Márcia Jaqueline: “O Theatro Municipal do Rio de Janeiro é feito de tradição”

Primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Márcia Jaqueline é uma das bailarinas brasileiras mais bem-sucedidas aqui no país. Ela começou seus estudos de ballet clássico na Escola Estadual de Dança Maria Olenewa e, aos 14 anos de idade, formou-se e foi logo chamada pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro (TMRJ) para trabalhar como bailarina estagiária. O convite partiu do então diretor Jean-Yves Lormeau. Ela foi tão bem que, dois anos depois, foi contratada para o corpo de baile do TMRJ – instituição que ela nunca deixou. Aqui ela fala um pouquinho sobre sua carreira, com o é ser dançarina no Brasil, momentos marcantes no palco e fora dele… E algumas coisinhas a mais!
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Márcia Jaqueline como Kitri, em Dom Quixote
Ser primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro é coisa para poucas. Acha que o cargo vem com um ‘peso’ da tradição?
Com certeza, eu estou numa companhia onde Bertha Rosanova foi primeira bailarina, e outros grandes nomes da dança brasileira, como Cristina Martinelle, Aurea Hammerli, Nora Esteves, Ana Botafogo, Cecília Kerche…O Theatro Municipal é feito de tradição e ser primeira bailarina hoje me faz querer continuar escrevendo essa história que há anos vem sendo construída, sempre respeitando os que começaram esse trabalho.
Muitos bailarinos e bailarinas brasileiros estão decidindo sair do país para conseguir apostar em suas carreiras. Continuar no Brasil é um ato de resistência?
Eu acho que não somos valorizados o tanto que merecemos. Os bailarinos que estão aqui são incríveis, mas estamos sempre precisando superar alguma dificuldade que nos é colocada. Sempre nos é dito que não somos prioridade. Claro que estamos muito defasados em várias áreas, como educação e saúde, mas há muito tempo se ouve que vão priorizá-las também e não vejo melhorias. Se até lá demora, então até chegar alguma melhoria na cultura acho que vai demorar muito ainda. Isso se chegar um dia. Por isso tantos talentos indo embora, e nós que ficamos, fazemos porque amamos nosso Theatro, nosso público – esses sim, nos dão força pra continuar.
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Foto clássica Giselle, no segundo ato do ballet

 

Você já pensou em dançar fora?

Eu nunca pensei, não, sempre quis fazer carreira aqui e dançar para os que eu amo.  E também nunca quis ficar longe da minha família. Nossa carreira não é fácil, todo dia temos que provar que somos capazes, são muitas dores,  às vezes decepções. Longe deles, que são meu alicerce, eu não conseguiria.
Sua história com o ballet começou muito cedo, aos três anos – e aos 14 você começou sua carreira no TMRJ. Você sempre quis ser bailarina?
Dos três aos nove anos eu fazia jazz, nunca pensei em ser bailarina profissional, não. A paixão veio quando entrei para a Escola de Danças Maria Olenewa. Ali eu estava tão pertinho dos bailarinos do Theatro, assistindo os balés, aí sim a vontade foi crescendo dentro de mim.
Todos os grandes dançarinos tiveram – ou têm – grandes mestres. Quem foi que mais te marcou enquanto aluna?
Três professoras me marcaram enquanto aluna, porque além de me ensinarem, cuidaram de mim como uma filha também. Tia Edy (Edy Diegues), tia Amelinha (Amelia Moreira) e tia Regina (Regina Bertelli). As duas últimas não estão mais nesse mundo, mas tia Edy continua sempre comigo, me liga sempre, nunca esquece meu aniversário, e sempre que nos falamos diz que estou sempre em suas orações.
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Márcia como Nikyia, em La Bayadère

Na sua carreira você já dividiu o palco com várias estrelas – uma delas foi Marcelo Gomes, no ano passado, quando dançaram O Quebra-Nozes. Tem algum momento que você considere como o mais memorável da sua vida na dança?

