10 verdades sobre ser bailarino profissional

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Suzanne Way, diretora do Professional Ballet Coaching moldando futuras bailarinas (Foto: PBC / Reprodução)

Esse post é mais uma inspiração para quem já quis ser profissional e não levou adiante (meu caso), quem está se esforçando e trabalhando para conseguir ou quem simplesmente gosta de dançar e quer sempre melhorar no que faz, ainda que seja por lazer (meu caso de novo!). Reunimos aqui 10 ‘verdades’ que Melanie Doskocil, ex-bailarina e atual professora do Aspen Santa Fe Ballet, disse sobre a profissão:

1. Dançar é difícil. Nenhum bailarino foi bem sucedido apenas se baseando no talento nato. Dançarinos são artistas e atletas. O mundo da dança hoje se equipara ao de esportes extremos. Talento e habilidade natural só vão te levar até certo ponto. Bailarinos precisam trabalhar duro e perseverar. Dançarinos dão anos de suas vidas, mais o suor, lágrimas e, às vezes, sangue para ter a honra de se apresentarem no palco.

2. Você nem sempre vai conseguir o que quer. Nós nem sempre conseguimos o papel que queríamos, dançamos na ponta quando queremos, recebemos os trabalhos que queremos, ouvimos os elogios que queremos, ganhamos o dinheiro que queremos, ver as companhias administradas do jeito que queremos, etc, etc. Isso nos ensina humildade e respeito pelo processo, pela arte e os mestres que escolhemos para nos ensinar. Quanto mais rápido você aceitar, mais rápido você vai poder se dedicar a ser brilhante. A gente nunca vai ter 100% de certeza que vai dar certo, mas a gente pode ter 100% de certeza que fazer nada não vai dar certo

3. Tem muita coisa que você não sabe. Um bailarino sempre tem o que aprender. Mesmo os professores, coreógrafos e diretores que menos gostamos podem nos ensinar algo. No minuto em que achamos que sabemos tudo deixamos de ser um bem valioso.

4. Pode não ter um amanhã. Um bailarino nunca sabe quando sua carreira pode desaparecer de repente: o fim de uma companhia, lesão que termina a carreira, acidentes, morte… Dance todos os dias como se fosse sua última performance. Coloque paixão mesmo nos exercícios em sala!

5. Há muito o que você não pode controlar. Você não controla quem te contrata, quem te demite, quem gosta do seu trabalho e quem não gosta, as políticas de estar numa companhia. Não gaste seu tempo e energia se preocupando com coisas que você não pode mudar. Foque em honrar sua arte, e ser o melhor dançarino que você puder. Mantenha a mente aberta e uma atitude positiva.

 

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6. Informação não quer dizer conhecimento. Conhecimento vem de experiência. Você pode discutir uma tarefa cem vezes e ir a mil aulas, mas a não ser que você realmente vá lá e se apresente, você só terá o entendimento filosófico da dança. Encontre oportunidades de ir ao palco. Você precisa experimentar um espetáculo para se considerar um bailarino.

 

7. Se você quer ser bem-sucedido, prove que é valioso. O jeito mais fácil de sair de um trabalho é provar para seu patrão ou patroa que não precisam de você. Em vez disso, seja indispensável. Chegue cedo, memorize seu trabalho, esteja preparado, guarde suas opiniões para si – a não ser que a tenham pedido. Acima de tudo, trabalhe duro.

8. Haverá sempre alguém mais ou melhor que você. Seja trabalho, dinheiro, papel ou troféu, não importa. Em vez de se deixar envolver pelo drama do que os outros estão fazendo ao seu redor, foque nas coisas em que você é bom as coisas que você precisa melhorar, e as coisas que fazem você um dançarino mais feliz.

9. Às vezes você vai falhar. Às vezes, apesar de todo o seu esforço, seguir os melhores conselhos, estar no lugar certo no lugar certo na hora certa, você ainda vai falhar. Falhar é uma parte da vida. Falhar pode ser imprescindível para nossos maiores crescimentos e experiências de vida. Se a gente nunca falhar, a gente nunca vai valorizar nosso sucesso. Esteja aberto para a possibilidade de falhar. E quando acontecer com você (porque vai acontecer) abrace a lição que vem junto.

