World Ballet Day 2016 – Bolshoi

O Bolshoi fez de tudo para atrapalhar nossa resenha, mas não contou com a astúcia da nossa leitora Joana Medeiros (MUITO obrigada!), que nos mostrou o caminho das pedras para encontrar a transmissão da companhia. Para ter acesso ao vídeo, basta fazer um cadastro no site do próprio Bolshoi, clicar na aba ‘video’ e assistir. É fácil e super simples!

A companhia quer mesmo mostrar que está focada em inovação, tanto é que a primeira coisa que aparece no streaming são as turmas infanto-juvenis (algo que senti falta nos demais ballets!), com entrevista com alunos e professores. A técnica de ensino do Bolshoi, que já foi questionada e até mesmo criticada por aqui, foi abordada logo de cara. Achei interessante essa forma mais direta de lidar com o público.

Meninos fofinhos que sonham em ser os novos Baryshnikovs (Foto: Reprodução)
Meninos fofinhos que sonham em ser os novos Baryshnikovs (Foto: Reprodução)

O Bolshoi realmente usou o World Ballet Day como promoção da companhia: teve entrevista com diretor artístico, coreógrafo, professor… Achei meio exagerado, até, porque só tinha gente falando maravilhas do ballet russo, da companhia, da escola, de como lá é o ‘berço’ do ballet clássico… Menos, né? O Bolshoi realmente se mantém como uma das maiores companhias do mundo e os russos continuam nos presenteando com bailarinos e bailarinas incríveis. Mas o resto do mundo também 🙂

Aula, mesmo, só depois de mais de uma hora de transmissão. E foi com o mesmo professor do ano passado, Boris Akimov, que é uma figura! Mais uma vez, o que dá pra notar é que o foco das aulas é na extensão de pernas e braços, marca registrada do método russo. Isso fica beeeem claro nos adagios e port de bras. Mas achei interessante que no centro tem um passo específico de fondue (!) com piruetas. Bolshoi inovando.

Não teve muita interação dos bailarinos com a transmissão, salvo quando diretamente abordados pela apresentadora. A disciplina é muito mais rígida em comparação com outras companhias – os bailarinos não brincam muito, não fazem muitas gracinhas ou mesmo falam com o professor. Quem faz ballet há algum tempinho vai se identificar com essa metodologia, que era abordada aqui no Brasil por professores, maîtres e dames de ballet até algum tempo atrás!

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Professor bom é o que faz o passo e ainda se alonga! (Foto: Reprodução)

E o melhor foi deixado para o final! Os ensaios foram de Jewels de George Balanchine (no programa consta Diamonds, mas, como apontou a Julimel, em Jewels a coreografia com tutu romântico é Emeralds), e The Golden Age, de Yuri Grigorovich – coreógrafo contemporâneo (apesar dos seus 89 anos) e uma das apostas do Bolshoi. Gostei muito das coreografias dele que assisti, como O Lago dos Cisnes e Spartacus, e o original A Flor de Pedra, com música de Sergei Prokofiev.

Jewels foi ensaiado no palco (amo!), já com orquestra e simulação de figurino, e The Golden Age foi em sala, no piano – o que dá a impressão que esse ballet começou a ser ensaiado há pouco tempo. Achei bem interessante a escolha desses repertórios para acompanhar, porque mostra dois estágios bem distintos de produções.

Marcação no palco com orquestra de Diamonds, de Balanchine (Foto: Reprodução)
Marcação no palco com orquestra de Jewels, de Balanchine (Foto: Reprodução)

 

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Acerte na pré-seletiva do Bolshoi!

Atenção, professoras, professores e bailarin@s! O Bolshoi abriu – e, para algumas cidades, já encerrou – inscrições para a pré-seleção, aquela que acontece todo ano em vários municípios. Para se participar na edição de 2016, o aluno ou aluna deve ter nascido entre 1997 e 2007 e pagar a taxa de R$ 15. As vagas disponíveis são para Curso Básico em Dança Clássica  e o Curso Técnico de Nível Médio em Dança Clássica.