Foi incrível dançar com Marcelo, com certeza umas das experiências mais incríveis da minha carreira. Eu tive vários momentos memoráveis, cada balé que me é dado é um desafio, que quando dançado fica guardado pra sempre. Tem um momento muito especial sim, foi em Romeu e Julieta, que foi remontado por Marcia Haydée. Passei dois meses com ela na sala ensinando o balé. Eu já admirava muito  toda sua história e carreira, mas fiquei mais encantada ainda com sua generosidade. Ela passava cada detalhe, cada sentimento, e quando ela mostrava alguma cena, era um momento de pura emoção – muitas vezes não conseguia segurar as lágrimas. É uma verdadeira diva, sou muito fã.
Você tem algum sonho não realizado? Qual é?
As coisas que sonhei quando estudante de balé , eu realizei. Claro que sempre quero mais! Acho que não um sonho, mas um desejo, é dançar mais fora do Brasil. Sonho, eu tenho um sim, mas isso mais pra frente, quando estiver parando de dançar. Não posso contar ainda.
Um pouquinho de Márcia Jaqueline em cena! Ela e Cícero Gomes no pas de deux d’O Quebra Nozes no TMRJ.
*Todas as fotos foram tiradas do site oficial de Márcia Jaqueline

Vídeo da Semana #26!

Gente, não aguentei com esse vídeo do solo da Rainha de Copas em  Alice no País das Maravilhas do Royal Ballet (alô Clarice Bartilotti e Ed Cruz, obrigado pela sugestão)! Apesar de ser um repertório relativamente novo (estreou em 2011 no Royal Opera house), já é um favorito do público e de várias companhias, que também incorporaram a produção em seus calendários.

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Zenaida como a aterrorizante Rainha de Copas (Foto: Reprodução/ROH)

Aqui quem arrasa é a francesa Zenaida Yanowsky, interpretando um dos personagens mais fascinantes da historinha. Com a mania de grandeza da majestade, os gestos dela são amplos, a expressividade é MUITO marcante e a bailarina sabe dosar super bem a técnica com a brincadeira – nessa coreografia, assinada por Christopher Wheeldon, tem muitos momentos engraçados combinados com passos super difíceis.

Tirei o chapéu, também, para os bailarinos que compõem o palco e ‘ajudam’ a Rainha de Copas. Todos muito bem ensaiados e devidamente aterrorizados!

Pra quem tem olho clínico: vocês não acharam que a hora em que ela come as tortinhas (morri nessa parte!) parece muito com as piruetas de Aurora no Adagio da Rosa, em A Bela Adormecida? Pois Wheeldon se inspirou nesse clássico para criar a coreografia (obrigada pela confirmação, Julimel)! Depois percebi que tem várias partes parecidas: desde o início, com os développés na segunda, até o finalzinho, com os famoooosos balances. Pra quem quer comparar, segue o Adagio da Rosa aqui.

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Aloka! (Foto: Reprodução /ROH)

Segue o vídeo:

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Ballet na gravidez, pode ou não pode? Pode sim!

Carla Firpo, que dança desde os três anos, grávida de sete meses (Foto: Paula Maria)
Carla Firpo, que sempre dançou, grávida de sete meses (Foto: Paula Maria)

Muitas bailarinas, quando engravidam, ficam com medo de continuar dançando. É natural: muita coisa muda no corpo, e os cuidados precisam com atividade física e alimentação precisam ser redobrados.

Mas isso não quer dizer que o ballet esteja proibido! Muitas futuras mamães continuam fazendo aula, e esse pode ser um exercício bem relaxante e proveitoso durante a gravidez. Claro que cada corpo é um corpo e cada gestação é diferente, portanto é MUITO importante falar primeiro com o obstetra. Se ele ou ela liberar, pode fazer sua aula tranquila!

