Australian Ballet – World Ballet Day

Ensaio do pas de quatre do Lago Dos Cisnes, versão de Graeme Murphy
Ensaio do pas de quatre do Lago Dos Cisnes, versão de Graeme Murphy

Quem abriu os trabalhos do World Ballet Day, mais uma vez, foi o Australian Ballet, que sai na frente por começar o dia mais cedo – literalmente! A aula matinal da companhia foi ministrada pelo maître e repetiteur (profissional responsável por remontar e adaptar os repertórios) Steven Heathcote, que já foi bailarino da casa. Uma coisa que deu pra perceber é que Heathcote gosta muito de um centro prático, que prioriza a limpeza dos movimentos. Já na barra foram três sequências de tendues, no centro exercícios de equilíbrio, com fondue,s transferência de peso e muitas piruetas. Eu sairia arrasada dessa aula.

Logo depois, os apresentadores conversaram com a bailarina Lisa Craig, que além de dançar pela companhia, é blogueira pela Bloch – e você vai saber por quê. Ela falou sobre o que é, para ela, importante numa sapatilha de ponta para que ela fique o mais próximo da perfeição. Ajuda que os bailarinos do Australian recebem sapatilhas da Bloch – uma das marcas mais bem avaliadas do mercado – que são customizadas para atender as necessidades específicas de cada dançarino. Chato, né? Quanto às dicas de Lisa, uma boa ideia é costurar em volta da ponta para ajudar no equilíbrio e, de quebra, reduzir o barulho. Se a sapatilha estiver um pouco folgada, fazendo uma dobra, ela recomenda cortar as laterais e ajustar na agulha.

Uma coisa que me chamou a atenção no Australian é que a companhia está – com o perdão do jargão esportivo – apostando na base. A escola de dança da companhia está passando por ampliações para acomodar mais 37 estudantes de diversos países, como Nova Zelândia, Japão e Estados Unidos, além da própria Austrália. Quem falou isso foi a diretora da escola, Lisa Pavane, enquanto os alunos graduandos se ensaiavam um Extro, um repertório contemporâneo do coreógrafo Timothy Harbour. Muito interessante ver bailarinos ainda em processo de formação já inteirados com o que há de novo no mercado.

Ensaios

O ensaio principal do Australian foi Cinderella – que, confesso, não está entre meus preferidos. Mas a coreografia que eu mais gostei foi, na verdade, uma adaptação. Achei sensacional a montagem de O Lago dos Cisnes de Graeme Murphy, em especial do famoso pas de quatre dos pequenos cisnes (aquele das bailarinas com os braços dados). Essa parte continua igual, mas toda a logística de movimento mudou. Ficou bem diferente, bem divertido de ver, e bem dinâmico. Dançar deve ser muito cansativo! Outra montagem interessante desse repertório eu assisti pelo English National Ballet. Leia mais aqui!

Mas claro que teve coisa boa em Cinderella. Para começar, essa também é uma adaptação: a coreografia é assinada por Alexei Ratmansky. Aqui, a mãe e as madrastas – que em muitas montagens vezes são personagens puramente cômicos e decorativos – são representadas por Amy Harris, Elisa Fryer e Ingrid Gow. E, além das mis-en-scénes, que são só atuação, elas dançam sequências tecnicamente difíceis. Ficaram como uma espécie de solistas, mas sem perder o lado engraçado e malvado. Uma das irmãs é magricela, e a outra é burra – e o solo dela retrata bem essa ‘característica’. E foi depois desse solo que eu vi Eloyse levar uma das ‘puxadas de orelha’ mais inusitadas do maître Tristan Message: “Excelentes giros. Muito bons, mesmo. Provavalmente bons demais pra gente burra”. Melhor ‘correção’ que eu já vi!

Para ver aula e ensaios completos, clique aqui.

Quer mais? Veja nossas resenhas sobre o Bolshoi, Royal Ballet, National Ballet of Canada e San Francisco!

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Bolshoi – World Ballet Day

Extensão é a palavra chave na aula do Bolshoi
Extensão é a palavra-chave na aula do Bolshoi

O Bolshoi é uma das companhias de dança mais tradicionais do mundo, e uma das mais exclusivas também. Por isso que sua participação no World Ballet Day – ou qualquer streaming – é aguardado com bastante ansiedade. Por mim, pelo menos. Nessa edição, quem nos leva às salas de aula e nos diz tudo sobre o teatro, a academia e os bailarinos é Katerina Novikova, relações-públicas do Bolshoi. Como não há legendas, ela fala em russo e em inglês – o sotaque é forte, mas dá para entender!

