Perfil: Marius Petipa

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Petipa é o autor dos ballets clássicos mais tradicionais

Marius Ivanovich Petipa pode ser facilmente apelidado de “pai” do ballet romântico. O coreógrafo viveu entre 1818 e 1910 e foi responsável por assinar a montagem de repertórios clássicos ainda extremamente populares entre as maiores companhias do mundo. Entre eles estão O Lago dos Cisnes, A Bela Adormecida, O Quebra-Nozes, Don Quixote, Raymonda, Giselle, O Corsário e La Bayadère.

Nascido em Marseille, na França, Petipa teve contato com a dança desde cedo. Seu pai era bailarino e ele mesmo começou a acompanhá-lo em turnês com a companhia aos nove anos. Aos 16, entrou no Théâtre Nantes, e foi lá que ele começou a coreografar algumas peças.

Em 1847, após alguns anos trabalhando como dançarino na França, ele foi para a Rússia, onde seu trabalho tomou proporções históricas.Dois meses depois da sua chegada, tornou-se bailarino principal e maître de ballet do Mariinsky, até hoje a maior companhia de São Petersburgo. Lá, Petipa ficou conhecido como coreógrafo em 1859, ao assinar a montagem de A Filha do Faraó. No entanto, foi apenas em 1869 que ele se tornou o coreógrafo-chefe da companhia.

Pierina, a pioneira dos 32 fouettés
Pierina, a pioneira dos 32 fouettés

O trabalho de Petipa se caracteriza pelo virtuosismo e pelo rigor técnico, além dos gestos carregados de dramaticidade. O Lago dos Cisnes é prova disso: a gente falou sobre as mímicas dos mis-en-scènes, verdadeiros diálogos com o corpo. Ainda no Lago, podemos comprovar o rigor técnico na coda de Odile, o cisne negro. Foi nesse ballet que a exigência dos 32 fouettés apareceu pela primeira vez. A bailarina que “inspirou” essa ideia foi Pierina Legnani, muito por conta da sua habilidade técnica.

Os 32 fouettés na coda se tornaram uma assinatura de Petipa, que a reaplicou em vários de seus repertórios. Outra assinatura do mestre foi o uso extensivo do corpo de baile durante toda a apresentação, com coreografias que exigiam sincronia precisão milimétrica das bailarinas.

O último grande ballet coreografado por Petipa foi Raymonda, em 1898. O mestre se aposentou em 1903, com dezenas de repertórios (entre montagens originais e recriações) no currículo. Fica difícil precisar quantos porque alguns deixaram de ser apresentados e caíram no ostracismo e outros se “fundiram”.

American Ballet Theatre
O corpo de baile, marca registrada do maître de ballet!

 

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Victor Hugo: “Quero ajudar a popularizar a dança na Bahia”

Diretor do Grupo Experimental de Jazz, Victor Hugo Paiva – ou apenas Victor Hugo, como ele prefere ser chamado – se viu numa encruzilhada quando se viu sem o apoio financeiro do edital Agitação Cultural, da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult). Assim como sua companhia, vários outros artistas que passaram no edital tiveram suspensos os repasses por conta da crise financeira.

Determinado a comemorar os cinco anos do grupo, Victor Hugo resolveu assumir os custos do espetáculo e produzi-lo do jeito que tinha imaginado – ou o mais próximo disso. Em nossa conversa, ele conta que problemas como esse são comuns, e que tanto o empresariado baiano quanto o governo falham na hora de incentivar artistas.

Mesmo assim, Victor Hugo espera conseguir mudar um pouquinho esse cenário, e popularizar a dança na Bahia até que ela faça parte do calendário das pessoas. Seu espetáculo, “A Última Ceia”, que será apresentado no Teatro Isba no dia 21 de janeiro, será o primeiro passo nesse sentido.

Sua companhia chegou a passar num edital- que depois retirou o apoio financeiro por conta da crise. No que isso alterou seus planos?

Isso nos impactou de uma forma muito forte. Eu tive que assumir praticamente 100% tudo financeiramente, quando eu contava com um apoio. Então, fica complicado. Mas quis manter tudo que tinha planejado, na medida do possível. E resolvi trazer o Owen (Lonzar, coreógrafo sul-africano). Trazer alguém de fora é ampliar o conhecimento. Eu já tinha visto shows dele e achei as produções bem diferente. Conheci o trabalho dele na Turquia, quando ele fazia shows em hotéis. Na época, percebi que ele fazia algo extra de entretenimento e o convidei para ver meu grupo.

E como foi essa troca de experiências?