Conversamos com Carla Firpo, futura mamãe de Clarinha, que faz aulas no Ballet Teresa Cintra. Carla faz ballet desde os três anos, e mesmo no sétimo mês de gestação, não abre mão de dançar.Como boa bailarina que é, ela nunca pensou em parar, embora soubesse que precisaria fazer algumas adaptações nas aulas. “A única coisa que a obstetra sempre pediu era ‘nada de exageros, aceite os limites que seu corpo vai te dar’. Nos três primeiros meses fiquei quietinha, sem fazer atividades, e quando completamos as primeiras 12 semanas, voltei à rotina do ballet e da academia”, explicou.

Uma coisa bacana que ela fez foi conversar muito com a médica, mostrando os passos que fazia na aula. Daí ficava mais fácil saber o que podia e não podia fazer. “Alguns passos, que requerem uma força maior na pélvis, ela pediu pra evitar…Então grand plié de lado na barra e no centro eu evito”, disse.

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Carla e Clarinha! (Foto: Paula Maria)

O que pode e o que não pode?

Isso varia muito de bailarina para bailarina. Carla, por exemplo, eliminou os saltos por conta da força física necessária. Nessas horas, você pode substituir por um alongamento ou repetir passos que você pode fazer. Ela, que sempre foi mulher-elástico, disse que não encontra problemas com alongamento e ainda faz ponta de vez em quando, mas só quando se sente bem segura. Mas tem outros desafios, especialmente por conta da mudança do eixo com o crescimento da barriga.

“Girar já era algo complexo antes da gravidez, durante então…(risos) Imagina seu eixo fora do lugar, é complicado encontrar um novo ponto de equilíbrio depois de anos lutando pra mantê-lo (risos). Fora que a pressão da mulher tende a ficar mais baixa na gestação e os giros me deixam tonta mais rápido. Mas acho que pra quem gira feito pião, é só uma questão de adaptação mesmo. De aceitar os limites da barriga e girar”, opinou.

 

Por que continuar dançando?

Bom, essa parte a gente deixa pra própria Carla dizer!

“A gravidez é um momento magico na vida de uma mulher, mas exige adaptações para a nova vida que vamos ter com o bebê, não podemos nos privar do que nos faz bem. E o ballet é algo que faço desda os três anos de idade, são 30 anos de minha vida dedicados a ele, então não seria neste momento tão especial que ‘cortaria o laço’. Mas como comecei dizendo, é uma fase delicada, temos que ouvir e sentir as reações do corpo com mais atenção e respeitar o limite que a gestação nos dar. Fico feliz, graças a Deus minha gravidez está indo super bem, estou no 7º mês e ainda continuo dançando. Enquanto Clarinha permitir, estarei fazendo umas aulinhas (risos)!”

Parte desnecessária:

Muitas bailarinas profissionais também continuam dançando durante a gravidez. E continuam fazendo TUDO! Olha só esse vídeo da Ashley Bouder, primeira bailarina do Nwe York City Ballet, arrasando nos fouettés durante o sexto mês de gravidez:

Vídeo da semana #25!

Tem vídeos que a gente coloca aqui mais pela repercussão e importância cultural do que pela técnica ou coreografia, especificamente. É o caso de “Freedom”, da nossa querida Alvin Ailey (que já foi tema de #videodasemana!). Eles usaram a música da diva musa mravilhosa cantora Beyoncé para endossar o protesto contra o racismo escancarado nos Estados Unidos, que, como no Brasil, mata milhares de pessoas.

Dessa vez não vamos nos alongar muito, porque o vídeo e a coreografia são bem simples. Não cabe aqui ficar analisando tanto a técnica (embora eu ache que a coreô, embora bem curtinha, consegue passar a força da música muuito bem), até porque foi tudo gravado numa sala de aula e postado diretamente no Instagram. E talvez por isso seja tão bacana! Por mais vídeos assim 🙂

 

PS: Obrigada à querida leitora Carla Siqueira pela sugestão!