Os alunos que passarem dessa pré-seleção vão para a etapa seguinte, na sede brasileira do Bolshoi, em Joinville (SC). É neste momento que os bailarinos e bailarinas podem conseguir bolsas, então vale a pena deixar o melhor para o final! As datas desse segundo momento ainda não foram divulgadas, mas serão em outubro.

Dicas de vestimenta:

O Bolshoi exige um código de vestimenta para as audições, que NÃO é o mesmo que o uniforme / fardamento que os bailarinos usam na escola.

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Collants simples, sem adereços e meia-calça clara é dica de vestimenta para meninas (Foto: Reprodução)

Para os exames do Curso Básico, o recomendado para a menina é top e shorts com cabelo preso em coque. Prefira cores sóbrias e tecidos lisos, sem estampa. Para os meninos, short ou bermuda. Os dois farão a aula descalços.

 

Para o exame do Curso Técnico, o recomendado é que meninas vistam collant, meia calça clara, cabelos presos em coque e sapatilhas de ponta e meia ponta. Importante não levar qualquer tipo de adereço, como saias e shorts.

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Regata e short para meninos (Foto: Capezio)

Quanto ao collant, prefira tons sóbrios e lisos, sem estampa. Para os meninos, blusa regata, short ou bermuda justa, sapatilha de meia-ponta e meia soquete, também sem qualquer adereço.

Aqui vai uma listinha do roteiro, com datas e o regulamento para cada cidade:

Belém (PA): as inscrições seguem até o dia 25 de julho (consulte o regulamento aqui). A audição será no dia 30 deste mês, um sábado, na Casa Das Artes,  na Praça Justo Chermont.

Salvador (BA): as inscrições continuam até o dia 29 de julho (consulte o regulamento aqui). A audição vai acontecer no dia 9 de agosto, uma terça-feira, na Escola de Dança Juliana Stagliorio, no bairro Costa Azul. Um aluno dessa escola, Thiago, foi o único baiano a passar com bolsa na seleção do ano passado!

Chapecó (SC): serão aceitas inscrições até dia 12 de agosto (consulte o regulamento aqui). O local da audição é Vanessa Batistello Escola de Dança, no Jardim Itália, em 18 de agosto.

Cambuí (MG): as inscrições serão abertas no dia 18 desse mês e continuam até 12 de setembro (consulte regulamento aqui). A audição será no dia 17 de setembro, no EducArte, no Centro.

As inscrições para as pré-seletivas de Imperatriz (MA) e Sinop (MT) já estão encerradas, e as audições já aconteceram nos dias 8 e 9 desse mês.

 

 

Anastasia Kazakova : É muita felicidade dançar no Brasil

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Anastasia Kazakova (Foto: Reprodução)

Bailarina formada pela escola Vaganova, em São Petersburgo, na Rússia, Anastasia Kazakova é uma das vinte solistas que integram a equipe de bailarinos do Ballet da Rússia, que estão fazendo uma turnê pelo Brasil desde abril. Ela, que é solista do Bolshoi, diz que é muito interessante se apresentar em várias cidades de um país grande como o Brasil, e se mostrou especialmente feliz com a resposta do o público, tão calorosa e receptiva.

Como é fazer uma turnê tão extensa como essa aqui no Brasil?

É uma turnê de ballet maravilhosa, e estamos todos muito felizes de estar aqui. Gostamos muito de passar pelas cidades maiores e mais conhecidas, como São Paulo, Rio de Janeiro, e, agora, Salvador. Mas também adoramos passar pelas cidades menores, que se mostraram tão receptivas quanto as grandes. Percebemos que o público gostou muito do espetáculo, e é muito caloroso com a gente.

O espetáculo é feito de divertimentos, ou seja, trechos que repertórios. Quais são mais fáceis de dançar? Qual ballet você gosta mais de dançar?

É mais fácil dançar esses divertimentos porque são trechos de ballets clássicos que a gente já está acostumado a dançar, como O Lago dos Cisnes, a Bela Adormecida, etc, até porque nossa formação, na Rússia, é mais tradicional e prioriza os grandes clássicos.

