Anastasia Kazakova : É muita felicidade dançar no Brasil

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Anastasia Kazakova (Foto: Reprodução)

Bailarina formada pela escola Vaganova, em São Petersburgo, na Rússia, Anastasia Kazakova é uma das vinte solistas que integram a equipe de bailarinos do Ballet da Rússia, que estão fazendo uma turnê pelo Brasil desde abril. Ela, que é solista do Bolshoi, diz que é muito interessante se apresentar em várias cidades de um país grande como o Brasil, e se mostrou especialmente feliz com a resposta do o público, tão calorosa e receptiva.

Como é fazer uma turnê tão extensa como essa aqui no Brasil?

É uma turnê de ballet maravilhosa, e estamos todos muito felizes de estar aqui. Gostamos muito de passar pelas cidades maiores e mais conhecidas, como São Paulo, Rio de Janeiro, e, agora, Salvador. Mas também adoramos passar pelas cidades menores, que se mostraram tão receptivas quanto as grandes. Percebemos que o público gostou muito do espetáculo, e é muito caloroso com a gente.

O espetáculo é feito de divertimentos, ou seja, trechos que repertórios. Quais são mais fáceis de dançar? Qual ballet você gosta mais de dançar?

É mais fácil dançar esses divertimentos porque são trechos de ballets clássicos que a gente já está acostumado a dançar, como O Lago dos Cisnes, a Bela Adormecida, etc, até porque nossa formação, na Rússia, é mais tradicional e prioriza os grandes clássicos.

No segundo ato são peças mais modernas, mais contemporâneas, como Balanchine e Forsythe. São repertórios mais novos, portanto.

Não tenho como escolher um só como preferido! Adoro dançar todos eles, especialmente os clássicos.

O ballet russo tem ganhado mais espaço aqui no Brasil, seja na adoção do método em escolas ou na transmissão ao vivo das apresentações do Bolshoi em cinemas. Na sua opinião, o que diferencia o ballet russo dos demais?

Na verdade, o ballet na própria Rússia tem escolas diferentes. Eu sou formada na Vaganova, em São Petersburgo,  onde a prioridade é a extensão das pernas, dos braços e as linhas. Somos treinados para permanecermos em poses bonitas. O ballet de Moscou já prioriza pernas mais altas, muitas piruetas, explosão e agilidade. Mas mesmo dançando na Rússia a gente tem contato com bailarinos formados em Cuba, nos Estados Unidos, que vêm de técnicas diferentes, então a gente está sempre se aprimorando.

Mas, se eu tivesse que escolher uma formação, seria a Vaganova. É a melhor escola do mundo, a número 1.

Veja galeria de imagens do espetáculo! Fotos de Andrey Lapin e divulgação


O espetáculo Estrelas do Ballet Russo está em cartaz em Salvador nos dias 11 e 12 de maio, no Teatro Castro Alves. Ainda tem ingressos à venda na bilheteria e no site.

Próximas apresentações:

Aracaju:Teatro Atheneu, no dia 13 de maio (sexta-feira)

Teresina: Teatro Teresina Hall, no dia 14 de maio (sábado)

Fortaleza: Teatro Unifor, no dia 15 de maio (domingo) e Riomar, no dia 17 de maio (terça-feira)

Mais informações: http://www.balletdarussia.com/

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Um presente agregador!

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Grupo Experimental de Jazz em cena (Foto: Arquivo pessoal)

A gente já tinha conversado aqui com o diretor do Grupo Experimental de Jazz, Victor Hugo, sobre as dificuldades de se manter uma companhia de dança no Brasil. E são muitas: desde o público, que não enxerga uma atividade cultural como lazer, ao custo enorme de organizar apresentações sem qualquer tipo de patrocínio.

Pois bem: nesta semana foi o aniversário dele (parabéns!!!), e, como todo aniversariante, Victor Hugo pediu um presentinho. Só que em vez de roupas, acessórios ou um jantarzinho à luz de velas, o presente que ele pediu não foi só pra ele. Foi um pedido de ajuda para custear o novo espetáculo do grupo.