PS 2: Quer mandar um vídeo pro nosso #videodasemana? Mande uma mensagem por aqui, pelo Facebook ou pro nosso email (oitotemposblog@gmail.com) que adoraremos disponibilizar aqui!

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Vídeo da Semana #24

Sabe uma coisa que é super difícil de fazer em cena e que quase ninguém nota? Expressão nos movimentos – ou artistry, em inglês. Isso vale demais especialmente nos papéis mais figurativos (porém igualmente importantes!) como Don Quixote, o paxá n’O Corsário, o bruxo Rothbart em O Lago Dos Cisnes, a mãe de Lise, em La Fille Mal Gardée, e por aí vai.

O vídeo selecionado foi do ensaio da entrada de Carabosse, a bruxa d’A Bela Adormecida, no batizado da princesa Aurora. Para quem não sabe/lembra, Carabosse não foi convidada para a festa e se vinga amaldiçoando a princesa, condenando-a à morte ao espetar o dedo no fuso de uma roca. Drama puro! Se a bailarina ou bailarino não forem muito bem treinados, a principal cena do prólogo vai ser passada em branco. E ninguém quer que isso aconteça, né?

Aviso aos navegantes: A Bela Adormecida é o meu ballet preferido de todos os tempos e teremos muitos posts ainda sobre esse repertório. Me julguem!

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Riqueza nos dedos e no olhar (Foto: Reprodução / YouTube)

 

Voltando ao vídeo: essa é uma produção do Royal Ballet, em que a bailarina Kristen McNally, que até então nunca tinha atuado como Carabosse, ensaia sob a supervisão da répétiteuse (quem remonta os repertórios) e diretora do Royal, Monica Mason.

Uma das primeiras coisas que Monica faz é contextualizar a personagem para Kristen. Ela explica que, nessa produção, a Carabosse “acredita ser a fada mais linda do reino e sente-se bem consigo mesma”, diferentemente de outras montagens, em que ela é caracterizada como uma velha feiosa. Isso se reflete no bastão / bengala que ela usa.

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Carabosse amaldiçoa Aurora com a morte (Foto: Reprodução / YouTube)

“Você não vai se apoiar nesse bastão. É uma peça adicional de poder”, diz a diretora. Acho que isso já faz toda a diferença na Carabosse de Kristen, que desde já muda a postura. Sobe o queixo, olha de cima para baixo e passa uma imagem de arrogância. Muito interessante!

A ideia segue com todos os movimentos que vêm depois. A saudação ao rei e à rainha é minha parte preferida: Monica perde um tempinho explicando por quê a reverência tem que ser de um jeito que seja visível e claro à plateia mas, ao mesmo tempo, aparente ser claramente falsa e sarcástica, dada a repulsa da Carabosse pela falta do convite à festa. Daí a gente percebe como ela simplesmente não reconhece a soberania do casal real.

Análises à parte, segue o vídeo! A conversa é toda em inglês, mas tem closed captions! Ainda assim, quem não entende ainda pode se entreter com a linguagem corporal – afinal de contas, é isso o que vale na dança! Dica de amiga: assista até o final 😉

 

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10 verdades sobre ser bailarino profissional

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Suzanne Way, diretora do Professional Ballet Coaching moldando futuras bailarinas (Foto: PBC / Reprodução)

Esse post é mais uma inspiração para quem já quis ser profissional e não levou adiante (meu caso), quem está se esforçando e trabalhando para conseguir ou quem simplesmente gosta de dançar e quer sempre melhorar no que faz, ainda que seja por lazer (meu caso de novo!). Reunimos aqui 10 ‘verdades’ que Melanie Doskocil, ex-bailarina e atual professora do Aspen Santa Fe Ballet, disse sobre a profissão:

1. Dançar é difícil. Nenhum bailarino foi bem sucedido apenas se baseando no talento nato. Dançarinos são artistas e atletas. O mundo da dança hoje se equipara ao de esportes extremos. Talento e habilidade natural só vão te levar até certo ponto. Bailarinos precisam trabalhar duro e perseverar. Dançarinos dão anos de suas vidas, mais o suor, lágrimas e, às vezes, sangue para ter a honra de se apresentarem no palco.

