O que esperar de The Golden Age

Ser jornalista tem seus pontos positivos, e um deles é poder assistir a filmes e produções antes que elas estreiem para o público. Isso aconteceu comigo nessa semana, quando assisti ao The Golden Age (A Era de Ouro) do Bolshoi pelo jornal que eu trabalho (a matéria que eu fiz está aqui!). Esse repertório terá transmissão ao vivo nos cinemas UCI hoje e amanhã, e resolvi postar aqui uma impressão mais técnica para quem está pensando em assistir.

OBS: Se você não quiser ir ao cinema, pode baixar no blog Vídeos de Ballet Clássico!

Primeiro: importante contextualizar que esse ballet foi montado, originalmente, em 1930. Nessa época, a Rússia era a União Soviética e estava nos primeiros anos do regime socialista. Isso resultou num repúdio cultural aos países capitalistas, como os Estados Unidos e, também, a Europa.

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Nina Kapsova e Ruslan Skvortsov como Rita e Bóris (Fotos: Damir Yusupov / Bolshoi Theatre)

The Golden Age reflete isso muito bem. A trama se passa numa ilha litorânea no Sul da União Soviética nos anos 1920, num ambiente bem sensual e boêmio – lembrando bastante os cabarés parisienses.

A história segue o clássico enredo romântico: os personagens principais, a dançarina Rita e o pescador Bóris, se apaixonam e querem ficar juntos. Mas os vilões Yashka, líder de uma gangue criminosa, e Lyuska, sua fiel escudeira, tentam separá-los. Durante o espetáculo há muita dança e confusão no restaurante que, curiosamente, se chama The Golden Age. Spoiler: o final é dramático, mas feliz!

No geral, achei que a sátira funcionou muito bem no ballet. Não é exagerada, fica numa malícia implícita, bastante sensual e alegre. O Bolshoi soube usar os figurinos e combinar passos da dança de salão com o ballet clássico. Ponto para Yuri Grigorovich, que assina a coreografia.

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Ekaterina Krisanova e Mikhail Lobukhin como Lyuska e Yashka

A costura dos movimentos, especialmente nos solos, lembra muito Balanchine, embora Grigorovich tenha um estilo muito inspirado nas extensões, marca registrada da escola russa. Mas, ainda assim, ele cobra mais agilidade e giros mais certeiros das bailarinas, e exige delas uma musicalidade aguçada para fazer caber os passos na música. Achei bem interessante!

Quem gosta de pas de deux vai se encontrar nesse repertório: Rita e Bóris dançam juntos três vezes ao longo dos dois atos. Rita e Yashka mais uma vez, e Lyuska, de longe a personagem mais interessante da produção, apenas flerta com outros bailarinos durante suas aparições.

Acho que The Golden Age é uma boa pedida para esse fim de semana, especialmente porque é uma produção exclusiva do Bolshoi – nenhuma outra companhia no mundo apresenta esse repertório!

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Nina Kapsova e Mihkail Lobukhin como Rita e Yashka

Ballets da temporada do Bolshoi com transmissão nos cinemas:

A Era de Ouro: 19/11 (sábado) às 13h30 e 20/11 (domingo) às13h

O Quebra Nozes: 10/12 (sábado) e 11/12 (domingo)

O Lago dos Cisnes: 11/02/2017 (sábado) e 12/02/2017 (domingo)

A Bela Adormecida: 11/03/2017 (sábado) e 12/03/2017 (domingo)

Uma Noite Contemporânea: 29/04/2017 (sábado) e 30/04/2017 (domingo)

O Herói do Nosso Povo: 27/05/2017 (sábado) e 28/05/2017 (domingo)

Mais informações aqui.

Segue o trailer da temporada 2016/2017 do Bolshoi pra te convencer a ir 🙂

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World Ballet Day 2016 – Bolshoi

O Bolshoi fez de tudo para atrapalhar nossa resenha, mas não contou com a astúcia da nossa leitora Joana Medeiros (MUITO obrigada!), que nos mostrou o caminho das pedras para encontrar a transmissão da companhia. Para ter acesso ao vídeo, basta fazer um cadastro no site do próprio Bolshoi, clicar na aba ‘video’ e assistir. É fácil e super simples!

A companhia quer mesmo mostrar que está focada em inovação, tanto é que a primeira coisa que aparece no streaming são as turmas infanto-juvenis (algo que senti falta nos demais ballets!), com entrevista com alunos e professores. A técnica de ensino do Bolshoi, que já foi questionada e até mesmo criticada por aqui, foi abordada logo de cara. Achei interessante essa forma mais direta de lidar com o público.

Meninos fofinhos que sonham em ser os novos Baryshnikovs (Foto: Reprodução)
Meninos fofinhos que sonham em ser os novos Baryshnikovs (Foto: Reprodução)

O Bolshoi realmente usou o World Ballet Day como promoção da companhia: teve entrevista com diretor artístico, coreógrafo, professor… Achei meio exagerado, até, porque só tinha gente falando maravilhas do ballet russo, da companhia, da escola, de como lá é o ‘berço’ do ballet clássico… Menos, né? O Bolshoi realmente se mantém como uma das maiores companhias do mundo e os russos continuam nos presenteando com bailarinos e bailarinas incríveis. Mas o resto do mundo também 🙂

Aula, mesmo, só depois de mais de uma hora de transmissão. E foi com o mesmo professor do ano passado, Boris Akimov, que é uma figura! Mais uma vez, o que dá pra notar é que o foco das aulas é na extensão de pernas e braços, marca registrada do método russo. Isso fica beeeem claro nos adagios e port de bras. Mas achei interessante que no centro tem um passo específico de fondue (!) com piruetas. Bolshoi inovando.

Não teve muita interação dos bailarinos com a transmissão, salvo quando diretamente abordados pela apresentadora. A disciplina é muito mais rígida em comparação com outras companhias – os bailarinos não brincam muito, não fazem muitas gracinhas ou mesmo falam com o professor. Quem faz ballet há algum tempinho vai se identificar com essa metodologia, que era abordada aqui no Brasil por professores, maîtres e dames de ballet até algum tempo atrás!

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Professor bom é o que faz o passo e ainda se alonga! (Foto: Reprodução)

E o melhor foi deixado para o final! Os ensaios foram de Jewels de George Balanchine (no programa consta Diamonds, mas, como apontou a Julimel, em Jewels a coreografia com tutu romântico é Emeralds), e The Golden Age, de Yuri Grigorovich – coreógrafo contemporâneo (apesar dos seus 89 anos) e uma das apostas do Bolshoi. Gostei muito das coreografias dele que assisti, como O Lago dos Cisnes e Spartacus, e o original A Flor de Pedra, com música de Sergei Prokofiev.

Jewels foi ensaiado no palco (amo!), já com orquestra e simulação de figurino, e The Golden Age foi em sala, no piano – o que dá a impressão que esse ballet começou a ser ensaiado há pouco tempo. Achei bem interessante a escolha desses repertórios para acompanhar, porque mostra dois estágios bem distintos de produções.

Marcação no palco com orquestra de Diamonds, de Balanchine (Foto: Reprodução)
Marcação no palco com orquestra de Jewels, de Balanchine (Foto: Reprodução)

 

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