meu primeiro trabalho chamado “Musevi” (judeu em turco), no qual eu trouxe essa relação dos judeus dentro do campo de concentração, desde a câmara de gás, os corpos nas valas e etc. A partir daí o trabalho tomou força e eu tive a ideia de criar um grupo para levar para concurso, mostras de dança, e a companhia surge a partir disso. O nome Kátharsis foi dado por um amigo. Pedi para ele relacionar uma foto minha desse trabalho junto a minha movimentação, o que ele via naquilo. O nome combinou perfeitamente com minha proposta dentro do Contemporany Jazz, a questão do sentimento, que não deixa de ser jazz, mas possui essa carga emocional, visceral, o que vem de dentro para fora, totalmente explícita nas coisas que eu faço.

De onde vem a inspiração para essas coreografias tão fortes que você cria, que causa impacto e reações variadas em quem assiste?

Minha inspiração parte de sensações, tudo o que a gente vê, o que a gente passa, vivências pessoais, com amigos. Eu sempre tive esse lado dramático em mim e eu relaciono muito minhas criações a linguagem cinematográfica. Acredito que o cinema tem um poder muito grande de sensações que provoca no espectador. A dança, claro, tem sensações, mas ela pode ser aprofundada. Quando penso em dança, vem primeiramente esse sentimento que você quer imprimir de verdade na pessoa, em como meu trabalho passa de verdade para quem está assistindo. Acho isso muito forte quando nos propomos a fazer algo: acreditar no que você faz e assim passar para a plateia, e eu não tenho medo disso. Sempre arrisco o que eu quero, penso em temas polêmicos, dramáticos, porque eu tenho isso na veia. Justamente por serem temas extremamente fortes, eu preciso experimentar, passar isso para que os bailarinos reproduzam para quem assiste.

Você sente algum preconceito/resistência das pessoas que vem seu trabalho por ser um estilo diferente do que se está acostumado no nosso cenário de dança?

O que me proponho a fazer juntamente com a companhia foi super positivo no retorno, justamente por haver uma verdade muito grande no que faço. Mesmo não agradando a todos, há uma verdade impressa para quem vê e isso volta de uma forma positiva. Acredito que tem sim um preconceito contra o jazz, por ser visto a partir de outras linguagens, associado a algo cafona, antiprofissional, o que não é verdade. O jazz tem uma carga muito forte, seu valor, sua história desde o surgimento com os negros norte americanos até hoje, na polissemia de movimento. Ele agrega e contribui muito. Acho que se ele não existisse, haveria um grande problema no universo da dança.

Durante cinco anos fui integrante da companhia e sempre acompanhei essa rotatividade do elenco ao longo dos anos. Como você encara essas mudanças?

Por ser um grupo muito grande tem essa rotatividade mesmo. Eu, por não fazer audições, sempre convido os bailarinos, tem sempre essa troca. Trabalhar com elenco grande, para mim, é sempre muito bom. Mesmo saindo um, o carinho sempre está por aqui, junto, acolhedor, sempre temos essa troca. Gosto muito de estar recebendo quem sai e volta. A Kátharsis é isso, claro que sempre de uma forma boa. Todos os que passam por aqui são muito queridos!

Primeiro espetáculo como companhia independente. Como está sendo essa preparação?

Tá uma maluquice né (risos), mas tá rolando. Os bailarinos ajudam muito, a equipe externa é muito boa, desde a cenografia até o figurino são pessoas que estão ajudando muito. Temos todo esse apoio de parcerias, escolas amigas que forneceram desde o linóleo até o espaço para ensaiarmos. É uma sensação muito boa pois sempre fiz trabalhos pequenos e tá sendo uma maravilha fazer um longa, uma sensação incrível. Esse ano conseguimos fazer isso, eu tô muito feliz e espero que o resultado seja maravilhoso, para os bailarinos e para quem assiste.