No segundo ato são peças mais modernas, mais contemporâneas, como Balanchine e Forsythe. São repertórios mais novos, portanto.

Não tenho como escolher um só como preferido! Adoro dançar todos eles, especialmente os clássicos.

O ballet russo tem ganhado mais espaço aqui no Brasil, seja na adoção do método em escolas ou na transmissão ao vivo das apresentações do Bolshoi em cinemas. Na sua opinião, o que diferencia o ballet russo dos demais?

Na verdade, o ballet na própria Rússia tem escolas diferentes. Eu sou formada na Vaganova, em São Petersburgo,  onde a prioridade é a extensão das pernas, dos braços e as linhas. Somos treinados para permanecermos em poses bonitas. O ballet de Moscou já prioriza pernas mais altas, muitas piruetas, explosão e agilidade. Mas mesmo dançando na Rússia a gente tem contato com bailarinos formados em Cuba, nos Estados Unidos, que vêm de técnicas diferentes, então a gente está sempre se aprimorando.

Mas, se eu tivesse que escolher uma formação, seria a Vaganova. É a melhor escola do mundo, a número 1.

Veja galeria de imagens do espetáculo! Fotos de Andrey Lapin e divulgação


O espetáculo Estrelas do Ballet Russo está em cartaz em Salvador nos dias 11 e 12 de maio, no Teatro Castro Alves. Ainda tem ingressos à venda na bilheteria e no site.

Próximas apresentações:

Aracaju:Teatro Atheneu, no dia 13 de maio (sexta-feira)

Teresina: Teatro Teresina Hall, no dia 14 de maio (sábado)

Fortaleza: Teatro Unifor, no dia 15 de maio (domingo) e Riomar, no dia 17 de maio (terça-feira)

Mais informações: http://www.balletdarussia.com/

Mariana Miranda: ajuda para audição na Bélgica!

Mariana Miranda, uma linda bailarina de 19 anos, recentemente foi aprovada em uma pré-audição no Rio de Janeiro para a P.A.R.T.S. (Performing Arts Research & Training Studios), escola de dança contemporânea em Bruxelas, Bélgica, sob a direção de Anne Teresa De Keersmaeker – uma importante referência atual em dança contemporânea.

Após a seleção – só ela ela e mais dez pessoas passaram – Mariana agora precisa arrecadar fundos para bancar os custos de sua ida para a Europa: passagens, seguro de viagem, alimentação, transporte, hospedagem… É bastante coisa!

 

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Olhar atento para aprender! (foto: Fernando Quevedo Barros)

Apesar de nova, Mariana já conta com uma formação pela escola contemporânea do Bolshoi no Brasil, e hoje dança no Balé Jovem de Salvador e na Kátharsis Companhia de Dança (que já foi citada aqui). Mariana arranjou um tempinho para nós e contou sobre esse nova fase de sua carreira como profissional de dança. Fala principalmente sobre a dificuldade de arrecadar dinheiro sem nenhuma financiamento público e todo o apoio que vem recebendo através das contribuições: “Muita gente está ajudando, estou achando incrível!”

No momento, ela conta com a divulgação por Facebook e com a ajuda de amigos para organizar aulões de dança, performances em lugares públicos “passando o chapéu” para arrecadar dinheiro. Sua viagem acontecerá dia 02/04, e ela precisa juntar o valor necessário quanto antes for possível. O Oito Tempos deseja que tudo dê certo para você Mariana!! Precisamos e muito apoiar os artistas da nossa terra, para que possam alcançar voos mais altos!!! Deixaremos abaixo os dados bancários para quem quiser ajudar. Qualquer ajuda é bem -vinda 🙂

*crédito da primeira foto: Chico Maurente

Agência 5695-2

Conta corrente N°: 3.398-7

Mariana Miranda de Oliveira Silva

Banco do Brasil

Bolshoi de cara nova?