Tudo bem que a gente perde bastante coisa não sabendo o que o professor Boris Borisovich fala com os alunos. Tirando dos nomes dos passos, não dá para entender nada. Mas dá para perceber que, nesta aula, as extensões são muito trabalhadas. E isso diz muito sobre o estilo russo de dançar, que valoriza bastante as linhas e os braços dos bailarinos. Outra coisa que dá para observar é o rigor físico: todas as mulheres são extremamente magras e a maioria é alta. Os dançarinos também forçam o en dehors ao máximo, ultrapassando a linha dos 180º da primeira posição. Muitos professores e fisioterapeutas são contra, dizendo que isso faz mal para os ligamentos e para o joelho. Mas, em se tratando do Bolshoi… é tradição.

Também rola um contorcionismo agudo durante a aula, especialmente durante adagios. As pernas sobem até você achar que a pessoa vai se rasgar no meio, daí sobe mais um pouquinho, sustenta e só depois desce. (Acho desnecessário! 😛 ) Diferentemente das outras companhias, o Bolshoi mostrou mais aulas durante a transmissão, o que reforçou a ideia de realmente ‘passarmos o dia’ lá.

Ensaios

O primeiro repertório que vemos é um assinado por Alexei Ratmanski, um dos principais coreógrafos de ballet clássico nos dias de hoje. O nome da peça não foi mencionado no vídeo, mas dei uma pesquisada e acho se tratar de Jardi tankat, uma produção com músicas folks espanholas. A musicalidade é beeeem difícil, e os passos são muito fluidos, sem aquele rigor do clássico tradicional que estamos acostumados. Particularmente não sou muito fã de ballets com música cantada, mas essa coreografia certamente chama atenção.

Para mim, a melhor parte foi a passagem de O Lago dos Cisnes no palco. Apenas amo aquelas cena clichês, de visão dos bastidores, entra e sai de bailarinos no palco, a música da orquestra… Me julguem! É uma passagem mais de espaço, por isso não existem aquelas correções de interpretação, tempo, colocação de pernas e braços, etc. É um ensaio muito mais ágil, mas igualmente importante – e lindo!

Mas o Bolshoi mostrou que também está apostando em produções contemporâneas. Radu Poklitaru, que coreografou Hamlet para a companhia, falou que, nessa obra, atuar é tão importante quanto dançar. E, por isso, escolheu para a peça bailarinos que tivessem uma carga dramatúrgica maior. Para se ter uma ideia, o Hamlet original, Denis Savin, foi escolhido porque emocionou como Romeu. E como é tudo Shakespeare, né… Tá em casa! Poklitaru falou que o processo  dele é diferente dos colegas que chegam para o ensaio com tudo já preparado. “Eu só crio em sala. Ouço a música, olho os bailarinos no olho e dentro de mim mesmo, ouço a música como se fosse a primeira vez e aí arrisco uns movimentos meio estranhos, que depois se transforma na estrutura do ballet”.

Os depoimentos dos professores e maîtres do Bolshoi são, realmente, inigualáveis. Muitos viram de perto verdadeiras lendas do ballet russo dançarem nos anos 1940 e 1950, quando o Bolshoi e o Mariinsky não tinham competição. No finalzinho, temos um vídeo com uma compilação de ensaios e apresentações – e podemos ver, ainda que de relance, grandes estrelas da companhia, como Svetlana Zakharova, Evgenia Obrastova e Maria Kotchetkova, que hoje está no San Francisco 🙂

Para ver a aula e ensaios completos, clique aqui.

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San Francisco Ballet – World Ballet Day

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Bailarinos em aula

Músicas ao piano, sala ampla, clara e cheia de bailarinos, talvez uma das salas mais cheias desse World Ballet Day 2015. Tivemos a honra de acompanhar a aula e ensaios em tempo real do San Francisco Ballet no dia 1º de outubro, quando outras quatro companhias abriram suas portas e deixaram os fãs da dança um pouco mais perto da rotina de seus ballets preferidos. Vamos então a um pouco sobre como foi esse dia para a companhia.

Sobre a aula:

A aula foi ministrada por Felipe Diaz, mestre de ballet da companhia desde 2013. Ele já foi solista do San Francisco Ballet, English National Ballet e Dutch National Ballet. Já de início começamos a acompanhar a aula através das piruetas no centro (não tivemos a transmissão ou vídeo posterior da barra, infelizmente!). Podemos ver que a maioria das bailarinas estão de ponta, já com intuito de aquecimento para seus ensaio pós-aula e aperfeiçoar a técnica de pontas (balances, posés, piruetas, etc.)

É possível perceber que os passos são até sequências simples, mesmo que no nível avançado, mas nada de impossível. A companhia capricha em limpeza técnica, amplitude de movimento, mais giros e mais equilíbrio. Ela consiste basicamente na manutenção da técnica que o bailarino já possui, com algumas correções de tempo, estilo ou exigência física do próprio mestre.

Helgi Tomasson, diretor artístico e principal coreógrafo da companhia, conta que o San Fran é constituído não só de bailarinos americanos, mas também de diferentes nações como Japão, China, Austrália, Cuba, Brasil :-), Argentina, dentre outros mais, possibilitando um intercâmbio cultural entre os bailarinos. Vale ressaltar que um dos primeiros bailarinos é brasileiro: Vitor Luiz.

