Royal Ballet – World Ballet Day

Aula de aquecimento do Royal Ballet
Aula de aquecimento do Royal Ballet

A aula é, confesso, minha parte preferida do World Ballet Day. Gosto mais do que os ensaios, que são mágicos porque a gente consegue ver o passo a passo da obra prima, de como os bailarinos e a coreografia são polidos até chegarem ao que nós vemos no palco. Mas a aula tem um gostinho ainda mais especial: é quando vemos os dançarinos desprovidos de qualquer vaidade. Estão lá, na barra nossa de cada dia, com as sapatilhas gastas, aquela meia meio rasgada, enfim… Gente como a gente.

Por isso que é tão bom de assistir: dá para ver por quê esses são bailarinos profissionais. Mas é bom ver que eles, também, erram, têm seus artifícios e folgam o joelho quando fazem tendue devant – me senti representada!* No mais, é sempre muito legal ver brasileiros dançando. Nessa aula eu vi uma, Letícia Stock**, primeira artista da companhia (esse status é uma posição acima do corpo de baile). Além de Letícia, temos Mayara Magri, também primeira artista, e Roberta Marquez e Thiago Soares como principais da companhia.

O Royal convidou mais quatro companhias do Reino Unido para a transmissão: o Northern, Birmingham Royal, English National e o Scottish. O Birmingham Royal – parceiro e convidado do World Ballet Day – fez um vídeo explicando como funciona a técnica do pas de deux. Nele, os bailarinos Jade Heusen e Brandon Lawrence mostram o por quê das coisas e o que acontece quando fazem de outro jeito. Quem já fez aulas de partening vai se identificar com algumas ‘trapalhadas’ que os bailarinos simulam – tenho muitas lembranças de piruetas mal-sucedidas. E também vale a pena para quem não dança! A partir desse vídeo dá para ver o quanto certas posições são difíceis e desconfortáveis – especialmente para os homens.

O English National teve uma iniciativa muito legal de oferecer oficinas de dança e expressividade para idosos que sofrem com Mal de Parkinson. A melhor parte é que as aulas acontecem no estúdio da companhia, ou seja, no mesmo ambiente dos profissionais. Numa entrevista bem rapidinha, Tamara Rojo – diretora artística e principal da companhia – fala da importância de apostar em trabalhos novos e equilibrá-los com os repertórios tradicionais. Pessoalmente, compartilho do ponto de vista dela, pois acho que muitas companhias ‘estacionaram’ nas montagens mais clássicas e deixam de aproveitar o talento menos convencional de novos profissionais.

Ensaios

Os pas de deux Raven Girl, The Two Pigeons, várias cenas de Romeu e Julieta e a Valsa das Flores, de O Quebra Nozes, foram os repertórios do Royal para o dia. Além disso, várias outras coreografias foram passadas. Não vou falar sobre todos, apenas os menos conhecidos. Raven Girl foi conduzido pelo coreógrafo Wayne McGregor, e contou com a solista Beatriz Stix-Brunelle o primeiro solista Ryoichi Hirano nos papéis principais. Essa é a primeira vez que a dupla dança esse ballet, montado originalmente em 2013. Quer saber mais sobre a história? A gente conta! Já The Two Pigeons, coreografia de Frederick Ashton é muito fofa – e engraçada. É tecnicamente difícil, mas não deixo de rir com os passos. Quem deu as diretrizes foi Christopher Carr, maître de ballet convidado, e os bailarinos são os primeiros solistas Yuhui Choe – uma das minhas dançarinas preferidas do Royal – e Alexander Campbell.

Uma coreografia apresentada, Czardas, vale a pena conhecer. Quem dança é o próprio coreógrafo, o novo queridinho da Royal Steven Mc Rae. O ruivo sem dúvidas está vivendo sua melhor fase: nos últimos dois anos ele se consolidou como principal e tem participado de todas as montagens originais da companhia. Nesse repertório ele mostra seu lado mais versátil, combinando clássico com sapateado (sou fã). Para fechar, Romeu e Julieta, um dos ballets mais queridos do público, recebeu menção honrosa: teve um vídeo de pré-produção da temporada com direito a backstage, entrevista com os coreógrafos e bailarinos e visitas ao camarim. Enfim, é muita coisa… Tudo isso para dizer que vale a pena tirar umas horinhas do seu dia para ver o vídeo todo!

*Veja aqui que eu não estou mentindo!

**Letícia está usando um leotard cinza e saia florida. Ela está no segundo grupo de centro, na fila da frente à esquerda.

Para ver aula e ensaios completos, clique aqui.

Quer mais? Leia nossas resenhas sobre o Australian Ballet, Bolshoi, National Ballet of Canada e San Francisco!