Nessa semana (mais precisamente na segunda, dia 29) chegou a notícia que Makhar Vaziev, até então responsável pela direção artística do La Scala, em Milão, assumiria o posto de Sergei Filin como dirigente do Bolshoi.

Em 2013, Filin foi vítima de um episódio em que teve ácido jogado em seu rosto e, como consequência, teve a visão seriamente comprometida. No entanto, sua saída não teria sido movida por questões médicas, mas pela necessidade de mudança na companhia – considerada por muitos amantes da dança, críticos e especialistas do meio como extremamente conservadora.

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Vaziev comandava o La Scala desde 2009 (Foto: Reprodução)

A chegada de Vaziev, então, viria como uma “rajada de ar fresco” para o Bolshoi, modernizando o repertório e trazendo peças mais contemporâneas. E tudo indica que ele tem mesmo credenciais para isso: na companhia italiana, onde estava desde 2009, o diretor produziu trabalhos de coreógrafos como Alexei Ratmanski (muito populares no Australian Ballet, por exemplo) e Serguei Vikharev. Além disso, ele saberia como “trabalhar” o público e o ego russos. À frente do  Mariinsky por 13 anos, o diretor ganhou as graças de  estrelas como Svetlana Zakharova, Diana Vishneva e Evgenia Obraztsova.

O que muda?

Então virão novidades no Bolshoi? Sim. Serão boas? Talvez. Essa mudança me lembra muito a ida de Benjamin Millepied à também super conservadora Opéra de Paris com a mesma proposta. Um ano depois, o marido de Natalie Portman saiu do comando da companhia por ter uma abordagem supostamente vanguardista demais. Foi substituído por Aurélie Dupont, étoile recém-aposentada e queridinha do público e staff do  Opéra.

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Aurélie Dupont e Benjamin Millepied

Não sei se a mesma coisa vai acontecer com o Bolshoi. A verdade é que sinto tristeza que as companhias mais tradicionais hesitem em incorporar ao repertório tradicional peças de autores contemporâneos ou modernos, porque a impressão que fica é que não dá para harmonizar os dois. Considero a direção de Tamara Rojo no English National Ballet um acerto tremendo. Ela, que além de dirigente ainda dança pela companhia desde 2013, conseguiu equilibrar os ballets clássicos com novas produções em ‘divertimentos’ muito bem produzidos. Tanto que atraiu bailarinos de calibre, como Alina Cojocaru.

Fica aqui o desejo que Vaziev tenha um destino mais parecido com o de Tamara Rojo do que o de Millepied. E que a dança, no final, saia ganhando!

Ballet salva-vidas

Thiago se destacou na seletiva do Bolshoi (Foto: Matheus Pirajá)

A voz dele sai tão fininha que é até difícil ouvir. Parece estar com vergonha, ainda não se acostumou com essa coisa de dar entrevista. Diz que não sabe por quê gosta de dançar, apenas gosta. Muito.  E quer continuar fazendo isso pra sempre.

A vida de Thiago Nascimento de Jesus deu um giro de 180º quando o garoto, de 11 anos, foi aprovado para a escola do Ballet Bolshoi, em Joinville (Santa Catarina). A felicidade de conquistar uma bolsa vem com a novidade das entrevistas – Thiago foi o único baiano a passar na seleção na turma iniciante – e da mudança. Cheio de pose, ele diz que já esteve em Joinville, na própria academia do Bolshoi, e gostou do que viu. “É muito, muito grande. E tem várias salas”, disse, esboçando um sorriso.

Assim como aconteceu com Thiago, a dança tem o potencial de mudar e melhorar muitas vidas. De família muito humilde, ele não teria muitas oportunidades de estudar e investir na formação profissional. Ele só conheceu o ballet graças ao projeto de bolsas que sua professora, Juliana Stagliorio, mantém na escola.

“Eu pedi que ele se inscrevesse para a seleção do Bolshoi primeiro porque ele tem o físico muito bom para o método Vaganova, que é longilíneo e exige flexibilidade. Mas o outro motivo foi garantir que ele pudesse sair da comunidade dele como outra coisa que não pedreiro, garçom… Porque a realidade dele era essa”, disse a professora. Fica aqui nosso pedido para donos e donas de academias para também concederem bolsas para alunos que não podem pagar. Vai que você descobre o próximo Marcelo Gomes ou Ana Botafogo?