10. Você nunca vai se sentir 100% pronto. Ninguém nunca se sente 100% seguro quando aparece uma oportunidade. Bailarinos devem estar abertos a se arriscarem. De soltar da barra para o balance, a viajar o mundo com uma companhia nova, a confiar um novo partner a encontrar uma forma nova de dançar, dançarinos têm que ser flexíveis na mente tanto quanto no corpo. As maiores oportunidades das nossas vidas nos forçam a crescer além da nossa zona de conforto, o que significa dizer que você não se sentirá totalmente confortável ou pronto para elas.

Essa listinha foi adaptada de um texto publicado pela própria professora em seu blog, Ballet Pages. No original, são 15 ‘verdades’, mas selecionei apenas as 10 com as quais me identifiquei mais! O link para o original, em inglês, está aqui.

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Um presente agregador!

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Grupo Experimental de Jazz em cena (Foto: Arquivo pessoal)

A gente já tinha conversado aqui com o diretor do Grupo Experimental de Jazz, Victor Hugo, sobre as dificuldades de se manter uma companhia de dança no Brasil. E são muitas: desde o público, que não enxerga uma atividade cultural como lazer, ao custo enorme de organizar apresentações sem qualquer tipo de patrocínio.

Pois bem: nesta semana foi o aniversário dele (parabéns!!!), e, como todo aniversariante, Victor Hugo pediu um presentinho. Só que em vez de roupas, acessórios ou um jantarzinho à luz de velas, o presente que ele pediu não foi só pra ele. Foi um pedido de ajuda para custear o novo espetáculo do grupo.

Ficamos muito tocados com essa iniciativa, e resolvemos divulgar a mensagem que ele mandou aos amigos do Facebook. Esperamos que Victor Hugo receba MUITOS presentes, e que ele continue a nos presentear com a dança 🙂

“Pois é, como o Facebook cumpre muito bem o papel de avisar datas de aniversário, todos os meus amigos do Face sabem que o meu está chegando. Esse ano eu não quero presentes específicos, quero pedir aos meus amigos, ou às pessoas que admiram meu trabalho, ou às que simplesmente acreditam na arte para ajudar na arrecadação de verba para a produção do novo espetáculo do Grupo Experimental de Jazz. Então peço a todos como forma de presente que doem o que puderem!”

O link para a Vakinha está aqui, e quem quiser saber um pouquinho mais da companhia dele pode assistir aqui:

Invasão russa em forma de workshops

Não é de agora que o ballet russo está dominando o Brasil: a gente encontra produções no cinema e vem chegando uma turnê de peso do Russian State Ballet. Mas não é só isso. Parece que a técnica russa, que parecia um pouco esquecida, voltou com tudo para os centros de ensino. Não por acaso, Boris Storojkov e Natalia Zemtchenkova, dois grandes nomes da escola Vaganova, foram convidados para ministrar um workshop em agosto na Cia de Dança Ímpeto, em São Paulo. Conversamos com a diretora artística da companhia, Monise Rosa, que explica o motivo desse evento – aberto para alunos de fora!

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Natalia foi solista no Russian Chamber Ballet e deu aulas na Cia de Dança Deborah Colker (Foto: Reprodução)

“Acredito que a troca de experiência e o contato com profissionais consagrados como Boris Storojkov e Natalia será de extrema importância para os bailarinos do Brasil! Terem esta oportunidade é  fazer com que sintam cada vez mais vontade de evoluir no ballet clássico e dentro do método russo Vaganova! Sempre terão um toque…uma boa explicação para os alunos! Pessoas como eles deveriam vir para Brasil com mais frequência! Só tem a acrescentar aos nossos alunos”, disse.

