Perfil: Rudolf Nureyev

Rudolf Nureyev
Rudolf Nureyev

Nascido na Rússia socialista (portanto, União Soviética) em 17 de março de 1938, Rudolf Khametovich Nureyev foi um dos maiores nomes do ballet na segunda metade do século XX. Além de bailarino de técnica impecável, ele foi peça importante para a reestruturação do Ballet Opera de Paris como coreógrafo e répétiteur (responsável por remontar as obras), revolucionou o papel do homem no ballet clássico e contribuiu para a inovação da dança moderna. Morreu em 1993, aos 54 anos, de insuficiência cardíaca decorrente da AIDS.

Acostumado a viajar desde o nascimento – sua mãe deu à luz num trem na linha Transiberiana, perto de Irkrutsk, na Sibéria – Nureyev fez audição para entrar no Bolshoi quando a família viajou do vilarejo, Ufa, para Moscou. Naturalmente, ele passou, mas optou pelo Kirov e mudou-se para São Petersburgo (à época, Leningrado). Mas, por conta das dificuldades burocráticas da União Soviética, foi apenas aos 17 anos que ele conseguiu matricular-se na escola.

Aos 20 anos, ele já era solista do Kirov e um dos bailarinos mais queridos do país. Por isso, ganhou permissão para se apresentar no exterior e contribuir para a propaganda do socialismo. Ele chegou a dançar em Viena, na Áustria, mas, por conta do seu temperamento rebelde, só voltou a sair da União Soviética em 1961. Nessa turnê, também pelo Kirov, ele foi aclamado pela crítica internacional (em especial pela francesa). Antes mesmo do fim da turnê, a KGB (inteligência soviética) quis mandá-lo de volta para o país, com medo que ele fugisse. Não adiantou: com a ajuda da polícia francesa e de amigos, Nureyev conseguiu escapar e firmou um contrato com o Grand Ballet du Marquis de Cuevas. Na turnê que a companhia fez pela Dinamarca, conheceu Erik Bruhn, solista do Royal Danish Ballet que se tornou seu amante e amigo mais próximo.

Um dos pontos altos da carreira de Nureyev como bailarino foi sua passagem pelo Royal Ballet, em Londres, quando dançou com a primeira bailarina Margot Fonteyn. Ele continuou no Royal até os anos 1980, quando, já como Principal Guest Artist (mais alto posto da companhia), ele migrou para o Opera de Paris. Mesmo depois de sua ida para o Opera, Nureyev e Fonteyn continuaram dançando juntos. A última vez que dividiram o palco foi em 1988 – Fonteyn tinha 69 anos e ele, 52. O repertório foi “Baroque Pas de Trois”. Já nessa época, por conta de sua habilidade técnica e talento, Nureyev conseguiu forçar o crescimento do papel masculino no ballet clássico, com coreografias mais difíceis e mais tempo em palco.

Em 1983 ele se tornou o diretor da Opera de Paris, e dava início à carreira de coreógrafo enquanto continuava como bailarino. Ele ajudou a formar o que foi, talvez, a melhor ‘safra’ de bailarinos da companhia: Sylvie Guillem, Monique Loudières, Elisabeth Platel, Isabelle Guérin, Manuel Legris, Charles Jude, entre outros. Ele continuou a trabalhar até o final da sua vida, mesmo fragilizado com o avanço da doença. Suas versões de “Romeu e Julieta”, “Lago dos Cisnes”, “La Bayadère”, “Raymonda” e “A Bela Adormecida” são reeditadas com exatidão pela Opera de Paris até hoje. À época, ele disse que queria “retirar todo o creme chantilly que foi adicionado ao longo dos anos e retornar ao original das coreografias de Marius Petipa”. Deu certo!

Mais perfis:

Darcey Bussel

Anúncios

La Bayadère, do Royal Ballet

Foto: Royal Opera House
Roberta Marquez como Nikiya

Assistir uma produção do Royal Opera House é, em si, uma experiência para se lembrar – independente do que você escolheu ver. Só de passar pelos portões do teatro, pelos salões em que figurinos de bailarinos históricos são cuidadosamente expostos, olhar os restaurantes e bares imponentes e impecavelmente mantidos (ambos com vistas privilegiadas para a Covent Garden Piazza) seu humor é automaticamente alterado para o “modo artístico”.