Ficamos muito tocados com essa iniciativa, e resolvemos divulgar a mensagem que ele mandou aos amigos do Facebook. Esperamos que Victor Hugo receba MUITOS presentes, e que ele continue a nos presentear com a dança 🙂

“Pois é, como o Facebook cumpre muito bem o papel de avisar datas de aniversário, todos os meus amigos do Face sabem que o meu está chegando. Esse ano eu não quero presentes específicos, quero pedir aos meus amigos, ou às pessoas que admiram meu trabalho, ou às que simplesmente acreditam na arte para ajudar na arrecadação de verba para a produção do novo espetáculo do Grupo Experimental de Jazz. Então peço a todos como forma de presente que doem o que puderem!”

O link para a Vakinha está aqui, e quem quiser saber um pouquinho mais da companhia dele pode assistir aqui:

Mônica Nascimento: Me orgulho de estar há 24 anos no BTCA

Que abril é mês da dança isso já não é novidade, certo? Além de ser um mês cheios de atrações, também é o mês em que o Balé Teatro Castro Alves completa 35 anos! Além do post já dedicado a esse marco (que você confere aqui), o OITO TEMPOS conversou com Mônica Nascimento, bailarina cuja história na dança está entrelaçada à da companhia. Seu relato, com certeza, vale esse post à parte:

“A ideia de comemorar os 35 anos do BTCA, inicialmente, foi um grande desafio para mim. Não tinha certeza se esse seria um momento de comemoração. Sem orçamento desde 2015, passamos por dificuldades para realizar projetos artísticos, dançar para população… enfim, desempenhar nossa função como Companhia Oficial de Dança do Estado da Bahia.

Minha motivação foi crescendo com o (re)encontro com o coreógrafo Luis Arrieta, um mestre que transpira arte, devoção e amor à dança, inteireza! Lembranças incríveis de tempos idos, crescimento! E, também uma oportunidade de nessa linda e emocionante festa informar aos nossos amigos e à população como o BTCA se encontra nos dias de hoje.

Tenho orgulho do empenho do nosso diretor atual, ex-bailarino do BTCA, Antrifo Sanches, para realizar esse ‘niver’! Também tenho orgulho de como demostramos o amor por essa companhia e sua história. Tenho orgulho de estar há 24 anos no BTCA e, perceber a vital importância dela na minha vida profissional e pessoal (será que tem diferença?). Meu primeiro filho se chama Guilherme e sei que esse nome surgiu por inspiração de um coreógrafo que foi relevante para minha formação, Guilherme Botelho!

Que o Balé Teatro Castro Alves continue sendo um importante propagador da arte por muitos e muitos anos!”

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Mônica Nascimento e seu sorriso inseparável! (Fotos: Arquivo pessoal)

Não poderíamos dizer melhor, Mônica! Arrasou no depoimento da mesma forma que você arrasa nos palcos 🙂

BTCA 35 Anos!

Nos dias 1 e 2 de abril de 2015, o BTCA (Balé do Teatro Castro Alves), companhia baiana, completou 35 anos de existência, fazendo uma grande festa de aniversário no próprio Teatro Castro Alves, em Salvador (BA). A celebração é uma colcha de retalhos de memórias, lembrando momentos e pessoas que fizeram parte dela. Vale ressaltar que o BTCA foi a quinta companhia oficial de dança do Brasil e a primeira oficial do Nordeste

Intitulado “Memórias em Movimento”, o projeto contou com trechos de espetáculos que fazem parte do repertório da companhia (Sanctus, A quem possa interessar, Essa Tempestade), depoimentos gravados de personalidades como o coreógrafo Luis Arrieta e Lia Robatto, homenagens póstumas a artistas que passaram pela companhia, como o maître de ballet Carlos Moraes – esse, para mim, foi o momento mais emocionante.

 

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Sanctus é um dos repertórios mais conhecidos do BTCA (Foto: Divulgação / BTCA)

Ainda hoje, o BTCA é uma companhia que funde arte contemporânea com toda a carga cultural que só a Bahia tem, mesclando gerações que acompanharam o início dela com novos bailarinos que agora começam a escrever também as suas.

Nós, o público, tivemos a oportunidade de conferir um lado da companhia que nem sempre chega a nós: aquele da falta de patrocínio e iniciativas que muitas vezes ameaçaram extinguir a companhia para sempre. E, mesmo assim, o elenco trata das situação com muita leveza e graça dentro da comemoração.