2. Você nem sempre vai conseguir o que quer. Nós nem sempre conseguimos o papel que queríamos, dançamos na ponta quando queremos, recebemos os trabalhos que queremos, ouvimos os elogios que queremos, ganhamos o dinheiro que queremos, ver as companhias administradas do jeito que queremos, etc, etc. Isso nos ensina humildade e respeito pelo processo, pela arte e os mestres que escolhemos para nos ensinar. Quanto mais rápido você aceitar, mais rápido você vai poder se dedicar a ser brilhante. A gente nunca vai ter 100% de certeza que vai dar certo, mas a gente pode ter 100% de certeza que fazer nada não vai dar certo

3. Tem muita coisa que você não sabe. Um bailarino sempre tem o que aprender. Mesmo os professores, coreógrafos e diretores que menos gostamos podem nos ensinar algo. No minuto em que achamos que sabemos tudo deixamos de ser um bem valioso.

4. Pode não ter um amanhã. Um bailarino nunca sabe quando sua carreira pode desaparecer de repente: o fim de uma companhia, lesão que termina a carreira, acidentes, morte… Dance todos os dias como se fosse sua última performance. Coloque paixão mesmo nos exercícios em sala!

5. Há muito o que você não pode controlar. Você não controla quem te contrata, quem te demite, quem gosta do seu trabalho e quem não gosta, as políticas de estar numa companhia. Não gaste seu tempo e energia se preocupando com coisas que você não pode mudar. Foque em honrar sua arte, e ser o melhor dançarino que você puder. Mantenha a mente aberta e uma atitude positiva.

 

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6. Informação não quer dizer conhecimento. Conhecimento vem de experiência. Você pode discutir uma tarefa cem vezes e ir a mil aulas, mas a não ser que você realmente vá lá e se apresente, você só terá o entendimento filosófico da dança. Encontre oportunidades de ir ao palco. Você precisa experimentar um espetáculo para se considerar um bailarino.

 

7. Se você quer ser bem-sucedido, prove que é valioso. O jeito mais fácil de sair de um trabalho é provar para seu patrão ou patroa que não precisam de você. Em vez disso, seja indispensável. Chegue cedo, memorize seu trabalho, esteja preparado, guarde suas opiniões para si – a não ser que a tenham pedido. Acima de tudo, trabalhe duro.

8. Haverá sempre alguém mais ou melhor que você. Seja trabalho, dinheiro, papel ou troféu, não importa. Em vez de se deixar envolver pelo drama do que os outros estão fazendo ao seu redor, foque nas coisas em que você é bom as coisas que você precisa melhorar, e as coisas que fazem você um dançarino mais feliz.

9. Às vezes você vai falhar. Às vezes, apesar de todo o seu esforço, seguir os melhores conselhos, estar no lugar certo no lugar certo na hora certa, você ainda vai falhar. Falhar é uma parte da vida. Falhar pode ser imprescindível para nossos maiores crescimentos e experiências de vida. Se a gente nunca falhar, a gente nunca vai valorizar nosso sucesso. Esteja aberto para a possibilidade de falhar. E quando acontecer com você (porque vai acontecer) abrace a lição que vem junto.

10. Você nunca vai se sentir 100% pronto. Ninguém nunca se sente 100% seguro quando aparece uma oportunidade. Bailarinos devem estar abertos a se arriscarem. De soltar da barra para o balance, a viajar o mundo com uma companhia nova, a confiar um novo partner a encontrar uma forma nova de dançar, dançarinos têm que ser flexíveis na mente tanto quanto no corpo. As maiores oportunidades das nossas vidas nos forçam a crescer além da nossa zona de conforto, o que significa dizer que você não se sentirá totalmente confortável ou pronto para elas.