Para mim, a experiência foi duplamente rica. Primeiro, porque fui assistir a um dos meus ballets preferidos, La Bayadère. Segundo, porque foi minha primeira ida ao Covent Garden para prestigiar a maior companhia de dança do mundo. Mas o principal foi a surpresa gratificante de assistir Roberta Marquez, uma brasileira, como protagonista.

A história do ballet

La Bayadère, ballet clássico de três atos, foi provavelmente uma das produções mais aguardadas da estação, a única que estreou já esgotada. O enredo se passa na Índia e conta a história do amor trágico entre a dançarina do templo (significado de bayadère), Nikyia, e o guerreiro Solor. Esse romance é testado logo no primeiro ato, quando o Rajá decide casar Solor com sua filha, a princesa Gamzatti, fazendo com que ele quebre a jura de amor eterno, feito sob o fogo sagrado, a Nikyia.

Marianela Nuñez como Gamzatti
Marianela Nuñez como Gamzatti

Os papéis principais foram para Roberta Marquez (que substituiu Alina Cojocaru), e Federico Bonelli, enquanto Gamzatti foi interpretada pela nova queridinha do Royal, Marianela Nuñez.

Apesar de ser uma história relativamente complicada de se seguir, que envolve gurus, vingança, profecias e morte, os detalhes não são tão importantes. “Você pode não ter ideia do que está se passando no palco e ainda assim achar lindo”, disse um senhor na plateia. Colocação deveras pertinente.

A performance

Essa foi a primeira vez que Roberta dançou La Bayadère com Bonelli, e os dois não tiveram muito tempo para ensaiar.  Infelizmente, isso ficou claro. O casal teve dificuldade para encontrar harmonia nas primeiras cenas, e Roberta hesitou muitas vezes, parecendo insegura em relação a seu novo partner. Mais para frente eles pareceram relaxar, mas ainda assim a dança dos dois em nada se compara com a química de Roberta com Steven McRae, com quem ela normalmente divide o palco, ou a intimidade que Bonelli e Marianela mostraram no pas d’action de Gamzatti e Solor.

Ainda assim, Roberta apresentou uma Nikyia bastante expressiva e emocionada. Toda a hesitação das primeiras cenas foi perdoada no solo de Nikyia, quando Roberta, em equilíbrio, desenvolveu o retirée para o arabesque, onde se manteve num balance lindamente controlado, só mudando de posição para seguir a música. Duas vezes. Isso não é algo que muitas bailarinas profissionais consigam fazer em uma carreira inteira, muito menos no palco.

Marianela brilhou como a má e elegante princesa Gamzatti, que tenta roubar o amor de Solor. Apesar dela também interpretar Nikyia em algumas apresentações de La Bayadère, bem como papéis principais em outras produções, é em personagens como Gamzatti e Fada Lilás, da Bela Adormecida, que ela mostra o que tem de melhor. As coreografias exigem técnica afiada, suavidade e controle, algumas das melhores características dessa bailarina. Quando interpreta personagens muito emotivos (como Nikyia e Odette do Lago dos Cisnes, por exemplo), Marianela tende a pesar um pouco na expressividade.

Corpo de baile, a estrela d'O Reino das Sombras
Corpo de baile, a estrela d’O Reino das Sombras

Já no segundo ato, O Reino das Sombras, a produção encontrou a harmonia e a manteve até o último ato, O Templo. A grande estrela do Reino das Sombras foi o corpo de baile, perfeitamente ensaiado – as bailarinas provavelmente respiravam ao mesmo tempo.

Bonelli teve a chance de mostrar seu lado artístico no terceiro ato (quando Solor alucina vendo o fantasma de Nikyia) e ele o fez muito bem. No geral, Bonelli apresentou um Solor elegante, gracioso e até delicado para um guerreiro, bem diferente da versão famosa de Carlos Acosta (bailarino principal que reveza o papel com Bonelli), bastante forte e masculina.

Mais detalhes

No geral, a versão do Royal Ballet de La Bayadère, coreografada pela icônica Natalia Makarova, conseguiu emocionar o público e envolvê-lo na tragédia indiana.

“Apesar de ser um enredo dramático, você sai da sala com o humor leve, se sentindo bem consigo mesmo. Essa é uma coisa que o ballet faz por você que a ópera não faz”, disse, mais uma vez, o senhor na plateia. E, de novo, eu não poderia concordar mais.

Fotos: Royal Opera House

*Post originalmente publicado no blog Revista Pulso em 26/04/2013. Para ver, clique aqui