Monise explica que a Ímpeto já utilizava o método Vaganova na escola, mas, para ela, o ballet russo não é tão popular no Brasil, mesmo com os eventos recentes. Para ela, o workshop acaba sendo uma confirmação da escolha da técnica, e serve para que os alunos – e professores também, por que não? – aprendam um pouco mais sobre a história do ballet russo, tão importante para o ballet clássico.

“Aqui na Ímpeto estudamos o método russo por acreditarmos na sua evolução técnica!  Não acho que o ballet russo seja tão popular no Brasil, mas acredito que com a vinda desses profissionais estaremos contribuindo para qualificação do método por aqui e dos alunos num geral. Mas o Ballet está longe de ser uma coisa popular…Ele requer muito estudo, muita dedicação e amor à arte”!

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Boris foi professor de ídolos da dança como Natalia Maharova, Ivan Vassiliev e Elisabeth Platel e em companhias como Cisne Negro e Deborh Colker (Foto: Reprodução)

A gente concorda! Se você está ou mora em São Paulo, vale a pena participar do workshop.

Quando: 3 a 6 de agosto

Onde: Cia de Dança Ímpeto (Rua Barretos, 612, Alto da Mooca – São Paulo (SP)

Telefone: (11) 2021-3487

Site: http://www.ciadedancaimpeto.com.br

Sara Mearns: Por quê amo o ballet

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Sara Mearns em ensaio ao site The Every Girl. Foto: Erin Kestenbaum

Uma das bailarinas mais expressivas e vibrantes de sua geração, a americana Sara Mearns, que é principal do New York City Ballet, listou suas razões para amar o ballet clássico — e nós reproduzimos aqui*!

1. Você descobre algo novo sobre si mesmo todo dia. Seja bom ou ruim, uma força ou uma fraqueza, algo físico ou emocional, você vai acabar ficando mais forte.

2. Você fica extremamente em forma!

3. Quando você está no palco, pode criar um mundo de fantasia só seu.

4. Você pode brilhar e cintilar da cabeça aos pés — dos adereços do cabelo à maquiagem, fantasia e sapatilhas.

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Sara Mearns em Dances at a Gathering. Foto: Paul Kolnik

5. O ballet me fez perceber que você não pode ser perfeito. Perfeição não existe, e por que você ia querer? Perfeição é chata e não deixa espaço para crescimento ou busca por lugares mais altos.

6. Como uma bailarina, você pode dançar com as mais lindas e incríveis músicas —do tipo que deixa você com frio na barriga.

8. You get to meet interesting people from all around the world. These people are creating something brand-new—and they could be creating it on you.7. Criar uma parceria com alguém e um dos mais sagrados e pessoais aspectos de ser um bailarino. Você entende o que ‘confiança’ realmente significa.

9. Você pode viajar o mundo e se apresentar em lugares maravilhosos, desde is teatros mais antigos da França até os palcos ao ar livre em ruínas da Itália.

10. A razão mais importante pela qual eu amo o ballet é a oportunidade que eu tenho em ser uma mentora positiva para a geração mais nova. Eu consigo inspirar dançarinos jovens a seguir suas paixões e permitir que a arte da dança continue.

 

Quer saber mais sobre Sara Mearns? Visite o site oficial dela clicando aqui 🙂

*A postagem original dessa lista foi na revista americana Dance Spirit

Priscilla Yokoi: “A Gala Clássica já é prioridade na minha vida”

Priscilla Yokoi. Foto: Felipe Lessa
Priscilla Yokoi. Foto: Felipe Lessa (Evidence Ballet)

Mãe da pequena Manuela (prestes a completar um aninho!), professora de dança, palestrante e bailarina da Cia Brasileira de Danças Clássicas, Priscilla Yokoi experimenta, agora, o posto de empreendedora da dança no país. Ela está à frente da Gala Clássica Internacional, projeto que existe desde 2012 com o objetivo de revelar talentos e fomentar a prática da dança Brasil afora. De volta aos palcos aos 32 anos, após um período  mais voltado para outros projetos e para a família, Priscilla conta um pouquinho da sua trajetória profissional, seus maiores desafios e, claro, adianta o que vem pela frente.