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Essa Tempestade também foi reapresentada (Foto: Isabel Gouvea / BTCA)

Tatiana Schwartz, nossa querida leitora do blog, relatou um pouco de como foi assistir ao BTCA: “Foi emocionante, envolvente, a estrutura feita com um tom autoral, biográfico, abordando o viés político, de questionamento sobre a falta de investimento em arte e cultura, o que deu mais força ao espetáculo. É uma história muito bonita, trabalhos lindíssimos. Temos muito o que agradecer de isso existir e termos oportunidade de presenciar um evento desses. Se fosse para resumir em uma palavra: emocionante!”.

Ao final, tivemos ainda a dobradinha maravilhosa da OSBA (Orquestra Sinfônica da Bahia) com o cantor Gerônimo fechando literalmente com chave de ouro. Simplesmente maravilhoso!

Para quem predeu o espetáculo, ainda permanece a exposição no foyer do teatro até o dia 30 de abril. Dá uma passadinha lá que vale super a pena!

 

Local:  O Teatro Castro Alves fica na Praça Dois de Julho,s/n, Campo Grande, Salvador – Bahia. Telefone: (71) 3535-0600

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Thiago se destacou na seletiva do Bolshoi (Foto: Matheus Pirajá)

A voz dele sai tão fininha que é até difícil ouvir. Parece estar com vergonha, ainda não se acostumou com essa coisa de dar entrevista. Diz que não sabe por quê gosta de dançar, apenas gosta. Muito.  E quer continuar fazendo isso pra sempre.

A vida de Thiago Nascimento de Jesus deu um giro de 180º quando o garoto, de 11 anos, foi aprovado para a escola do Ballet Bolshoi, em Joinville (Santa Catarina). A felicidade de conquistar uma bolsa vem com a novidade das entrevistas – Thiago foi o único baiano a passar na seleção na turma iniciante – e da mudança. Cheio de pose, ele diz que já esteve em Joinville, na própria academia do Bolshoi, e gostou do que viu. “É muito, muito grande. E tem várias salas”, disse, esboçando um sorriso.

Assim como aconteceu com Thiago, a dança tem o potencial de mudar e melhorar muitas vidas. De família muito humilde, ele não teria muitas oportunidades de estudar e investir na formação profissional. Ele só conheceu o ballet graças ao projeto de bolsas que sua professora, Juliana Stagliorio, mantém na escola.

“Eu pedi que ele se inscrevesse para a seleção do Bolshoi primeiro porque ele tem o físico muito bom para o método Vaganova, que é longilíneo e exige flexibilidade. Mas o outro motivo foi garantir que ele pudesse sair da comunidade dele como outra coisa que não pedreiro, garçom… Porque a realidade dele era essa”, disse a professora. Fica aqui nosso pedido para donos e donas de academias para também concederem bolsas para alunos que não podem pagar. Vai que você descobre o próximo Marcelo Gomes ou Ana Botafogo?

E a técnica?

Na escola, Juliana ensina o método cubano, conhecido pela agilidade e versatilidade na organização dos passos. O russo, que Thiago vai encarar no Bolshoi, é diferente – e vai exigir mais das extensões que ele tem ao seu favor. Ainda assim, Juliana, que é formada em fisioterapia, não esconde uma pontinha de preocupação no quesito técnica: como ele é muito flexível, não tem ainda muita força nos músculos internos e pode acabar trabalhando o “en dehors” errado, forçando os joelhos e os pés. Isso, aliás, é uma dica que vale pra todo mundo!

“O método Vaganova tem várias semelhanças com o cubano, como passos com bastante rélevés no centro, o que exige um trabalho de equilíbrio e core muito forte e, às vezes, muito cedo. Mas tem a questão da flexibilidade, também. Aqui a gente ensina como tem que trabalhar o en dehors, que não pode forçar muito para não machucar. Lá no Bolshoi eu sei que vão esperar isso dele. E no próprio método cubano, quando o aluno chega nos graus mais avançados espera-se que ele feche a primeira posição a 180º”, lamentou.

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Alguns bailarinos têm a vantagem de, como Thiago, nascerem com o corpo já “preparado” para a dança. Juliana conta que percebeu que ele era diferente logo no primeiro dia, quando ‘escalou’ com as pernas em segunda e virou para o espacate de frente nos dois lados – tudo pelos ligamentos. Sem surpresas, os passos que Thiago mais gosta de fazer até hoje são os que exploram sua extensão, como grandes saltos e grand battements. Ah, ele ele gira super bem também, obrigada! Segundo ele, o mais chato é justamente fazer exercícios que exigem força muscular, como fondues e adagios.