E a técnica?

Na escola, Juliana ensina o método cubano, conhecido pela agilidade e versatilidade na organização dos passos. O russo, que Thiago vai encarar no Bolshoi, é diferente – e vai exigir mais das extensões que ele tem ao seu favor. Ainda assim, Juliana, que é formada em fisioterapia, não esconde uma pontinha de preocupação no quesito técnica: como ele é muito flexível, não tem ainda muita força nos músculos internos e pode acabar trabalhando o “en dehors” errado, forçando os joelhos e os pés. Isso, aliás, é uma dica que vale pra todo mundo!

“O método Vaganova tem várias semelhanças com o cubano, como passos com bastante rélevés no centro, o que exige um trabalho de equilíbrio e core muito forte e, às vezes, muito cedo. Mas tem a questão da flexibilidade, também. Aqui a gente ensina como tem que trabalhar o en dehors, que não pode forçar muito para não machucar. Lá no Bolshoi eu sei que vão esperar isso dele. E no próprio método cubano, quando o aluno chega nos graus mais avançados espera-se que ele feche a primeira posição a 180º”, lamentou.

Natural

Alguns bailarinos têm a vantagem de, como Thiago, nascerem com o corpo já “preparado” para a dança. Juliana conta que percebeu que ele era diferente logo no primeiro dia, quando ‘escalou’ com as pernas em segunda e virou para o espacate de frente nos dois lados – tudo pelos ligamentos. Sem surpresas, os passos que Thiago mais gosta de fazer até hoje são os que exploram sua extensão, como grandes saltos e grand battements. Ah, ele ele gira super bem também, obrigada! Segundo ele, o mais chato é justamente fazer exercícios que exigem força muscular, como fondues e adagios.

Thiago aguarda com certa ansiedade poder dançar de verdade na academia do Bolshoi. Na última vez que esteve lá, para a segunda parte dos testes de admissão, ele reclamou que “ninguém pediu para eu dançar” e só ficou examinando seu físico. Calma, rapaz! Você vai ter oito anos pra mostrar serviço e, no final das contas, realizar o sonho de se apresentar nos maiores palcos do mundo. Onde? “Ah, qualquer um. Mas quero dançar em Cuba. E na Rússia”, comentou. Tá bem encaminhado!

OBS: A família de Thiago ainda precisa de ajuda para conseguir fazer a mudança. Se você puder contribuir, as doações podem ser feitas aqui: Banco: Caixa Econômica Federal, Agência: 4112, Operação: 013, Conta: 9341-8

O Quebra Nozes do Bolshoi

Como a gente já gosta de uma resenha e não é todo dia que dá para assistir uma produção do Bolshoi ao vivo – ainda que via transmissão no cinema (amamos a tecnologia!!!!) – achamos que valia a pena mostrar nossas impressões da montagem d’O Quebra Nozes.

A produção assistida foi do dia 27 de dezembro, com Anna Nikulina como Marie, Denis Rodkin como príncipe Quebra Nozes e Andrei Merkuriev como Drosselmeier. A assinatura da montagem e da coreografia é de Yuri Grigorovitch.

Como em outras produções que assisti do Bolshoi, o diferencial da companhia é o corpo de baile. Flocos de Neves e a Valsa das Flores (ou equivalente, pois a versão do Bolshoi é diferente da tradicional e de Balanchine) estavam impecavelmente ensaiadas, tanto as bailarinas como os bailarinos. Palmas, também, para a transmissão da Pathé, que nos presenteou com imagens do topo do palco e de ângulos que normalmente não temos acesso quando estamos no teatro.