Seu espetáculo “Instinto” estreia dia 15 de dezembro no teatro ISBA. Conta pra gente a concepção dele e o que o público deve esperar no dia.

É uma mistura de sentimentos, relacionado a filmes e outras coisas. Me inspirei livremente na trilogia “Planeta dos Macacos”, o último filme justamente fala dessa questão humano/animal. Também porque meu gato morreu e resolvi homenageá-lo colocando como um dos personagens. É um espetáculo que envolve desde o início ao final o espectador, por muitas coisas. Ele não é linear, trabalha muito as sensações, tem nuances, fortes, leves, volta para o forte. Ele frisa a questão de o instinto não ser somente selvagem, como as pessoas pensam. Ele tem uma carga suave, maternal muito grande dentro dele, brinca com as nuances da palavra em si. Por tratar de uma narrativa deixa mais forte a ligação ao tema. Acredito que vai emocionar muito e espero que todos gostem. Convido todos a assistirem dia 15! Vão se arrepender se vocês não forem!

Foto: Júlia Lima
Ensaio de Instinto. Foto: Júlia Lima

O que podemos esperar da Kátharsis após esse momento pós-Instinto?

Espero uma grande turnê, que possamos viajar e propagar essa ideia para muita gente, não só aqui mas no Brasil, no mundo. Tenho essa vontade muito grande de vivenciar editais, viajar com os bailarinos e proporcionar um nível mais elevado tanto para Salvador no cenário da dança quanto para a companhia.

Algum último recado para os leitores do OITO TEMPOS?

Espero que a partir dessa matéria, que eles acompanhem muito mais o blog, que possam compartilhar o que acontece porque… é cultura! É uma forma maior e melhor de informação. Acho muito bom vocês terem tido essa iniciativa para ampliar mais esse horizonte e as pessoas acompanharem o que acontece sobre dança na cidade. Agradeço de poder ter esse momento, mostrando meu espetáculo e a companhia dentro do espaço do blog. E que a partir disso, as pessoas acompanhem o blog, que com certeza tem um bom gosto maravilhoso! ❤

 

OBS: A foto de abertura também é da Júlia Lima!

Priscilla Yokoi: “A Gala Clássica já é prioridade na minha vida”

Priscilla Yokoi. Foto: Felipe Lessa
Priscilla Yokoi. Foto: Felipe Lessa (Evidence Ballet)

Mãe da pequena Manuela (prestes a completar um aninho!), professora de dança, palestrante e bailarina da Cia Brasileira de Danças Clássicas, Priscilla Yokoi experimenta, agora, o posto de empreendedora da dança no país. Ela está à frente da Gala Clássica Internacional, projeto que existe desde 2012 com o objetivo de revelar talentos e fomentar a prática da dança Brasil afora. De volta aos palcos aos 32 anos, após um período  mais voltado para outros projetos e para a família, Priscilla conta um pouquinho da sua trajetória profissional, seus maiores desafios e, claro, adianta o que vem pela frente.

Como surgiu a ideia da Gala Clássica Internacional? Quais são os objetivos do projeto?

A Gala Clássica é um projeto sócio-cultural onde a gente faz um intercâmbio entre bailarinos e estudantes brasileiros e bailarinos e estudantes internacionais, professores também internacionais. Essa ideia surgiu por eu ir para muitos festivais de danças e companhias no exterior e ver como o ballet faz parte da cultura desses lugares. É um incentivo para a cultura do nosso país. Eu proporciono esse evento totalmente gratuito para os participantes: eles não pagam taxa de inscrição, não pagam para dançar… Eles fazem audição para a escola do Bolshoi e seletiva para um dos melhores concursos do mundo, que é o YAGP. E é tudo gratuito, eles não pagam nada. Por isso é um projeto sócio-cultural.

Tem como adiantar o que vem por aí?