Essa listinha foi adaptada de um texto publicado pela própria professora em seu blog, Ballet Pages. No original, são 15 ‘verdades’, mas selecionei apenas as 10 com as quais me identifiquei mais! O link para o original, em inglês, está aqui.

Sustente suas pernas

Você tem bom alongamento mas não consegue sustentar a perna no adagio? Levanta bem, mas na hora de mantê-la paradinha no développé ela mal passa dos 90º? Ou então até consegue sustentar, mas super en dedans? Tudo isso é bem comum, mas tem jeito! A gente dá umas dicas para você deixar seu adagio nos trinques e ficar com a perna alta.

A primeira coisa que você tem que pensar é que, para quem está dançando, o foco para sustentação de perna no adagio não é na que sobe, mas na de base. A perna de base tem que estar MUITO sólida, e todo o peso do corpo tem que estar bem colocado nela – senão nem adianta levantar a perna de trabalho.

A força não pode estar na perna que sobe, senão ela pesa. Especialmente na frente e ao lado, a força que vai ajudar a manter a perna alta vem do abdômen. Com o core bem trabalhado, fica mais fácil sustentar a perna na altura que você quer e ainda dá liberdade para movimentação, como um fouetté ou um grand rond de jambe no centro.

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Natalia Osipova e nosso développé sonho de consumo! (Foto: Reprodução / Royal Ballet)

Outra coisa que funciona muito para mim: pensar no dedinho do pé esticado. Se a gente pensar em subir a perna, concentra a força nos músculos dianteiros da coxa – e o que acontece? Ela pesa! A perna fica mais leve com os pés bem esticados, e fica mais fácil de levantá-la e mantê-la na posição.

Se seu problema é manter o en dehors na segunda posição, uma dica é fechar a  amplitude um pouco. Pode ser que você esteja levando a perna muito ao lado, o que dificulta manter o en dehors. Leve um pouquinho para frente (só um pouquinho!) e veja se melhora o turnout e, também, a sustentação de perna.

Abaixo dois vídeos bacanas: um para fortalecer o core e facilitar deixar a perna alta e sua manutenção no alto, e outro explicando a teoria anatômica do adagio (esse é com a maravilhosa Kathryn Morgan!). Apesar dos dois serem em inglês, tem muita demonstração!

Exercícios para sustentar a perna mais alto:

Anatomia do adagio:

Gostou dessas dicas? Veja mais na nossa seção Para o Corpo!

Vídeo da Semana #23

Como procuramos sempre inovar por aqui, nosso #videodasemana (sugestão das leitoras assíduas Camila Macedo e Clarice Bartilotti – obrigada, meninas!!) é o trailer do documentário sobre o coreógrafo israelense Ohad Naharin, feito por Tomer Heymann. E por que amamos tanto? Porque a trilha sonora escolhida foi de ninguém menos do que Caetano Veloso (inclusive, tiramos o vídeo da própria página do Facebook dele).

Esse não é o nosso primeiro #videodasemana com Ohad Naharin. Já resenhamos o trabalho dele quando ele coreografou um espetáculo da Batsheva Dance Company, convidando a plateia a participar da dança. Uma característica muito forte nas criações de Naharin é a mistura de tendências contemporâneas e modernas, que culminaram no GAGA, movimento inventado por ele.

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Sensualidade fluida! (Foto: Reprodução)

Nesse vídeo fica um pouquinho mais difícil avaliar a coreografia, porque são fragmentos de danças misturados ao som de It’s a Long Way, de Cateano. Aí damos palmas para a edição, que casou perfeitamente os movimentos dos bailarinos com a cadência da música e à atmosfera sensual, malemolente, fluida.