Existem informações novas: ele pensa de uma forma diferentes e tem uma organização diferente. Houve um choque entre elenco e professor. Ele não tolera atraso. A gente tem esse negócio de chegar dez ou quinze minutinhos atrasado que ainda ‘está na hora’. Com ele, não. Na cabeça dele tá tudo organizado, mesmo que a gente não entenda. Na questão coreográfica não tem nada muito diferente do que a gente faz, do movimento. Mas é um cuidado diferente, não é o que se faz, mas a forma com que se faz.

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Filipe Monteverde e Victor Hugo (centro) com  o corpo de baile do Grupo Experimental de Jazz (Foto: Arquivo pessoal)

Por que você resolveu, agora, fazer um trabalho maior?

Meu grupo está fazendo cinco anos, por isso eu quis fazer algo diferente e movimentar a cidade, que está parada – culturalmente falando. Eu tenho um TOC de datas, quase, e gosto muito de comemoração. São pessoas que estão comigo há um tempo. Tenho medo de estagnar e fazer sempre a mesma coisa, porque isso é o que me motiva, para vivenciar outras coisas. Faço muitos cursos, participo de congresso de dança. Mas não são todos do grupo que vivem de dança, até para que eles se permitam continuar no grupo. Sei que não são todos que têm as mesmas oportunidades que eu de estar tão imerso no meio da dança. Ao mesmo tempo que trago esse coreógrafo pra mim trago pra eles também.

O que te fez escolher a dança para viver?

Me divirto muito dançando, dançava para extravasar. Quando escolhi dança como profissão, escolhi para me comunicar. Falo muito na sala de aula, nos ensaios, porque não me sinto sempre compreendido. Isso acontece mais com a dança. Quando crio uma coreografia de cinco, dez minutos, consigo ouvir dos que assistiram que se emocionaram, que se divertiram. Isso que me motiva na dança.

Existem empecilhos para trabalhar com dança na Bahia?

Ouço muita gente dizer que somos atrasados aqui na Bahia. Mas o que falta mesmo é uma postura profissional, não é atraso de técnica. A gente tolera muitos atrasos, muitos problemas. A gente tem que colocar mais verdade, mais compromisso. E isso não está relacionado a poder aquisitivo ou status. Tem muita gente em companhia que não vive de dança, e muitas vezes são essas as que se empenham mais. Se tem atraso aqui na Bahia é porque as pessoas querem separar tudo. Se eu faço jazz, meu trabalho é menor do que meu colega que faz contemporâneo. O pessoal que faz afro não passa em edital porque é afro, as pessoas têm preconceito. A gente entende a dança como estilo, e deve passar a entender como movimento. Se eu escolhi o jazz é porque eu me sinto mais confortável dançando e criando assim, não quer dizer que eu não faça outras coisas.

E na parte operacional da coisa, o que dificulta mais?

Existem empecilhos, como conseguir um teatro, apoio financeiro. Minha companhia passou duas vezes em edital, inclusive me disseram que foi o primeiro grupo de jazz a conseguir isso. Tem gente que diz que não dá pra viver de edital pra não ficar dependendo. Esse ano mesmo não teve, como é que faz? Como funciona o apoio? Tem gente que tem sorte de conhecer pessoas. O diretor de uma empresa que dá mil reais, que seja, já ajuda muito.

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Apresentação do Grupo Experimental de Jazz (Foto: Arquicvo Pessoal)

Como é o público de dança?

Nosso público não lota teatro. Temos um problema em Salvador, porque as pessoas não saem de casa para ir ao teatro. A gente não pode contar com o público de teatro. Nossos ingressos são vendidos entre familiares e amigos da dança. Quem assiste dança em Salvador é quem pratica dança. Hoje em dia temos as redes sociais, e é por lá que a gente divulga muito, porque não temos muito espaço na mídia. Além disso, as pessoas não têm o costume de abrir o jornal pra procurar uma apresentação de dança pra assistir. A gente compete com cinema, com show de Pablo… Às vezes as pessoas perguntam ‘quanto é’ e a gente fala o preço, R$ 30 reais. As pessoas não pagam R$ 30 numa apresentação de dança, mas gastam mais que R$ 50 numa sentada de bar num domingo. A gente quer popularizar a dança na Bahia. Quero arriscar, to lançando um canal do Youtube para disseminar a dança aqui. Amo cinema, adoro uma sala cheia. Adoraria ver isso com o teatro também.

 O que: “A Última Ceia”, coreografia de Owen Lonzar. Os ingressos custam R$ 30 e podem ser conseguidos através dos bailarinos

Onde: Teatro Isba, Ondina, Salvador (BA)

Quando: Dia 21 de janeiro. Sessões às 19h e 20h30