Um presente agregador!

gej-palco
Grupo Experimental de Jazz em cena (Foto: Arquivo pessoal)

A gente já tinha conversado aqui com o diretor do Grupo Experimental de Jazz, Victor Hugo, sobre as dificuldades de se manter uma companhia de dança no Brasil. E são muitas: desde o público, que não enxerga uma atividade cultural como lazer, ao custo enorme de organizar apresentações sem qualquer tipo de patrocínio.

Pois bem: nesta semana foi o aniversário dele (parabéns!!!), e, como todo aniversariante, Victor Hugo pediu um presentinho. Só que em vez de roupas, acessórios ou um jantarzinho à luz de velas, o presente que ele pediu não foi só pra ele. Foi um pedido de ajuda para custear o novo espetáculo do grupo.

Ficamos muito tocados com essa iniciativa, e resolvemos divulgar a mensagem que ele mandou aos amigos do Facebook. Esperamos que Victor Hugo receba MUITOS presentes, e que ele continue a nos presentear com a dança 🙂

“Pois é, como o Facebook cumpre muito bem o papel de avisar datas de aniversário, todos os meus amigos do Face sabem que o meu está chegando. Esse ano eu não quero presentes específicos, quero pedir aos meus amigos, ou às pessoas que admiram meu trabalho, ou às que simplesmente acreditam na arte para ajudar na arrecadação de verba para a produção do novo espetáculo do Grupo Experimental de Jazz. Então peço a todos como forma de presente que doem o que puderem!”

O link para a Vakinha está aqui, e quem quiser saber um pouquinho mais da companhia dele pode assistir aqui:

Anúncios

Mais folclore, por favor!

A gente adora quando fica sabendo do surgimento de uma companhia de dança, então quando aparece uma contemporânea e que se diz folclórica, a gente curte mais ainda! Calma que ainda não acabou: os bailarinos vêm de projetos sociais do bailarino e idealizador Denys Silva.

A companhia – que leva o nome do espetáculo – apresenta pela primeira vez  “Tradições de uma Bahia” no teatro. Segundo Denys, que é professor de dança moderna e ex-bailarino do Teatro Castro Alves, eles sempre foram convidados para dançar, e foi daí que veio a ideia de levar o repertório, que existe desde 2014, aos palcos. Segundo ele, isso aconteceu graças à parceria com Nell Araújo, que é o diretor do Teatro Jorge Amado.

“Há um ano e meio montei essa equipe com jovens adultos da comunidade. São capoeiristas e bailarinos que tinham desejo de dançar profissionalmente. Fizemos trabalhos na comunidade e fomos convidados para fazer apresentações da cultura baiana, e foi daí que surgiu o espetáculo. Formule, então, um balé folclórico no formato do teatro e, com o apoio de Nell, vamos realizar no Jorge Amado. A gente tem dentro do espetáculo toda a parte tradicional do nosso folclore, orixá, puxada de rede, capoeira, makulelê, utilizando a linguagem na dança na baseado na técnica Horton, que eu dou aula. O espetáculo esta bem interessante e quem viu gostou muito e recebeu muito bem!”

Além do folclore tradicional, o balé é baseado fotografias de Pierre Verger, das telas coloridas de Carybé e traz referências aos blocos afro. Em pouco mais de um ano os jovens que participam do projeto, juntamente com a companhia, já se apresentaram em diversos espaços culturais de Salvador.

Excerto do espetáculo "Tradições de Uma Bahia" Foto: Edvaldo Luneto
Excerto do espetáculo “Tradições de Uma Bahia” Foto: Edvaldo Luneto

O que: espetáculo “Tradições de Uma Bahia”

Onde: Teatro Jorge Amado (Avenida Manoel Dias da Silva, 2177, Pituba, Salvador – BA).

Dia e hora: 21h. O espetáculo fica em cartaz até dia 25 de fevereiro, e, tirando a estreia, no dia 13 de janeiro, acontece todas as quintas-feiras.