Como surgiu a ideia da Gala Clássica Internacional? Quais são os objetivos do projeto?

A Gala Clássica é um projeto sócio-cultural onde a gente faz um intercâmbio entre bailarinos e estudantes brasileiros e bailarinos e estudantes internacionais, professores também internacionais. Essa ideia surgiu por eu ir para muitos festivais de danças e companhias no exterior e ver como o ballet faz parte da cultura desses lugares. É um incentivo para a cultura do nosso país. Eu proporciono esse evento totalmente gratuito para os participantes: eles não pagam taxa de inscrição, não pagam para dançar… Eles fazem audição para a escola do Bolshoi e seletiva para um dos melhores concursos do mundo, que é o YAGP. E é tudo gratuito, eles não pagam nada. Por isso é um projeto sócio-cultural.

Tem como adiantar o que vem por aí?

A seletiva já foi e os resultados já saíram. São 150 participantes, e eles terão três dias intensos de workshops e ensaios. Esses ensaios são para um ballet de 15 minutos onde todos os participantes vão dançar e ele será montado dentro desses três dias. E no quarto dia será a grande gala no Theatro Municipal de São Paulo, onde esses bailarinos vão dançar, onde os solistas também vão dançar e onde os bailarinos internacionais também vão fazer esse intercâmbio com os estudantes. O que eu posso adiantar é isso!

Priscilla e Manu! Foto: Evidence Ballet
Priscilla e Manu! Foto: Evidence Ballet

Você é uma das bailarinas mais promissoras da sua geração. Como foi que você chegou à dança?

Eu iniciei meus estudos de ballet clássico com dois anos, minha irmã fazia ballet, e desde os meus dois aninhos eu me encantei pela música clássica, pelos passos, pela leveza da dança… Foi aí que eu comecei com a dança, foi um desejo meu de ser uma bailarina. E obrigada por me colocar como uma das bailarinas mais promissoras da minha geração! Eu agradeço.

Como e quando você decidiu ser profissional? E quais foram os seus maiores desafios?

Desde que eu comecei a dançar meu desejo era ser bailarina, então desde pequena eu sempre quis isso, sempre corri atrás para que esse desejo se tornasse realidade. E os meus maiores desafios… Ah, foram vários! O meu primeiro grande desafio foi ir ao (Prix de) Lausanne, na Suíça, sozinha, com 15 anos, sem saber falar qualquer outra língua, falando só português (nesta competição, Priscilla foi finalista, ficando entre as dez melhores bailarinas estudantis do mundo). Foi o meu primeiro desafio. Os outros vão surgindo no dia a dia, porque as dificuldades sempre aparecem. A gente tem que enfrentar um gigante todos os dias!

Quais são seus projetos futuros?

A Gala, que está se tornando uma prioridade na minha vida. Acabando essa eu já começo a do ano que vem. Na verdade, eu já comecei a do ano que vem! Dei agora uma pausa só para poder realizar a desse ano. Voltei a dançar, tem algumas coisas que eu não posso falar ainda… Mas o que posso adiantar é sobre a Gala. O ano que vem vai ser ainda melhor do que esse ano!

E, mais importante: quando veremos a Manu de bailarina?

Ah, não sei (risos)! Vou colocar a Manu no ballet, com certeza, porque eu sei que o ballet traz disciplina, postura, bom comportamento… O ballet para a criança tem muitas qualidades. Na verdade, o ballet para qualquer idade tem muitas qualidades. Mas eu, Priscilla, não gostaria que ela se tornasse uma bailarina profissional. Mas isso vai depender dela, se ela quiser eu vou incentivar, claro. Mas só se ela quiser e tiver condições. Eu sou muito exigente comigo e com a Manu acho que vou ser muito mais. É uma coisa delicada, então… Só se ela quiser muito, de todo coração, de toda alma, será uma bailarina.

Veja aqui Priscilla dançando a variação feminina em Harlequinade!