Thiago aguarda com certa ansiedade poder dançar de verdade na academia do Bolshoi. Na última vez que esteve lá, para a segunda parte dos testes de admissão, ele reclamou que “ninguém pediu para eu dançar” e só ficou examinando seu físico. Calma, rapaz! Você vai ter oito anos pra mostrar serviço e, no final das contas, realizar o sonho de se apresentar nos maiores palcos do mundo. Onde? “Ah, qualquer um. Mas quero dançar em Cuba. E na Rússia”, comentou. Tá bem encaminhado!

OBS: A família de Thiago ainda precisa de ajuda para conseguir fazer a mudança. Se você puder contribuir, as doações podem ser feitas aqui: Banco: Caixa Econômica Federal, Agência: 4112, Operação: 013, Conta: 9341-8

Mais folclore, por favor!

A gente adora quando fica sabendo do surgimento de uma companhia de dança, então quando aparece uma contemporânea e que se diz folclórica, a gente curte mais ainda! Calma que ainda não acabou: os bailarinos vêm de projetos sociais do bailarino e idealizador Denys Silva.

A companhia – que leva o nome do espetáculo – apresenta pela primeira vez  “Tradições de uma Bahia” no teatro. Segundo Denys, que é professor de dança moderna e ex-bailarino do Teatro Castro Alves, eles sempre foram convidados para dançar, e foi daí que veio a ideia de levar o repertório, que existe desde 2014, aos palcos. Segundo ele, isso aconteceu graças à parceria com Nell Araújo, que é o diretor do Teatro Jorge Amado.

“Há um ano e meio montei essa equipe com jovens adultos da comunidade. São capoeiristas e bailarinos que tinham desejo de dançar profissionalmente. Fizemos trabalhos na comunidade e fomos convidados para fazer apresentações da cultura baiana, e foi daí que surgiu o espetáculo. Formule, então, um balé folclórico no formato do teatro e, com o apoio de Nell, vamos realizar no Jorge Amado. A gente tem dentro do espetáculo toda a parte tradicional do nosso folclore, orixá, puxada de rede, capoeira, makulelê, utilizando a linguagem na dança na baseado na técnica Horton, que eu dou aula. O espetáculo esta bem interessante e quem viu gostou muito e recebeu muito bem!”

Além do folclore tradicional, o balé é baseado fotografias de Pierre Verger, das telas coloridas de Carybé e traz referências aos blocos afro. Em pouco mais de um ano os jovens que participam do projeto, juntamente com a companhia, já se apresentaram em diversos espaços culturais de Salvador.

Excerto do espetáculo "Tradições de Uma Bahia" Foto: Edvaldo Luneto
Excerto do espetáculo “Tradições de Uma Bahia” Foto: Edvaldo Luneto

O que: espetáculo “Tradições de Uma Bahia”

Onde: Teatro Jorge Amado (Avenida Manoel Dias da Silva, 2177, Pituba, Salvador – BA).

Dia e hora: 21h. O espetáculo fica em cartaz até dia 25 de fevereiro, e, tirando a estreia, no dia 13 de janeiro, acontece todas as quintas-feiras.

Ingressos no local (R$ 40 inteira e R$ 20 meia)

Mais informações aqui!

Victor Hugo: “Quero ajudar a popularizar a dança na Bahia”

Diretor do Grupo Experimental de Jazz, Victor Hugo Paiva – ou apenas Victor Hugo, como ele prefere ser chamado – se viu numa encruzilhada quando se viu sem o apoio financeiro do edital Agitação Cultural, da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult). Assim como sua companhia, vários outros artistas que passaram no edital tiveram suspensos os repasses por conta da crise financeira.

Determinado a comemorar os cinco anos do grupo, Victor Hugo resolveu assumir os custos do espetáculo e produzi-lo do jeito que tinha imaginado – ou o mais próximo disso. Em nossa conversa, ele conta que problemas como esse são comuns, e que tanto o empresariado baiano quanto o governo falham na hora de incentivar artistas.

Mesmo assim, Victor Hugo espera conseguir mudar um pouquinho esse cenário, e popularizar a dança na Bahia até que ela faça parte do calendário das pessoas. Seu espetáculo, “A Última Ceia”, que será apresentado no Teatro Isba no dia 21 de janeiro, será o primeiro passo nesse sentido.