No geral, também gostei muito da escolha dos principais: ambos muito limpos e entrosados. Anna começou o repertório um pouco ‘travada’, ousando pouco nas extensões (ela tem braços e pernas super longilíneos!) e com uma expressão meio assustada. Foi bonito ver que, assim como a personagem, Marie, ela foi se soltando mais durante a apresentação, e simplesmente arrasou no solo da protagonista, que tem uma coreografia tecnicamente muito mais difícil do que as tradicionais. Também gostei do Drosselmeier acompanhando e conduzindo o sonho de Marie.

Denis também cresceu durante o espetáculo, mostrou muita qualidade e suavidade nos movimentos, mas não me cativou tanto. Achei a produção dele exagerada – muito laquê no cabelo, que chegava a brilhar com a luz do palco – e maquiagem desnecessariamente forte.

No mais, achei que a montagem deixou a desejar no cenário e, especialmente, no primeiro ato. Não gosto de ver bailarinos crescidos interpretando crianças, especialmente meninas vestidas de menino. Achei uma bola fora, até porque o Bolshoi é uma escola super tradicional e não teria dificuldade em ensaiar crianças para o primeiro ato.

Anna e Denis no pas de deux de Marie e o príncipe Quebra Nozes (Foto: Reprodução / Pathé Live)
Anna e Denis no pas de deux de Marie e o príncipe Quebra Nozes (Foto: Reprodução / Pathé Live)

O Quebra-Nozes, que foi presenteado a Marie, era uma criança, e não um brinquedo. Achei estranha essa escolha, e até demorei a entender – muito por conta da fantasia, também – que se tratava do Quebra Nozes e não de mais um boneco-vivo do padrinho da menina, Drosselmeier. Além disso, confesso que senti falta da Fada Açucarada também, ainda que num papel mais de mis-en-scène.

No mais, fiquei satisfeita com a experiência e já estou ansiosa pelas próximas produções do Bolshoi na temporada 2016. Mas não escondo que esperava mais da companhia – e ainda espero! – porque sei que o Bolshoi é capaz de montar espetáculos ainda mais envolventes.

Para ver as próximas transmissões dos espetáculos do Bolshoi clique aqui!

Já falamos sobre o Bolshoi antes, no World Ballet Day! Quer lembrar? Clique aqui 🙂

Perfil: Rudolf Nureyev

Rudolf Nureyev
Rudolf Nureyev

Nascido na Rússia socialista (portanto, União Soviética) em 17 de março de 1938, Rudolf Khametovich Nureyev foi um dos maiores nomes do ballet na segunda metade do século XX. Além de bailarino de técnica impecável, ele foi peça importante para a reestruturação do Ballet Opera de Paris como coreógrafo e répétiteur (responsável por remontar as obras), revolucionou o papel do homem no ballet clássico e contribuiu para a inovação da dança moderna. Morreu em 1993, aos 54 anos, de insuficiência cardíaca decorrente da AIDS.

Acostumado a viajar desde o nascimento – sua mãe deu à luz num trem na linha Transiberiana, perto de Irkrutsk, na Sibéria – Nureyev fez audição para entrar no Bolshoi quando a família viajou do vilarejo, Ufa, para Moscou. Naturalmente, ele passou, mas optou pelo Kirov e mudou-se para São Petersburgo (à época, Leningrado). Mas, por conta das dificuldades burocráticas da União Soviética, foi apenas aos 17 anos que ele conseguiu matricular-se na escola.

Aos 20 anos, ele já era solista do Kirov e um dos bailarinos mais queridos do país. Por isso, ganhou permissão para se apresentar no exterior e contribuir para a propaganda do socialismo. Ele chegou a dançar em Viena, na Áustria, mas, por conta do seu temperamento rebelde, só voltou a sair da União Soviética em 1961. Nessa turnê, também pelo Kirov, ele foi aclamado pela crítica internacional (em especial pela francesa). Antes mesmo do fim da turnê, a KGB (inteligência soviética) quis mandá-lo de volta para o país, com medo que ele fugisse. Não adiantou: com a ajuda da polícia francesa e de amigos, Nureyev conseguiu escapar e firmou um contrato com o Grand Ballet du Marquis de Cuevas. Na turnê que a companhia fez pela Dinamarca, conheceu Erik Bruhn, solista do Royal Danish Ballet que se tornou seu amante e amigo mais próximo.

