Escolha seu método!

Você decidiu dançar ou trocar seu método e não sabe por onde começar? Conversei com professoras das três maiores metodologias de ensino, Royal Academy of Dance, Vaganova e Ballet de Cuba, para explicar o que cada um tem de melhor e quais são suas principais características. Vamos lá!

Uma boa forma de se verificar o método é a partir dos arabesques. O Royal tem três, o Vaganova e o cubano, quatro. Enquanto o Royal não leva em consideração a posição do corpo em relação à frente (en ouvert ou croisé), o Vaganova e o cubano usam para identificar o passo. A terceira posição do Royal tem os dois braços colocados à frente, um levemente acima do outro, que o cubano e russo não têm.

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Quarto arabesque cubano e Vaganova, no Royal, é o primeiro arabesque croisé

O Royal publicou um vídeo com guia dos seus arabesques:

 

O duplo ronde de jambe en l’air também pode ser diferente. Enquanto no método inglês as rodinhas são feitas em sequência, antes de esticar a perna ao lado, no método cubano as duas rodinhas são feitas separadamente, porém no tempo de uma. Em vez de fazê-las seguidas, estica-se a perna ao lado rapidamente para depois recolhê-la para o novo ronde.

Vaganova (russo):

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O método Vaganova valoriza muito as extensões dos bailarinos, seja nos braços ou pernas, e também a rapidez nos giros e nos saltos. De acordo com Monise de Rosa, diretora artística da Cia de Dança Ímpeto, as bases para a dança clássica são as mesmas, porém, cada técnica tem um enfoque específico e denominações diferentes.

“O Vaganova tem um programa a ser seguido, ele não apenas dividiu o ensino em diferentes níveis, como conferiu a cada um deles um programa determinado. Esse método dá muita ênfase à busca da estabilidade como um dos elementos estruturais da dança clássica”.

Royal (inglês):

É um dos métodos mais técnicos e progressivos. Dividido em vários níveis, que vão desde a infância até o profissional, o Royal tem como base o amadurecimento do aluno ou aluna em relação à dança, e prioriza a limpeza dos movimentos diante da extensão ou número de giros. A professora Marília Nascimento, do Ballet Marília Nascimento e Mandala Cia de Dança, acredita que o Royal é o método mais lúdico e didático para crianças, em especial o novo formato do curso, remodelado há dois anos.

“Eu acho que o Royal tem capacidade de atingir diversas faixas etárias. A primeira impressão do ballet é muito bem trabalhada no Royal, especialmente nesse novo programa. São elementos diferentes como saias, fitas, chapéus, bengalas nos graus mais novos. E o tutu e danças mais variadas nos vocationals (graus mais avançados). O Royal não forma bailarinos precoces, como o russo. Este é um método mais gradual. Mas a exigência técnica é bastante apurada, sem sobrecarregar as crianças, e promove uma limpeza que é levada adiante para os graus mais avançados”, aponta.

Cubano:

Assim como o Royal, o método cubano é bastante técnico, mas não tão ‘mastigadinho’. A combinação de passos também é mais desafiadora, fugindo  um pouco do padrão seguido tanto pelo Royal quanto pelo Vaganova, e é bem dançado.  Juliana Stagliorio, fisioterapeuta e professora da Escola de Dança Juliana Stagliorio, diz que o ballet cubano é extremamente rígido, mas a matéria também é muito dançante.

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Alicia Alonso foi responsável pelo amadurecimento do ballet cubano (Foto: Reprodução)

“Se a gente for analisar técnica, a metodologia cubana é  extremamente parecida com a Vaganova. Em termos de linhas de passé, de trabalhar na meia ponta o tempo inteiro, no centro, isso tudo é parecido, e não acontece tanto no Royal. Algumas vezes isso me assusta um pouco, colocar meninos e meninas de quarto grau para fazer tantas coisas na meia ponta. Porque aqui temos aulas duas vezes por semana, e não todos os dias como nas academias profissionais. Por isso fazemos todo um trabalho com nossos alunos para prepará-los para a metodologia cubana. Mas, com esse método, o que diferencia é como a técnica é aplicada. Em termos de qualidade não há diferença, apenas em estilo. Acho o cubano mais dançado e ágil: muda a direção com muita frequência, mesmo na barra”, opina Juliana.

E aí, deu pra ajudar? Independentemente do método escolhido, o que vale mesmo é dançar com responsabilidade. Procure uma escola que tenha professores qualificados e sempre respeite os limites do seu corpo!

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Anastasia Kazakova : É muita felicidade dançar no Brasil

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Anastasia Kazakova (Foto: Reprodução)

Bailarina formada pela escola Vaganova, em São Petersburgo, na Rússia, Anastasia Kazakova é uma das vinte solistas que integram a equipe de bailarinos do Ballet da Rússia, que estão fazendo uma turnê pelo Brasil desde abril. Ela, que é solista do Bolshoi, diz que é muito interessante se apresentar em várias cidades de um país grande como o Brasil, e se mostrou especialmente feliz com a resposta do o público, tão calorosa e receptiva.