Sua companhia chegou a passar num edital- que depois retirou o apoio financeiro por conta da crise. No que isso alterou seus planos?

Isso nos impactou de uma forma muito forte. Eu tive que assumir praticamente 100% tudo financeiramente, quando eu contava com um apoio. Então, fica complicado. Mas quis manter tudo que tinha planejado, na medida do possível. E resolvi trazer o Owen (Lonzar, coreógrafo sul-africano). Trazer alguém de fora é ampliar o conhecimento. Eu já tinha visto shows dele e achei as produções bem diferente. Conheci o trabalho dele na Turquia, quando ele fazia shows em hotéis. Na época, percebi que ele fazia algo extra de entretenimento e o convidei para ver meu grupo.

E como foi essa troca de experiências?

Existem informações novas: ele pensa de uma forma diferentes e tem uma organização diferente. Houve um choque entre elenco e professor. Ele não tolera atraso. A gente tem esse negócio de chegar dez ou quinze minutinhos atrasado que ainda ‘está na hora’. Com ele, não. Na cabeça dele tá tudo organizado, mesmo que a gente não entenda. Na questão coreográfica não tem nada muito diferente do que a gente faz, do movimento. Mas é um cuidado diferente, não é o que se faz, mas a forma com que se faz.

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Filipe Monteverde e Victor Hugo (centro) com  o corpo de baile do Grupo Experimental de Jazz (Foto: Arquivo pessoal)

Por que você resolveu, agora, fazer um trabalho maior?

Meu grupo está fazendo cinco anos, por isso eu quis fazer algo diferente e movimentar a cidade, que está parada – culturalmente falando. Eu tenho um TOC de datas, quase, e gosto muito de comemoração. São pessoas que estão comigo há um tempo. Tenho medo de estagnar e fazer sempre a mesma coisa, porque isso é o que me motiva, para vivenciar outras coisas. Faço muitos cursos, participo de congresso de dança. Mas não são todos do grupo que vivem de dança, até para que eles se permitam continuar no grupo. Sei que não são todos que têm as mesmas oportunidades que eu de estar tão imerso no meio da dança. Ao mesmo tempo que trago esse coreógrafo pra mim trago pra eles também.

O que te fez escolher a dança para viver?

Me divirto muito dançando, dançava para extravasar. Quando escolhi dança como profissão, escolhi para me comunicar. Falo muito na sala de aula, nos ensaios, porque não me sinto sempre compreendido. Isso acontece mais com a dança. Quando crio uma coreografia de cinco, dez minutos, consigo ouvir dos que assistiram que se emocionaram, que se divertiram. Isso que me motiva na dança.

Existem empecilhos para trabalhar com dança na Bahia?

Ouço muita gente dizer que somos atrasados aqui na Bahia. Mas o que falta mesmo é uma postura profissional, não é atraso de técnica. A gente tolera muitos atrasos, muitos problemas. A gente tem que colocar mais verdade, mais compromisso. E isso não está relacionado a poder aquisitivo ou status. Tem muita gente em companhia que não vive de dança, e muitas vezes são essas as que se empenham mais. Se tem atraso aqui na Bahia é porque as pessoas querem separar tudo. Se eu faço jazz, meu trabalho é menor do que meu colega que faz contemporâneo. O pessoal que faz afro não passa em edital porque é afro, as pessoas têm preconceito. A gente entende a dança como estilo, e deve passar a entender como movimento. Se eu escolhi o jazz é porque eu me sinto mais confortável dançando e criando assim, não quer dizer que eu não faça outras coisas.

E na parte operacional da coisa, o que dificulta mais?

Existem empecilhos, como conseguir um teatro, apoio financeiro. Minha companhia passou duas vezes em edital, inclusive me disseram que foi o primeiro grupo de jazz a conseguir isso. Tem gente que diz que não dá pra viver de edital pra não ficar dependendo. Esse ano mesmo não teve, como é que faz? Como funciona o apoio? Tem gente que tem sorte de conhecer pessoas. O diretor de uma empresa que dá mil reais, que seja, já ajuda muito.

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Apresentação do Grupo Experimental de Jazz (Foto: Arquicvo Pessoal)

Como é o público de dança?