Um dos pontos altos da carreira de Nureyev como bailarino foi sua passagem pelo Royal Ballet, em Londres, quando dançou com a primeira bailarina Margot Fonteyn. Ele continuou no Royal até os anos 1980, quando, já como Principal Guest Artist (mais alto posto da companhia), ele migrou para o Opera de Paris. Mesmo depois de sua ida para o Opera, Nureyev e Fonteyn continuaram dançando juntos. A última vez que dividiram o palco foi em 1988 – Fonteyn tinha 69 anos e ele, 52. O repertório foi “Baroque Pas de Trois”. Já nessa época, por conta de sua habilidade técnica e talento, Nureyev conseguiu forçar o crescimento do papel masculino no ballet clássico, com coreografias mais difíceis e mais tempo em palco.

Em 1983 ele se tornou o diretor da Opera de Paris, e dava início à carreira de coreógrafo enquanto continuava como bailarino. Ele ajudou a formar o que foi, talvez, a melhor ‘safra’ de bailarinos da companhia: Sylvie Guillem, Monique Loudières, Elisabeth Platel, Isabelle Guérin, Manuel Legris, Charles Jude, entre outros. Ele continuou a trabalhar até o final da sua vida, mesmo fragilizado com o avanço da doença. Suas versões de “Romeu e Julieta”, “Lago dos Cisnes”, “La Bayadère”, “Raymonda” e “A Bela Adormecida” são reeditadas com exatidão pela Opera de Paris até hoje. À época, ele disse que queria “retirar todo o creme chantilly que foi adicionado ao longo dos anos e retornar ao original das coreografias de Marius Petipa”. Deu certo!

Mais perfis:

Darcey Bussel

Bolshoi – World Ballet Day

Extensão é a palavra chave na aula do Bolshoi
Extensão é a palavra-chave na aula do Bolshoi

O Bolshoi é uma das companhias de dança mais tradicionais do mundo, e uma das mais exclusivas também. Por isso que sua participação no World Ballet Day – ou qualquer streaming – é aguardado com bastante ansiedade. Por mim, pelo menos. Nessa edição, quem nos leva às salas de aula e nos diz tudo sobre o teatro, a academia e os bailarinos é Katerina Novikova, relações-públicas do Bolshoi. Como não há legendas, ela fala em russo e em inglês – o sotaque é forte, mas dá para entender!

Tudo bem que a gente perde bastante coisa não sabendo o que o professor Boris Borisovich fala com os alunos. Tirando dos nomes dos passos, não dá para entender nada. Mas dá para perceber que, nesta aula, as extensões são muito trabalhadas. E isso diz muito sobre o estilo russo de dançar, que valoriza bastante as linhas e os braços dos bailarinos. Outra coisa que dá para observar é o rigor físico: todas as mulheres são extremamente magras e a maioria é alta. Os dançarinos também forçam o en dehors ao máximo, ultrapassando a linha dos 180º da primeira posição. Muitos professores e fisioterapeutas são contra, dizendo que isso faz mal para os ligamentos e para o joelho. Mas, em se tratando do Bolshoi… é tradição.

Também rola um contorcionismo agudo durante a aula, especialmente durante adagios. As pernas sobem até você achar que a pessoa vai se rasgar no meio, daí sobe mais um pouquinho, sustenta e só depois desce. (Acho desnecessário! 😛 ) Diferentemente das outras companhias, o Bolshoi mostrou mais aulas durante a transmissão, o que reforçou a ideia de realmente ‘passarmos o dia’ lá.

Ensaios

O primeiro repertório que vemos é um assinado por Alexei Ratmanski, um dos principais coreógrafos de ballet clássico nos dias de hoje. O nome da peça não foi mencionado no vídeo, mas dei uma pesquisada e acho se tratar de Jardi tankat, uma produção com músicas folks espanholas. A musicalidade é beeeem difícil, e os passos são muito fluidos, sem aquele rigor do clássico tradicional que estamos acostumados. Particularmente não sou muito fã de ballets com música cantada, mas essa coreografia certamente chama atenção.