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Raven Girl, um conto de fadas para adultos

Audrey Niffenegger e Wayne McGregor durante a montagem de Raven Girl
Audrey Niffenegger e Wayne McGregor durante a montagem de Raven Girl

Mais de três anos se passaram desde que a escritora americana Audrey Niffenegger (A Mulher do Viajante do Tempo) e Wayne McGregor, coreógrafo do Royal Ballet de Londres, se reuniram para criar um projeto ambicioso: um conto de fadas inédito apresentado em três linguagens diferentes e complementares; palavras, dança e imagem.

Não se tratava, portanto, de uma adaptação do livro para dança, da dança para o filme ou vice-versa. Cada parte do “projeto” teria como propósito contar sua versão da história, criada em conjunto pelos artistas. Audrey inventou a história, McGregor inventou os passos, Gabriel Yared inventou a música e o filme ainda está em fase de criação.

Apesar de não ter criado a história preocupada com a parte dançada do projeto, a escritora acompanhou a coreografia montada por McGregor desde o início. “Foi animador porque (a dança) é uma linguagem que eu não falo. É como outra língua, você não entende nada, mas pensa ‘olha, é minha história em outra língua’ e acha lindo ”, disse Audrey em entrevista coletiva promovida pelo Royal Ballet.

Capa do livro Raven Girl
Capa do livro Raven Girl

Raven Girl (A menina corvo, em tradução livre), conta a história de uma menina com alma de pássaro, fruto do amor entre um carteiro e uma corvo. Desde pequena ela se sente aprisionada pelo próprio corpo e tudo que ela mais quer é conseguir voar. Ninguém a compreende; apesar da aparência humana, ela fala a língua dos pássaros e não consegue se comunicar com pessoas. Por outro lado, os corvos não a enxergam como uma deles e, por isso, a menina se sente muito sozinha.

O livro, lançado em fevereiro de 2013, tem uma linguagem simples e direta, e carrega o humor fino e levemente sombrio característico da autora. Os personagens não têm nomes, são “o carteiro”, “o menino”, “o gato”, “o médico”. A narrativa, no entanto, é clássica no quesito conto de fadas, começando com “Once there was a postman who fell in love with a raven” (“Era uma vez um carteiro que se apaixonou por uma corvo”, em tradução livre) e terminando com o esperado final feliz, que remete ao início do livro. Audrey disse que procurou colocar em seu livro todas as características principais de um conto de fadas, mas quis que os personagens fossem psicologicamente mais complexos. “Não é algo que você vai encontrar em uma história dos irmãos Grimm”, explicou.

As ilustrações, que dominam boa parte da obra, também são de autoria da escritora. McGregor credita às imagens boa parte da coreografia, porque, segundo ele, elas possuem “uma gramática física implícita”. Segundo Audrey, a escolha da aquatinta (técnica que consiste em sobrepor uma imagem em outra) reflete o estado de espírito da personagem principal, sentindo-se duas coisas ao mesmo tempo – e, talvez por isso, não se identificando plenamente com nenhuma delas.

O ballet, cuja temporada de estreia no Covent Garden foi de maio a junho do mesmo ano, carregou muito da narrativa do livro, se tornando até didático em algumas partes. O decorrer do repertório deu a entender que McGregor ficou mais preocupado em explorar o enredo até a metade da história, enxugando o final. A apresentação contou com muitos efeitos visuais, fazendo alusão às litografias de Audrey. A ideia teria sido excelente se não tivesse ofuscado o ballet, que acabou contando mais com mis-en-scénes e efeitos do que com dança, propriamente.

Melissa Hamilton como Raven Girl
Melissa Hamilton como Raven Girl

No entanto, a música e as coreografias do solo da Raven Girl e do pas de deux dela com o príncipe corvo (claro que tinha um príncipe, afinal, é um conto de fadas!) fizeram o ballet valer a pena. McGregor conseguiu traduzir em movimento o que Audrey descreveu em palavras, e a música de Yared fez com que a gente quase pudesse escutar o pensamento e a angústia da personagem.

McGregor disse que não se sentiu obrigado a dar ao ballet o mesmo rumo do livro e defendeu que a dança tem seu próprio ritmo. “Nós sempre soubemos, desde o início do projeto, que ele seria feito em três fases: o livro, que teria sua vida própria, o palco, que traria outra versão da história e desviaria do livro em alguns momentos, e o filme, que combinaria todos os elementos anteriores com animação e voz”.

Estou ansiosa para a terceira parte do projeto e espero, sinceramente, que mais parcerias como essa possam enriquecer o mundo da arte – McGregor e Audrey deram a entender que esta foi o primeiro de vários projetos conjuntos. Mesmo se não forem perfeitas e aclamadas pelo público – o ballet recebeu algumas críticas negativas – pelo menos vai servir como uma reciclagem no mundo da arte. Ao integrar em uma mesma produção letras, movimento e música, Raven Girl é um convite para que mais artistas a saiam do óbvio de vez em quando.

 Veja aqui o vídeo em que Audrey e McGregor falam do conceito do projeto.

 

*Post originalmente publicado no blog Revista Pulso em 14/06/2013. Para ver, clique aqui.