Como é fazer uma turnê tão extensa como essa aqui no Brasil?

É uma turnê de ballet maravilhosa, e estamos todos muito felizes de estar aqui. Gostamos muito de passar pelas cidades maiores e mais conhecidas, como São Paulo, Rio de Janeiro, e, agora, Salvador. Mas também adoramos passar pelas cidades menores, que se mostraram tão receptivas quanto as grandes. Percebemos que o público gostou muito do espetáculo, e é muito caloroso com a gente.

O espetáculo é feito de divertimentos, ou seja, trechos que repertórios. Quais são mais fáceis de dançar? Qual ballet você gosta mais de dançar?

É mais fácil dançar esses divertimentos porque são trechos de ballets clássicos que a gente já está acostumado a dançar, como O Lago dos Cisnes, a Bela Adormecida, etc, até porque nossa formação, na Rússia, é mais tradicional e prioriza os grandes clássicos.

No segundo ato são peças mais modernas, mais contemporâneas, como Balanchine e Forsythe. São repertórios mais novos, portanto.

Não tenho como escolher um só como preferido! Adoro dançar todos eles, especialmente os clássicos.

O ballet russo tem ganhado mais espaço aqui no Brasil, seja na adoção do método em escolas ou na transmissão ao vivo das apresentações do Bolshoi em cinemas. Na sua opinião, o que diferencia o ballet russo dos demais?

Na verdade, o ballet na própria Rússia tem escolas diferentes. Eu sou formada na Vaganova, em São Petersburgo,  onde a prioridade é a extensão das pernas, dos braços e as linhas. Somos treinados para permanecermos em poses bonitas. O ballet de Moscou já prioriza pernas mais altas, muitas piruetas, explosão e agilidade. Mas mesmo dançando na Rússia a gente tem contato com bailarinos formados em Cuba, nos Estados Unidos, que vêm de técnicas diferentes, então a gente está sempre se aprimorando.

Mas, se eu tivesse que escolher uma formação, seria a Vaganova. É a melhor escola do mundo, a número 1.

Veja galeria de imagens do espetáculo! Fotos de Andrey Lapin e divulgação


O espetáculo Estrelas do Ballet Russo está em cartaz em Salvador nos dias 11 e 12 de maio, no Teatro Castro Alves. Ainda tem ingressos à venda na bilheteria e no site.

Próximas apresentações:

Aracaju:Teatro Atheneu, no dia 13 de maio (sexta-feira)

Teresina: Teatro Teresina Hall, no dia 14 de maio (sábado)

Fortaleza: Teatro Unifor, no dia 15 de maio (domingo) e Riomar, no dia 17 de maio (terça-feira)

Mais informações: http://www.balletdarussia.com/

Invasão russa em forma de workshops

Não é de agora que o ballet russo está dominando o Brasil: a gente encontra produções no cinema e vem chegando uma turnê de peso do Russian State Ballet. Mas não é só isso. Parece que a técnica russa, que parecia um pouco esquecida, voltou com tudo para os centros de ensino. Não por acaso, Boris Storojkov e Natalia Zemtchenkova, dois grandes nomes da escola Vaganova, foram convidados para ministrar um workshop em agosto na Cia de Dança Ímpeto, em São Paulo. Conversamos com a diretora artística da companhia, Monise Rosa, que explica o motivo desse evento – aberto para alunos de fora!

Natalia
Natalia foi solista no Russian Chamber Ballet e deu aulas na Cia de Dança Deborah Colker (Foto: Reprodução)

“Acredito que a troca de experiência e o contato com profissionais consagrados como Boris Storojkov e Natalia será de extrema importância para os bailarinos do Brasil! Terem esta oportunidade é  fazer com que sintam cada vez mais vontade de evoluir no ballet clássico e dentro do método russo Vaganova! Sempre terão um toque…uma boa explicação para os alunos! Pessoas como eles deveriam vir para Brasil com mais frequência! Só tem a acrescentar aos nossos alunos”, disse.

Monise explica que a Ímpeto já utilizava o método Vaganova na escola, mas, para ela, o ballet russo não é tão popular no Brasil, mesmo com os eventos recentes. Para ela, o workshop acaba sendo uma confirmação da escolha da técnica, e serve para que os alunos – e professores também, por que não? – aprendam um pouco mais sobre a história do ballet russo, tão importante para o ballet clássico.

“Aqui na Ímpeto estudamos o método russo por acreditarmos na sua evolução técnica!  Não acho que o ballet russo seja tão popular no Brasil, mas acredito que com a vinda desses profissionais estaremos contribuindo para qualificação do método por aqui e dos alunos num geral. Mas o Ballet está longe de ser uma coisa popular…Ele requer muito estudo, muita dedicação e amor à arte”!