O que podemos dizer com certeza é que o propósito do vídeo foi atingido: estamos com vontade de assistir ao documentário!

Quer mais #videodasemana? Visite nosso acervo aqui!

Les Trocks rock!

Me ocorreu que nunca tinha feito um post sobre uma companhia super vanguarda, extremamente bem-humorada e com artistas muito talentosos: Les Ballets Trockadero de Monte Carlo. Sou apaixonada por esses bailarinos, e já tive a sorte de vê-los dançar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 2007.

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Cena de “O Lago dos Cisnes”, ou “Quem Vai Ficar com Odette”? (Foto: Reprodução)

Para quem não conhece, a companhia é formada apenas por homens, que se revezam nos papeis masculinos e femininos nas remontagens dos clássicos. E essas remontagens são sempre caricaturas e abordagem de situações que jamais veremos no palco. Como um bailarino não conseguir carregar uma bailarina, por exemplo, ou uma bailarina de óculos e mascando chiclete. Alguém que ‘esquece’ a entrada na dança ou vai vestida com o figurino de outro repertório.

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Treta em “Paquita” (Foto: Reprodução)

Todas as bailarinas e bailarinos do elenco têm uma identidade com nome engraçado e histórico curioso, muitas vezes brincando com a debandada das estrelas russas do país natal. Isso tudo só faz agregar à dança e à diversão que eles proporcionam.

Mas se engana quem acha que eles só brincam! Eles treinam, e muito, para conseguir fazer tudo que uma bailarina faz nas pontas. Tem fouetté, penchée, piruetas mil e tudo que manda o figurino – ou o repertório. Lembro que, conversando com eles após a apresentação, eles disseram que é uma forma de homenagear as mulheres da dança, porque subir nas pontas é uma das coisas mais difíceis de se fazer. Eles, mais do que ninguém, sabem muito bem disso.

Segue abaixo uma das apresentações deles que eu mais gosto: A Morte do Cisne. Ver ao vivo é impagável, mas por aqui dá pra se divertir muito, também!

Gostou das bailarinas drag queens? Tem mais fotos aqui:

Vídeo da Semana #22!

Quem não adora uma coreografia extremamente limpa? E coordenadíssima? E com bailarinos super entrosados? Pois bem, nossa leitora querida Clarice Bartilotti se encantou com esse vídeo, tanto que nos enviou como sugestão e, voilà! Virou #videodasemana. Valeu, Clarice!

Dessa vez seremos mais breves (infelizmente não pudemos entrevistar os bailarinos, como fizemos semana passada com Uriel Trindade), mas, em compensação, teremos uma análise maiorzinha da coreô.

Eu simplesmente adoro coreografias limpas e coordenadas. A companhia me ganha quando tem um corpo de baile bem ensaiado (Opéra de Paris, é com você mesmo!), e fazer isso com movimentos tão fluidos fica ainda mais difícil. O nome dessa dança é “Now Dance”, de Tao Ye, e foi apresentada no Centro Nacional de Artes de Pequim, na China. O vídeo não é linear – tem momentos intercalados com vários bailarinos, três, e um só – e trabalha com closes de passos e o palco completo. Isso, pra mim, enriquece ainda mais a experiência de assistir.

Muita gente questionou o tipo de dança. É ballet? Exercício de solo? Contemporâneo? Moderno? Eu arriscaria dizer um contemporâneo com muitos elementos de solo e alguns de clássico. São várias contrações e movimentos da técnica moderna, mas acredito que a leveza dos braços e os giros têm base no clássico!

Deixando de lado as especificidades técnicas da coreografia, acho que o mais legal é que ela é, aparentemente, simples. Não tem tantas pernas altas nem giros: é a movimentação incessante do corpo que mais chama a atenção. Como se o passo não acabasse, só evoluísse. Lembra um pouco o estilo das coreografias de Rudolf Nureyev e William Forsythe. Agora… Ao vídeo!

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