 

 

Um mês inspirado

Um mês de blog, gente! Sensação meio esquisita pra nós que escrevemos, porque ao mesmo tempo que parece que fazemos isso desde sempre, ainda não caiu a ficha que já se passaram 30 dias desde que lançamos o Oito Tempos.

Claro que o amor à dança é nossa força-motriz principal, mas queremos fazer a diferença e, além de falar sobre passos, produções, bailarinos e novidades, queremos inspirar.

E inspiração é a palavra que melhor define essa carta que a bailarina Lia Cirio, do Boston Ballet, escreveu para a “Lia adolescente”, dando conselhos para ela mesma na época em que estava cheia de inseguranças e decidindo se seguia como bailarina profissional. Achou estranho? Confie na gente, vale a pena! Eis o texto aí embaixo, traduzido.

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A bailarina Lia Cirio. Foto: Reprodução/ Boston Globe

Querida Lia,

Tem tantas coisas que eu quero compartilhar com você! Você vai passar por muita cosa na sua carreira – fisicamente, mentalmente, emocionalmente e pessoalmente. Mas saiba que, através de tudo isso, você vai manter sua paixão por ballet e sua alegria de viver.

Eu sei que você se preocupa sobre ter amigos. Você pode se sentir como um peixe fora d’água agora, mas amigos virão – e eles serão os que contam. Amigos de verdade são aqueles que valorizam você tanto quanto você os valoriza. E tome conta daquele seu irmãozinho, Jeffrey! Ele não só vai se tornar um dos seus melhores amigos,  como também uma grande fonte de inspiração na sua carreira.

Haverá dias em que você vai questionar se sacrificar uma vida normal de adolescente vale a pena – ou se é uma perda de tempo. Mas acredite em mim: Vale a pena! Você vai descobrir tanta alegria no palco, e você vai guardar com carinho esses incríveis, indescritíveis momentos para sempre.

Saiba que haverá vezes em que você não será escalada por causa da sua aparência ou porque alguém não gosta do seu jeito de dançar. Não gaste sua energia pensando em como você poderia mudar. Seja você mesma. Deus te fez especial.

Continue trabalhando na sua técnica, e nunca se compare com os outros. Apegue-se em sua confiança – é tão fácil deixar que ela escorregue de você. Confie em sua técnica e na sua paixão, mas lembre-se de observar, aprender e nunca ficar satisfeita. Nós não podemos ser perfeitos, mas podemos sempre buscar a perfeição.

Lia, viva sua vida plenamente. Ballet é seu sonho, e é um privilégio tão grande poder dançar. Abrace cada momento!

Com amor,

Lia

P.S.: Ouça sua mãe! Guarde no coração quando ela diz que você pode fazer qualquer coisa quando você se esforça. Você é mais forte e mais esperta do que imagina!”

 

Obrigada pelas palavras, Lia! E muuuito obrigada a você que lê a gente 🙂

A carta original, em inglês, você confere aqui! E se quiser saber mais sobre ela, vale ver esse vídeo do Boston Ballet!

Ed Cruz: “O Balé Folclórico da Bahia abriu minha cabeça”

Foto: arquivo pessoal
Ed é formado em ballet clássico, contemporâneo e afro

Talvez por ter nascido em Salvador, na Bahia, o bailarino Ednei Cruz tem formação bem eclética: seu currículo soma ballet clássico, contemporâneo e afro. Aos 23 anos, Ed se despede do Balé Folclórico da Bahia (BFB) para realizar o sonho de dançar fora do país: em janeiro, ele ingressa na Alvin Ailey American Dance Theater, em Nova York, nos Estados Unidos, e vai se tornar mais um dançarino brasileiro a tentar reconhecimento em companhias internacionais. Apesar de ter estudado apenas no Brasil, Ed se apresentou em vários palcos do mundo pelo BFB, e sabe bem o que é um teatro cheio. Além disso, ele diz que a companhia dá um ‘empurrãozinho’ para que os bailarinos da casa saiam do ninho – e isso, somado a fatores sociais e profissionais, fez com que o bailarino remodelasse sua visão do balé folclórico e da própria dança. Confira abaixo a entrevista completa!