Boris
Boris foi professor de ídolos da dança como Natalia Maharova, Ivan Vassiliev e Elisabeth Platel e em companhias como Cisne Negro e Deborh Colker (Foto: Reprodução)

A gente concorda! Se você está ou mora em São Paulo, vale a pena participar do workshop.

Quando: 3 a 6 de agosto

Onde: Cia de Dança Ímpeto (Rua Barretos, 612, Alto da Mooca – São Paulo (SP)

Telefone: (11) 2021-3487

Site: http://www.ciadedancaimpeto.com.br

Ballet salva-vidas

Thiago se destacou na seletiva do Bolshoi (Foto: Matheus Pirajá)

A voz dele sai tão fininha que é até difícil ouvir. Parece estar com vergonha, ainda não se acostumou com essa coisa de dar entrevista. Diz que não sabe por quê gosta de dançar, apenas gosta. Muito.  E quer continuar fazendo isso pra sempre.

A vida de Thiago Nascimento de Jesus deu um giro de 180º quando o garoto, de 11 anos, foi aprovado para a escola do Ballet Bolshoi, em Joinville (Santa Catarina). A felicidade de conquistar uma bolsa vem com a novidade das entrevistas – Thiago foi o único baiano a passar na seleção na turma iniciante – e da mudança. Cheio de pose, ele diz que já esteve em Joinville, na própria academia do Bolshoi, e gostou do que viu. “É muito, muito grande. E tem várias salas”, disse, esboçando um sorriso.

Assim como aconteceu com Thiago, a dança tem o potencial de mudar e melhorar muitas vidas. De família muito humilde, ele não teria muitas oportunidades de estudar e investir na formação profissional. Ele só conheceu o ballet graças ao projeto de bolsas que sua professora, Juliana Stagliorio, mantém na escola.

“Eu pedi que ele se inscrevesse para a seleção do Bolshoi primeiro porque ele tem o físico muito bom para o método Vaganova, que é longilíneo e exige flexibilidade. Mas o outro motivo foi garantir que ele pudesse sair da comunidade dele como outra coisa que não pedreiro, garçom… Porque a realidade dele era essa”, disse a professora. Fica aqui nosso pedido para donos e donas de academias para também concederem bolsas para alunos que não podem pagar. Vai que você descobre o próximo Marcelo Gomes ou Ana Botafogo?

E a técnica?

Na escola, Juliana ensina o método cubano, conhecido pela agilidade e versatilidade na organização dos passos. O russo, que Thiago vai encarar no Bolshoi, é diferente – e vai exigir mais das extensões que ele tem ao seu favor. Ainda assim, Juliana, que é formada em fisioterapia, não esconde uma pontinha de preocupação no quesito técnica: como ele é muito flexível, não tem ainda muita força nos músculos internos e pode acabar trabalhando o “en dehors” errado, forçando os joelhos e os pés. Isso, aliás, é uma dica que vale pra todo mundo!

“O método Vaganova tem várias semelhanças com o cubano, como passos com bastante rélevés no centro, o que exige um trabalho de equilíbrio e core muito forte e, às vezes, muito cedo. Mas tem a questão da flexibilidade, também. Aqui a gente ensina como tem que trabalhar o en dehors, que não pode forçar muito para não machucar. Lá no Bolshoi eu sei que vão esperar isso dele. E no próprio método cubano, quando o aluno chega nos graus mais avançados espera-se que ele feche a primeira posição a 180º”, lamentou.

Natural

Alguns bailarinos têm a vantagem de, como Thiago, nascerem com o corpo já “preparado” para a dança. Juliana conta que percebeu que ele era diferente logo no primeiro dia, quando ‘escalou’ com as pernas em segunda e virou para o espacate de frente nos dois lados – tudo pelos ligamentos. Sem surpresas, os passos que Thiago mais gosta de fazer até hoje são os que exploram sua extensão, como grandes saltos e grand battements. Ah, ele ele gira super bem também, obrigada! Segundo ele, o mais chato é justamente fazer exercícios que exigem força muscular, como fondues e adagios.

Thiago aguarda com certa ansiedade poder dançar de verdade na academia do Bolshoi. Na última vez que esteve lá, para a segunda parte dos testes de admissão, ele reclamou que “ninguém pediu para eu dançar” e só ficou examinando seu físico. Calma, rapaz! Você vai ter oito anos pra mostrar serviço e, no final das contas, realizar o sonho de se apresentar nos maiores palcos do mundo. Onde? “Ah, qualquer um. Mas quero dançar em Cuba. E na Rússia”, comentou. Tá bem encaminhado!

OBS: A família de Thiago ainda precisa de ajuda para conseguir fazer a mudança. Se você puder contribuir, as doações podem ser feitas aqui: Banco: Caixa Econômica Federal, Agência: 4112, Operação: 013, Conta: 9341-8