A seletiva já foi e os resultados já saíram. São 150 participantes, e eles terão três dias intensos de workshops e ensaios. Esses ensaios são para um ballet de 15 minutos onde todos os participantes vão dançar e ele será montado dentro desses três dias. E no quarto dia será a grande gala no Theatro Municipal de São Paulo, onde esses bailarinos vão dançar, onde os solistas também vão dançar e onde os bailarinos internacionais também vão fazer esse intercâmbio com os estudantes. O que eu posso adiantar é isso!

Priscilla e Manu! Foto: Evidence Ballet
Priscilla e Manu! Foto: Evidence Ballet

Você é uma das bailarinas mais promissoras da sua geração. Como foi que você chegou à dança?

Eu iniciei meus estudos de ballet clássico com dois anos, minha irmã fazia ballet, e desde os meus dois aninhos eu me encantei pela música clássica, pelos passos, pela leveza da dança… Foi aí que eu comecei com a dança, foi um desejo meu de ser uma bailarina. E obrigada por me colocar como uma das bailarinas mais promissoras da minha geração! Eu agradeço.

Como e quando você decidiu ser profissional? E quais foram os seus maiores desafios?

Desde que eu comecei a dançar meu desejo era ser bailarina, então desde pequena eu sempre quis isso, sempre corri atrás para que esse desejo se tornasse realidade. E os meus maiores desafios… Ah, foram vários! O meu primeiro grande desafio foi ir ao (Prix de) Lausanne, na Suíça, sozinha, com 15 anos, sem saber falar qualquer outra língua, falando só português (nesta competição, Priscilla foi finalista, ficando entre as dez melhores bailarinas estudantis do mundo). Foi o meu primeiro desafio. Os outros vão surgindo no dia a dia, porque as dificuldades sempre aparecem. A gente tem que enfrentar um gigante todos os dias!

Quais são seus projetos futuros?

A Gala, que está se tornando uma prioridade na minha vida. Acabando essa eu já começo a do ano que vem. Na verdade, eu já comecei a do ano que vem! Dei agora uma pausa só para poder realizar a desse ano. Voltei a dançar, tem algumas coisas que eu não posso falar ainda… Mas o que posso adiantar é sobre a Gala. O ano que vem vai ser ainda melhor do que esse ano!

E, mais importante: quando veremos a Manu de bailarina?

Ah, não sei (risos)! Vou colocar a Manu no ballet, com certeza, porque eu sei que o ballet traz disciplina, postura, bom comportamento… O ballet para a criança tem muitas qualidades. Na verdade, o ballet para qualquer idade tem muitas qualidades. Mas eu, Priscilla, não gostaria que ela se tornasse uma bailarina profissional. Mas isso vai depender dela, se ela quiser eu vou incentivar, claro. Mas só se ela quiser e tiver condições. Eu sou muito exigente comigo e com a Manu acho que vou ser muito mais. É uma coisa delicada, então… Só se ela quiser muito, de todo coração, de toda alma, será uma bailarina.

Veja aqui Priscilla dançando a variação feminina em Harlequinade!

 

 

Ed Cruz: “O Balé Folclórico da Bahia abriu minha cabeça”

Foto: arquivo pessoal
Ed é formado em ballet clássico, contemporâneo e afro

Talvez por ter nascido em Salvador, na Bahia, o bailarino Ednei Cruz tem formação bem eclética: seu currículo soma ballet clássico, contemporâneo e afro. Aos 23 anos, Ed se despede do Balé Folclórico da Bahia (BFB) para realizar o sonho de dançar fora do país: em janeiro, ele ingressa na Alvin Ailey American Dance Theater, em Nova York, nos Estados Unidos, e vai se tornar mais um dançarino brasileiro a tentar reconhecimento em companhias internacionais. Apesar de ter estudado apenas no Brasil, Ed se apresentou em vários palcos do mundo pelo BFB, e sabe bem o que é um teatro cheio. Além disso, ele diz que a companhia dá um ‘empurrãozinho’ para que os bailarinos da casa saiam do ninho – e isso, somado a fatores sociais e profissionais, fez com que o bailarino remodelasse sua visão do balé folclórico e da própria dança. Confira abaixo a entrevista completa!