Nosso público não lota teatro. Temos um problema em Salvador, porque as pessoas não saem de casa para ir ao teatro. A gente não pode contar com o público de teatro. Nossos ingressos são vendidos entre familiares e amigos da dança. Quem assiste dança em Salvador é quem pratica dança. Hoje em dia temos as redes sociais, e é por lá que a gente divulga muito, porque não temos muito espaço na mídia. Além disso, as pessoas não têm o costume de abrir o jornal pra procurar uma apresentação de dança pra assistir. A gente compete com cinema, com show de Pablo… Às vezes as pessoas perguntam ‘quanto é’ e a gente fala o preço, R$ 30 reais. As pessoas não pagam R$ 30 numa apresentação de dança, mas gastam mais que R$ 50 numa sentada de bar num domingo. A gente quer popularizar a dança na Bahia. Quero arriscar, to lançando um canal do Youtube para disseminar a dança aqui. Amo cinema, adoro uma sala cheia. Adoraria ver isso com o teatro também.

 O que: “A Última Ceia”, coreografia de Owen Lonzar. Os ingressos custam R$ 30 e podem ser conseguidos através dos bailarinos

Onde: Teatro Isba, Ondina, Salvador (BA)

Quando: Dia 21 de janeiro. Sessões às 19h e 20h30

Filipe Monteverde: “Eu sempre tive esse lado dramático em mim”

Foto: Júlia Lima

Logo que chego, já vejo a movimentação expressiva, forte e marcada característica da companhia. O ensaio já acontece a todo vapor e bailarinos em vigor dão tudo de si na carga emocional e feroz que “Instinto” demanda. Eu, que fui integrante da companhia por cinco anos, toda vez que assisto sinto uma vontade avassaladora de estar junto e dançando, partilhando desse momento tão gostoso. Por hora fico apenas como espectador observando. Por enquanto… (risos)

Lipe, como sempre, muito focado na correção de intenção de movimento que os bailarinos devem passar para o público, isso para ele é essencial. Quase que uma marca registrada. Corre tudo muito bem durante os ensaios e o elenco vai refinando cada vez mais os movimentos, para que tudo esteja perfeito para a estreia, dia 15 de dezembro (aliás, estarei lá assistindo rs).

Graduado em Dança pela Universidade Federal da Bahia, Filipe Monteverde também é bailarino, professor, coreógrafo e diretor da Kátharsis companhia de Dança, já ganhou por três vezes o primeiro lugar no concurso Ballace, na categoria Livre Avançado. Agora, ele conta para OITO TEMPOS sobre esse momento especial para ele e seu elenco, e o que esperar do futuro da cia.

Foto: Divulgação
Kátharsis em movimento

Como surgiu a Kátharsis?

Surgiu a partir de um laboratório de corpo e criação, durante o curso de dança da UFBA. Em um trabalho de pesquisa de movimento, surgiu meu primeiro trabalho chamado “Musevi” (judeu em turco), no qual eu trouxe essa relação dos judeus dentro do campo de concentração, desde a câmara de gás, os corpos nas valas e etc. A partir daí o trabalho tomou força e eu tive a ideia de criar um grupo para levar para concurso, mostras de dança, e a companhia surge a partir disso. O nome Kátharsis foi dado por um amigo. Pedi para ele relacionar uma foto minha desse trabalho junto a minha movimentação, o que ele via naquilo. O nome combinou perfeitamente com minha proposta dentro do Contemporany Jazz, a questão do sentimento, que não deixa de ser jazz, mas possui essa carga emocional, visceral, o que vem de dentro para fora, totalmente explícita nas coisas que eu faço.

De onde vem a inspiração para essas coreografias tão fortes que você cria, que causa impacto e reações variadas em quem assiste?

Minha inspiração parte de sensações, tudo o que a gente vê, o que a gente passa, vivências pessoais, com amigos. Eu sempre tive esse lado dramático em mim e eu relaciono muito minhas criações a linguagem cinematográfica. Acredito que o cinema tem um poder muito grande de sensações que provoca no espectador. A dança, claro, tem sensações, mas ela pode ser aprofundada. Quando penso em dança, vem primeiramente esse sentimento que você quer imprimir de verdade na pessoa, em como meu trabalho passa de verdade para quem está assistindo. Acho isso muito forte quando nos propomos a fazer algo: acreditar no que você faz e assim passar para a plateia, e eu não tenho medo disso. Sempre arrisco o que eu quero, penso em temas polêmicos, dramáticos, porque eu tenho isso na veia. Justamente por serem temas extremamente fortes, eu preciso experimentar, passar isso para que os bailarinos reproduzam para quem assiste.

