Vídeo da semana #17!!

Uma coisa que eu falo bastante por aqui é o quanto eu acho importante que as grandes companhias invistam em material autoral e de coreógrafos contemporâneos. A gente sabe que o público do ballet clássico é, muitas vezes, conservador e avesso a mudanças (é com você mesmo, Bolshoi!), mas algumas companhias estão conseguindo introduzir mais variedade no repertório com muito sucesso.

O #videodasemana é justamente sobre um case de sucesso: o English National Ballet. Desde que assumiu a direção artística além do posto de primeira bailarina), Tamara Rojo conseguiu dar outros ares àquela que sempre foi a companhia à sombra do Royal Ballet. Hoje, o ENB é referência no Reino Unido em trabalhos autorais, e tem produções de clássicos de forma não-convencional, como o formato “caleidoscópio” ou “3D” – que a gente já avaliou (in loco!) aqui.

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Tamara Rojo interpreta Frida em momento de dor crônica (Foto: Reprodução)

Pois bem, vamos ao vídeo, finalmente! Dessa vez o ENB aposta em She Said, uma coletânea de três ballets coreografados por três mulheres (sim, porque existe muito sexismo no ballet clássico também!), Aszure Barton, Annabelle Lopez Ochoa e Yabin Wang. O que a gente escolheu para analisar foi Broken Wings, de Annabelle Lopez Ochoa, sobre a vida da pintora mexicana e ícone feminista Frida Kahlo.

Claro que nesse vídeo não temos o ballet inteiro, apenas trechos do ensaio, mas já podemos destacar duas coisas: uma é a introdução das pinturas da Frida e do marido dela, Diego Rivera, no cenário (móvel!), e que os bailarinos dialogam com ele o tempo todo. Segundo, que as dores físicas e psicológicas de Frida são retratadas como um personagem à parte, o que eu achei super interessante. Além disso, a coreografia me parece mais livre, menos amarrada ao conceito do clássico, e mistura muitos elementos da cultura mexicana – inclusive a dança local.

Vale o clique!

 

Quer mais #videodasemana? Acesse nosso arquivo!

Se você for muito sortud@ e estiver em Londres nos próximos dias, o ENB vai se apresentar em Sadler’s Wells do dia 13 ao 16 de abril. Mais informações aqui!

 

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Bolshoi de cara nova?

Nessa semana (mais precisamente na segunda, dia 29) chegou a notícia que Makhar Vaziev, até então responsável pela direção artística do La Scala, em Milão, assumiria o posto de Sergei Filin como dirigente do Bolshoi.

Em 2013, Filin foi vítima de um episódio em que teve ácido jogado em seu rosto e, como consequência, teve a visão seriamente comprometida. No entanto, sua saída não teria sido movida por questões médicas, mas pela necessidade de mudança na companhia – considerada por muitos amantes da dança, críticos e especialistas do meio como extremamente conservadora.

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Vaziev comandava o La Scala desde 2009 (Foto: Reprodução)

A chegada de Vaziev, então, viria como uma “rajada de ar fresco” para o Bolshoi, modernizando o repertório e trazendo peças mais contemporâneas. E tudo indica que ele tem mesmo credenciais para isso: na companhia italiana, onde estava desde 2009, o diretor produziu trabalhos de coreógrafos como Alexei Ratmanski (muito populares no Australian Ballet, por exemplo) e Serguei Vikharev. Além disso, ele saberia como “trabalhar” o público e o ego russos. À frente do  Mariinsky por 13 anos, o diretor ganhou as graças de  estrelas como Svetlana Zakharova, Diana Vishneva e Evgenia Obraztsova.

O que muda?

Então virão novidades no Bolshoi? Sim. Serão boas? Talvez. Essa mudança me lembra muito a ida de Benjamin Millepied à também super conservadora Opéra de Paris com a mesma proposta. Um ano depois, o marido de Natalie Portman saiu do comando da companhia por ter uma abordagem supostamente vanguardista demais. Foi substituído por Aurélie Dupont, étoile recém-aposentada e queridinha do público e staff do  Opéra.

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Aurélie Dupont e Benjamin Millepied

Não sei se a mesma coisa vai acontecer com o Bolshoi. A verdade é que sinto tristeza que as companhias mais tradicionais hesitem em incorporar ao repertório tradicional peças de autores contemporâneos ou modernos, porque a impressão que fica é que não dá para harmonizar os dois. Considero a direção de Tamara Rojo no English National Ballet um acerto tremendo. Ela, que além de dirigente ainda dança pela companhia desde 2013, conseguiu equilibrar os ballets clássicos com novas produções em ‘divertimentos’ muito bem produzidos. Tanto que atraiu bailarinos de calibre, como Alina Cojocaru.

Fica aqui o desejo que Vaziev tenha um destino mais parecido com o de Tamara Rojo do que o de Millepied. E que a dança, no final, saia ganhando!