Você tem uma formação muito ampla: ballet clássico, contemporâneo e afro. Com qual se identifica mais?

Antigamente eu me encontrava mais no clássico. Mas hoje, no moderno e no afro eu me sinto mais livre para fazer o que eu quero. Dá para colocar mais sentimento, mais expressão no movimento, sem se preocupar tanto com a técnica.

O Balé Folclórico resolveu ‘esticar’ o final de temporada em Salvador, que inicialmente tinha sido em 4 de setembro. Curiosamente, a procura por ingressos na cidade da companhia nunca foi muito forte. Isso mudou?

Depois desse dia 4 de setembro, quando terminamos inicialmente a temporada no Teatro Castro Alves, ficamos muito surpresos com a venda de ingressos, foi muita gente diferente do público que sempre ia. Normalmente iam bailarinos amigos nossos, gente do meio da dança daqui da Bahia que gostava e ia prestigiar. Agora, pessoas que entendem do afro passaram a assistir também, gente que vive a cultura. Antes não tínhamos muito público, o baiano não queria nos ver dançar. E isso está mudando. Por isso que esses dois dias extras foram colocados. Muita gente tentou ir na primeira data e não conseguiu. Foi uma surpresa maravilhosa.

Foto: Balé Folclórico da Bahia
“Herança Sagrada, a Corte de Oxalá”, do BFB

Tem algum repertório ou montagem que gostaria de dançar?

Tem, sim. Revelations, que é do repertório do próprio Alvin Ailey. Ganhei uma bolsa de estudos pra dançar lá em janeiro e espero que esse repertório esteja incluído, porque sou apaixonado por ele.

E como você conseguiu entrar na Alvin Ailey?

Primeiro eu mandei um vídeo e consegui bolsa para o curso de verão (que aconteceu em julho). Normalmente, para entrar na companhia, tem que fazer audição, mas, como eu fiz o curso, ganhei a bolsa. Era até para eu ter ido em setembro, mas, por conta dos custos, eu consegui adiar para janeiro do ano que vem.

Você sempre quis ir para o exterior?

Dançar fora do país sempre foi um desejo meu. Quando entrei no Balé Folclórico foi para isso. Eu sinto até vergonha em dizer, mas eu não conhecia a companhia, só fiz audição porque sabia que o Balé fazia turnês internacionais. E, por sorte, eles têm esse foco de formar bailarinos pra fora. Quando entrei eu tinha uma mentalidade totalmente diferente. Eu tirei muita coisa boa na questão artística e pessoal. Coisas como a forma de você se vestir, como se portar, o jeito de falar com os bailarinos, com as pessoas… Abriu minha cabeça. Isso é maravilhoso.

Tem algo que você acha que dê certo para todos os tipos de dança?

Indiscutivelmente, o ballet clássico. Para conseguir fazer os passos com facilidade o clássico é indispensável, porque é a base de tudo. Antes de eu chegar no Balé Folclórico eu era só clássico, e lá é tudo diferente. A movimentação é diferente, a respiração é diferente, o sentimento… Não acho que exista alguma coisa que dê certo em todas as danças, porque cada uma é muito diferente da outra. O clássico tem o rigor da técnica, o afro é mais condicionamento e explosão, o contemporâneo é uma movimentação mais fluida…

Qual é a sua maior inspiração?

Desmond Richardson, da Complexions Contemporary Ballet – e ex-bailarino da Alvin Ailey. Logo que comecei a dançar eu pensei ‘eu quero ser igual a esse cara’, sabe? Então eu fui em frente, fiz audições e comecei a dançar profissionalmente. Fui crescendo até chegar onde cheguei.

  • O Balé Folclórico da Bahia encerra nos dias 24 e 25 de outubro a temporada de “Herança Sagrada: a corte de Oxalá”, no Teatro Castro Alves (Salvador). Os ingressos estão esgotados!