Ingressos no local (R$ 40 inteira e R$ 20 meia)

Mais informações aqui!

Filipe Monteverde: “Eu sempre tive esse lado dramático em mim”

Foto: Júlia Lima

Logo que chego, já vejo a movimentação expressiva, forte e marcada característica da companhia. O ensaio já acontece a todo vapor e bailarinos em vigor dão tudo de si na carga emocional e feroz que “Instinto” demanda. Eu, que fui integrante da companhia por cinco anos, toda vez que assisto sinto uma vontade avassaladora de estar junto e dançando, partilhando desse momento tão gostoso. Por hora fico apenas como espectador observando. Por enquanto… (risos)

Lipe, como sempre, muito focado na correção de intenção de movimento que os bailarinos devem passar para o público, isso para ele é essencial. Quase que uma marca registrada. Corre tudo muito bem durante os ensaios e o elenco vai refinando cada vez mais os movimentos, para que tudo esteja perfeito para a estreia, dia 15 de dezembro (aliás, estarei lá assistindo rs).

Graduado em Dança pela Universidade Federal da Bahia, Filipe Monteverde também é bailarino, professor, coreógrafo e diretor da Kátharsis companhia de Dança, já ganhou por três vezes o primeiro lugar no concurso Ballace, na categoria Livre Avançado. Agora, ele conta para OITO TEMPOS sobre esse momento especial para ele e seu elenco, e o que esperar do futuro da cia.

Foto: Divulgação
Kátharsis em movimento

Como surgiu a Kátharsis?

Surgiu a partir de um laboratório de corpo e criação, durante o curso de dança da UFBA. Em um trabalho de pesquisa de movimento, surgiu meu primeiro trabalho chamado “Musevi” (judeu em turco), no qual eu trouxe essa relação dos judeus dentro do campo de concentração, desde a câmara de gás, os corpos nas valas e etc. A partir daí o trabalho tomou força e eu tive a ideia de criar um grupo para levar para concurso, mostras de dança, e a companhia surge a partir disso. O nome Kátharsis foi dado por um amigo. Pedi para ele relacionar uma foto minha desse trabalho junto a minha movimentação, o que ele via naquilo. O nome combinou perfeitamente com minha proposta dentro do Contemporany Jazz, a questão do sentimento, que não deixa de ser jazz, mas possui essa carga emocional, visceral, o que vem de dentro para fora, totalmente explícita nas coisas que eu faço.

De onde vem a inspiração para essas coreografias tão fortes que você cria, que causa impacto e reações variadas em quem assiste?

Minha inspiração parte de sensações, tudo o que a gente vê, o que a gente passa, vivências pessoais, com amigos. Eu sempre tive esse lado dramático em mim e eu relaciono muito minhas criações a linguagem cinematográfica. Acredito que o cinema tem um poder muito grande de sensações que provoca no espectador. A dança, claro, tem sensações, mas ela pode ser aprofundada. Quando penso em dança, vem primeiramente esse sentimento que você quer imprimir de verdade na pessoa, em como meu trabalho passa de verdade para quem está assistindo. Acho isso muito forte quando nos propomos a fazer algo: acreditar no que você faz e assim passar para a plateia, e eu não tenho medo disso. Sempre arrisco o que eu quero, penso em temas polêmicos, dramáticos, porque eu tenho isso na veia. Justamente por serem temas extremamente fortes, eu preciso experimentar, passar isso para que os bailarinos reproduzam para quem assiste.

Você sente algum preconceito/resistência das pessoas que vem seu trabalho por ser um estilo diferente do que se está acostumado no nosso cenário de dança?