Para mim, a melhor parte foi a passagem de O Lago dos Cisnes no palco. Apenas amo aquelas cena clichês, de visão dos bastidores, entra e sai de bailarinos no palco, a música da orquestra… Me julguem! É uma passagem mais de espaço, por isso não existem aquelas correções de interpretação, tempo, colocação de pernas e braços, etc. É um ensaio muito mais ágil, mas igualmente importante – e lindo!

Mas o Bolshoi mostrou que também está apostando em produções contemporâneas. Radu Poklitaru, que coreografou Hamlet para a companhia, falou que, nessa obra, atuar é tão importante quanto dançar. E, por isso, escolheu para a peça bailarinos que tivessem uma carga dramatúrgica maior. Para se ter uma ideia, o Hamlet original, Denis Savin, foi escolhido porque emocionou como Romeu. E como é tudo Shakespeare, né… Tá em casa! Poklitaru falou que o processo  dele é diferente dos colegas que chegam para o ensaio com tudo já preparado. “Eu só crio em sala. Ouço a música, olho os bailarinos no olho e dentro de mim mesmo, ouço a música como se fosse a primeira vez e aí arrisco uns movimentos meio estranhos, que depois se transforma na estrutura do ballet”.

Os depoimentos dos professores e maîtres do Bolshoi são, realmente, inigualáveis. Muitos viram de perto verdadeiras lendas do ballet russo dançarem nos anos 1940 e 1950, quando o Bolshoi e o Mariinsky não tinham competição. No finalzinho, temos um vídeo com uma compilação de ensaios e apresentações – e podemos ver, ainda que de relance, grandes estrelas da companhia, como Svetlana Zakharova, Evgenia Obrastova e Maria Kotchetkova, que hoje está no San Francisco 🙂

Para ver a aula e ensaios completos, clique aqui.

Quer mais? Leia nossas resenhas do Australian Ballet, Royal, National Ballet of Canada e San Francisco!

World Ballet Day 2015: o que teve?

Corpo de baile do Royal Ballet em aula
Corpo de baile, solistas e bailarinos principais do Royal Ballet em aula

No dia 1º de outubro aconteceu a segunda edição do World Ballet Day – a primeira foi no mesmo dia, no ano passado – e contou com streaming ao vivo de cinco companhias que são referência no mundo do ballet: Australian Ballet, da Austrália; Bolshoi, da Rússia, Royal Ballet, do Reino Unido; National Ballet of Canada, no Canadá; e San Francisco Ballet, nos Estados Unidos.

Assim como em 2014, teve aula, teve ensaio e teve pré-produção de alguns espetáculos. Teve também participação de companhias convidadas, como Czech National Ballet, Northern Ballet e o Houston Ballet. Ou seja, foi um dia inteiro de muita, muita, muuuuita dança!

O World Ballet Day não foi a primeira vez que as companhias abriram as portas de suas salas: em 2012, o próprio Royal já tinha disponibilizado transmissão ao vivo para aulas e ensaios;  o Pacific Northwestern também fez streaming de aulas neste ano e outros ballets, como o Houston, também apostaram nessa experiência. O retorno do público foi imediato.

Por que assistir é tão bom?

Normalmente, só temos acesso ao produto final dessas grandes companhias, que são as apresentações. Até então, amantes da dança não tinham como assistir ao dia-a-dia dos bailarinos, aos ensaios, aulas, ver as correções dos professores… Enfim, participar do processo de preparação dos espetáculos, desde o plié até o allegro.

Para quem dança, assistir as aulas também é uma forma de criar empatia com os bailarinos. É bom ver que eles, também, erram, caem, esquecem a coreografia e têm coisas que precisam melhorar. A única diferença é que eles erram, caem e esquecem menos! 😀

Fizemos resenhas de cada uma das companhias. Clique e confira!

Australian BalletBolshoi, Royal Ballet, National Ballet of Canada e San Francisco