Você tem uma formação muito ampla: ballet clássico, contemporâneo e afro. Com qual se identifica mais?

Antigamente eu me encontrava mais no clássico. Mas hoje, no moderno e no afro eu me sinto mais livre para fazer o que eu quero. Dá para colocar mais sentimento, mais expressão no movimento, sem se preocupar tanto com a técnica.

O Balé Folclórico resolveu ‘esticar’ o final de temporada em Salvador, que inicialmente tinha sido em 4 de setembro. Curiosamente, a procura por ingressos na cidade da companhia nunca foi muito forte. Isso mudou?

Depois desse dia 4 de setembro, quando terminamos inicialmente a temporada no Teatro Castro Alves, ficamos muito surpresos com a venda de ingressos, foi muita gente diferente do público que sempre ia. Normalmente iam bailarinos amigos nossos, gente do meio da dança daqui da Bahia que gostava e ia prestigiar. Agora, pessoas que entendem do afro passaram a assistir também, gente que vive a cultura. Antes não tínhamos muito público, o baiano não queria nos ver dançar. E isso está mudando. Por isso que esses dois dias extras foram colocados. Muita gente tentou ir na primeira data e não conseguiu. Foi uma surpresa maravilhosa.

Foto: Balé Folclórico da Bahia
“Herança Sagrada, a Corte de Oxalá”, do BFB

Tem algum repertório ou montagem que gostaria de dançar?

Tem, sim. Revelations, que é do repertório do próprio Alvin Ailey. Ganhei uma bolsa de estudos pra dançar lá em janeiro e espero que esse repertório esteja incluído, porque sou apaixonado por ele.

E como você conseguiu entrar na Alvin Ailey?

Primeiro eu mandei um vídeo e consegui bolsa para o curso de verão (que aconteceu em julho). Normalmente, para entrar na companhia, tem que fazer audição, mas, como eu fiz o curso, ganhei a bolsa. Era até para eu ter ido em setembro, mas, por conta dos custos, eu consegui adiar para janeiro do ano que vem.

Você sempre quis ir para o exterior?

Dançar fora do país sempre foi um desejo meu. Quando entrei no Balé Folclórico foi para isso. Eu sinto até vergonha em dizer, mas eu não conhecia a companhia, só fiz audição porque sabia que o Balé fazia turnês internacionais. E, por sorte, eles têm esse foco de formar bailarinos pra fora. Quando entrei eu tinha uma mentalidade totalmente diferente. Eu tirei muita coisa boa na questão artística e pessoal. Coisas como a forma de você se vestir, como se portar, o jeito de falar com os bailarinos, com as pessoas… Abriu minha cabeça. Isso é maravilhoso.

Tem algo que você acha que dê certo para todos os tipos de dança?

Indiscutivelmente, o ballet clássico. Para conseguir fazer os passos com facilidade o clássico é indispensável, porque é a base de tudo. Antes de eu chegar no Balé Folclórico eu era só clássico, e lá é tudo diferente. A movimentação é diferente, a respiração é diferente, o sentimento… Não acho que exista alguma coisa que dê certo em todas as danças, porque cada uma é muito diferente da outra. O clássico tem o rigor da técnica, o afro é mais condicionamento e explosão, o contemporâneo é uma movimentação mais fluida…

Qual é a sua maior inspiração?

Desmond Richardson, da Complexions Contemporary Ballet – e ex-bailarino da Alvin Ailey. Logo que comecei a dançar eu pensei ‘eu quero ser igual a esse cara’, sabe? Então eu fui em frente, fiz audições e comecei a dançar profissionalmente. Fui crescendo até chegar onde cheguei.

  • O Balé Folclórico da Bahia encerra nos dias 24 e 25 de outubro a temporada de “Herança Sagrada: a corte de Oxalá”, no Teatro Castro Alves (Salvador). Os ingressos estão esgotados!