O que me proponho a fazer juntamente com a companhia foi super positivo no retorno, justamente por haver uma verdade muito grande no que faço. Mesmo não agradando a todos, há uma verdade impressa para quem vê e isso volta de uma forma positiva. Acredito que tem sim um preconceito contra o jazz, por ser visto a partir de outras linguagens, associado a algo cafona, antiprofissional, o que não é verdade. O jazz tem uma carga muito forte, seu valor, sua história desde o surgimento com os negros norte americanos até hoje, na polissemia de movimento. Ele agrega e contribui muito. Acho que se ele não existisse, haveria um grande problema no universo da dança.

Durante cinco anos fui integrante da companhia e sempre acompanhei essa rotatividade do elenco ao longo dos anos. Como você encara essas mudanças?

Por ser um grupo muito grande tem essa rotatividade mesmo. Eu, por não fazer audições, sempre convido os bailarinos, tem sempre essa troca. Trabalhar com elenco grande, para mim, é sempre muito bom. Mesmo saindo um, o carinho sempre está por aqui, junto, acolhedor, sempre temos essa troca. Gosto muito de estar recebendo quem sai e volta. A Kátharsis é isso, claro que sempre de uma forma boa. Todos os que passam por aqui são muito queridos!

Primeiro espetáculo como companhia independente. Como está sendo essa preparação?

Tá uma maluquice né (risos), mas tá rolando. Os bailarinos ajudam muito, a equipe externa é muito boa, desde a cenografia até o figurino são pessoas que estão ajudando muito. Temos todo esse apoio de parcerias, escolas amigas que forneceram desde o linóleo até o espaço para ensaiarmos. É uma sensação muito boa pois sempre fiz trabalhos pequenos e tá sendo uma maravilha fazer um longa, uma sensação incrível. Esse ano conseguimos fazer isso, eu tô muito feliz e espero que o resultado seja maravilhoso, para os bailarinos e para quem assiste.

Seu espetáculo “Instinto” estreia dia 15 de dezembro no teatro ISBA. Conta pra gente a concepção dele e o que o público deve esperar no dia.

É uma mistura de sentimentos, relacionado a filmes e outras coisas. Me inspirei livremente na trilogia “Planeta dos Macacos”, o último filme justamente fala dessa questão humano/animal. Também porque meu gato morreu e resolvi homenageá-lo colocando como um dos personagens. É um espetáculo que envolve desde o início ao final o espectador, por muitas coisas. Ele não é linear, trabalha muito as sensações, tem nuances, fortes, leves, volta para o forte. Ele frisa a questão de o instinto não ser somente selvagem, como as pessoas pensam. Ele tem uma carga suave, maternal muito grande dentro dele, brinca com as nuances da palavra em si. Por tratar de uma narrativa deixa mais forte a ligação ao tema. Acredito que vai emocionar muito e espero que todos gostem. Convido todos a assistirem dia 15! Vão se arrepender se vocês não forem!

Foto: Júlia Lima
Ensaio de Instinto. Foto: Júlia Lima

O que podemos esperar da Kátharsis após esse momento pós-Instinto?

Espero uma grande turnê, que possamos viajar e propagar essa ideia para muita gente, não só aqui mas no Brasil, no mundo. Tenho essa vontade muito grande de vivenciar editais, viajar com os bailarinos e proporcionar um nível mais elevado tanto para Salvador no cenário da dança quanto para a companhia.

Algum último recado para os leitores do OITO TEMPOS?

Espero que a partir dessa matéria, que eles acompanhem muito mais o blog, que possam compartilhar o que acontece porque… é cultura! É uma forma maior e melhor de informação. Acho muito bom vocês terem tido essa iniciativa para ampliar mais esse horizonte e as pessoas acompanharem o que acontece sobre dança na cidade. Agradeço de poder ter esse momento, mostrando meu espetáculo e a companhia dentro do espaço do blog. E que a partir disso, as pessoas acompanhem o blog, que com certeza tem um bom gosto maravilhoso! ❤

 

OBS: A foto de abertura também é da Júlia Lima!