Você sente algum preconceito/resistência das pessoas que vem seu trabalho por ser um estilo diferente do que se está acostumado no nosso cenário de dança?

O que me proponho a fazer juntamente com a companhia foi super positivo no retorno, justamente por haver uma verdade muito grande no que faço. Mesmo não agradando a todos, há uma verdade impressa para quem vê e isso volta de uma forma positiva. Acredito que tem sim um preconceito contra o jazz, por ser visto a partir de outras linguagens, associado a algo cafona, antiprofissional, o que não é verdade. O jazz tem uma carga muito forte, seu valor, sua história desde o surgimento com os negros norte americanos até hoje, na polissemia de movimento. Ele agrega e contribui muito. Acho que se ele não existisse, haveria um grande problema no universo da dança.

Durante cinco anos fui integrante da companhia e sempre acompanhei essa rotatividade do elenco ao longo dos anos. Como você encara essas mudanças?

Por ser um grupo muito grande tem essa rotatividade mesmo. Eu, por não fazer audições, sempre convido os bailarinos, tem sempre essa troca. Trabalhar com elenco grande, para mim, é sempre muito bom. Mesmo saindo um, o carinho sempre está por aqui, junto, acolhedor, sempre temos essa troca. Gosto muito de estar recebendo quem sai e volta. A Kátharsis é isso, claro que sempre de uma forma boa. Todos os que passam por aqui são muito queridos!

Primeiro espetáculo como companhia independente. Como está sendo essa preparação?

Tá uma maluquice né (risos), mas tá rolando. Os bailarinos ajudam muito, a equipe externa é muito boa, desde a cenografia até o figurino são pessoas que estão ajudando muito. Temos todo esse apoio de parcerias, escolas amigas que forneceram desde o linóleo até o espaço para ensaiarmos. É uma sensação muito boa pois sempre fiz trabalhos pequenos e tá sendo uma maravilha fazer um longa, uma sensação incrível. Esse ano conseguimos fazer isso, eu tô muito feliz e espero que o resultado seja maravilhoso, para os bailarinos e para quem assiste.

Seu espetáculo “Instinto” estreia dia 15 de dezembro no teatro ISBA. Conta pra gente a concepção dele e o que o público deve esperar no dia.

É uma mistura de sentimentos, relacionado a filmes e outras coisas. Me inspirei livremente na trilogia “Planeta dos Macacos”, o último filme justamente fala dessa questão humano/animal. Também porque meu gato morreu e resolvi homenageá-lo colocando como um dos personagens. É um espetáculo que envolve desde o início ao final o espectador, por muitas coisas. Ele não é linear, trabalha muito as sensações, tem nuances, fortes, leves, volta para o forte. Ele frisa a questão de o instinto não ser somente selvagem, como as pessoas pensam. Ele tem uma carga suave, maternal muito grande dentro dele, brinca com as nuances da palavra em si. Por tratar de uma narrativa deixa mais forte a ligação ao tema. Acredito que vai emocionar muito e espero que todos gostem. Convido todos a assistirem dia 15! Vão se arrepender se vocês não forem!

Foto: Júlia Lima
Ensaio de Instinto. Foto: Júlia Lima

O que podemos esperar da Kátharsis após esse momento pós-Instinto?

Espero uma grande turnê, que possamos viajar e propagar essa ideia para muita gente, não só aqui mas no Brasil, no mundo. Tenho essa vontade muito grande de vivenciar editais, viajar com os bailarinos e proporcionar um nível mais elevado tanto para Salvador no cenário da dança quanto para a companhia.

Algum último recado para os leitores do OITO TEMPOS?

Espero que a partir dessa matéria, que eles acompanhem muito mais o blog, que possam compartilhar o que acontece porque… é cultura! É uma forma maior e melhor de informação. Acho muito bom vocês terem tido essa iniciativa para ampliar mais esse horizonte e as pessoas acompanharem o que acontece sobre dança na cidade. Agradeço de poder ter esse momento, mostrando meu espetáculo e a companhia dentro do espaço do blog. E que a partir disso, as pessoas acompanhem o blog, que com certeza tem um bom gosto maravilhoso! ❤

 

OBS: A foto de abertura também é da Júlia Lima!