Sobre os ensaios:

Tivemos início com o tradicional ballet “Giselle”, com música composta por Adolphe Adam e adaptação da coreografia original de Petipa pelo próprio Helgi Tomasson. Temos aí o segundo ato desse ballet, com uma atmosfera mais austera, o oposto do primeiro ato, que é bastante alegre. O corpo de baile, apesar de aparecer bem pouco nesse ensaio, se mostrou muito sincronizado com braços e respiração iguais. Sou um grande suspeito para falar pois AMOOO esse ballet e sou particularmente apaixonado pelo segundo ato, que sempre me emociona. Futuramente terei a oportunidade de comentar mais sobre meu amor incurável por essa obra!!

O ensaio de “The Fifth Season” apresenta nuances interessantes entre as duas partes apresentadas: a primeira mais leve e romântica e a segunda um tango mais forte e preciso com quatro bailarinos. Destaque para a Mathilde Froustey, ex-solista do Ópera de Paris e destaque como atual primeira bailarina da companhia. “Rush” possui um quase total destaque para a bailarina, enquanto seu partner serve mais como seu suporte, valorizando-a muito bem. Durante os intervalos dos ensaios, os bailarinos vão respondendo a perguntas encaminhadas pela audiência, como “quando o bailarino foi levado a ver o ballet como algo sério” e “as lições mais importantes que aprenderam em suas carreiras”.

“Theme and Variations” é uma coreografia precisa de um jeito que somente Balanchine poderia ter criado. Ao som da música de Tchaikovsky, os bailarinos, em muita harmonia, excutam as sequências desse ballet. Talvez a principal característica dos enredos de Balanchine seja a grande participação do corpo de baile na obra como um todo. Esse é o aspecto que eu mais gosto dos ballets criados por ele.

O coreógrafo Liam Scarlett foi destaque nessa transmissão, apresentando dois de seus trabalhos. Primeiro vimos “Hummingbird”, em tradução literal “beija-flor”, um pas de deux tecnicamente mais difícil e ainda sim belo de se ver com bailarinos em quase perfeita harmonia. Depois ainda acompanhamos “Fearful Symmetries” (este que irá para a temporada 2016 da companhia), uma obra mais contemporânea e de ritmo complexo, exigindo bastante dos bailarinos que a executam. Liam ainda falou um pouco sobre seu novo trabalho, “Frankstein”, feito em conjunto com o San Francisco Ballet e o Royal Ballet. Esperaremos ansiosos por noticias desses novos trabalhos.

Ao final da transmissão, pudemos acompanhar  ainda um pouco da rotina do Houston Ballet, com ensaios, aulas da companhia e da escola do ballet. Em seguida acompanhamos a parte do centro do Pacific Nortwest Ballet, com direito a algumas legendas em inglês com curiosidades e informações sobre a companhia e seus membros.

Para ver a aula e ensaios completos, clique aqui.

Quer mais? Leia nossas resenhas do Australian Ballet, Royal, Bolshoi e National Ballet of Canada!

World Ballet Day 2015: o que teve?

Corpo de baile do Royal Ballet em aula
Corpo de baile, solistas e bailarinos principais do Royal Ballet em aula

No dia 1º de outubro aconteceu a segunda edição do World Ballet Day – a primeira foi no mesmo dia, no ano passado – e contou com streaming ao vivo de cinco companhias que são referência no mundo do ballet: Australian Ballet, da Austrália; Bolshoi, da Rússia, Royal Ballet, do Reino Unido; National Ballet of Canada, no Canadá; e San Francisco Ballet, nos Estados Unidos.

Assim como em 2014, teve aula, teve ensaio e teve pré-produção de alguns espetáculos. Teve também participação de companhias convidadas, como Czech National Ballet, Northern Ballet e o Houston Ballet. Ou seja, foi um dia inteiro de muita, muita, muuuuita dança!

O World Ballet Day não foi a primeira vez que as companhias abriram as portas de suas salas: em 2012, o próprio Royal já tinha disponibilizado transmissão ao vivo para aulas e ensaios;  o Pacific Northwestern também fez streaming de aulas neste ano e outros ballets, como o Houston, também apostaram nessa experiência. O retorno do público foi imediato.

Por que assistir é tão bom?

Normalmente, só temos acesso ao produto final dessas grandes companhias, que são as apresentações. Até então, amantes da dança não tinham como assistir ao dia-a-dia dos bailarinos, aos ensaios, aulas, ver as correções dos professores… Enfim, participar do processo de preparação dos espetáculos, desde o plié até o allegro.

Para quem dança, assistir as aulas também é uma forma de criar empatia com os bailarinos. É bom ver que eles, também, erram, caem, esquecem a coreografia e têm coisas que precisam melhorar. A única diferença é que eles erram, caem e esquecem menos! 😀

Fizemos resenhas de cada uma das companhias. Clique e confira!

Australian BalletBolshoi, Royal Ballet, National Ballet of Canada e San Francisco