O que você não sabe sobre Darcey Bussell

Darcey Bussell é uma das minhas bailarinas preferidas: poucas dançarinas tiveram ou têm a mesma presença de palco, intensidade e a meticulosidade com os passos, a limpeza dos movimentos e delicadeza que ela sempre, sempre, sempre apresentou nos palcos. Fora que ela é de uma simpatia contagiante!

Por isso fiquei tão encantada com esse vídeo abaixo, em que Darcey fala sobre sua trajetória no ballet clássico e no Royal Ballet, única companhia em que dançou em toda sua carreira. Ela, que de longe não faz o esteriótipo da bailarina inglesa, conta que precisou insistir muito para que sua mãe deixasse que ela investisse na dança. E que penou para conseguir acompanhar as colegas quando ingressou na academia preparatória. Tá aí uma coisa que eu não consigo imaginar…

Darcey Bussell se aposenta
Darcey em sua última apresentação, dançando Song of the Earth (Foto: Jonathan Lodge)

Ela também fala de como era complicado, na época, para bailarinos e bailarinas conseguirem contratos. Especialmente no Reino Unido, em que o cenário cultural não era como é hoje. Na época existiam apenas duas companhias, ambas braços do que hoje conhecemos como o Royal Ballet. Quantos bailarinos brilhantes ficaram sem trabalhar? Tipo da coisa que faz a gente pensar…

Uma das minhas partes preferidas é quando ela fala sobre Sir Frederick Ashton, responsável por coreografar ballets como Cinderella, Ondine, La Fille Mal Gardée e Sylvia – um dos repertórios que consagrou Darcey – e como ele influenciou sua carreira e sua formação como bailarina profissional desde os primeiros anos.

Além da narração da bailarina, a entrevista tem também fotos e vídeos marcantes da sua carreira. É bem curtinho e vale a pena – se você não entender inglês muito bem, já vale pelas imagens 😉

 

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Perfil: Anna Pavlova

Essa bailarina russa do século XIX ainda é, nos dias de hoje, uma das maiores referências ao ballet clássico. Anna Pavlova revolucionou o jeito de dançar nas pontas e consagrar a Rússia como ‘berço’ da dança, ao se tornar uma verdadeira celebridade. Uma das suas representações mais famosas foi A Morte do Cisne – repertório criado especialmente para ela e que foi apresentado pela primeira vez em 1905 – e Aurora, em A Bela Adormecida, seu repertório preferido.

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Anna Pavlova como cisne branco, papel que a consagrou (Foto: Reprodução)

Anna Matveievna Pavlova nasceu em São Petersburgo em 12 de fevereiro de 1881, numa família humilde. Nunca conheceu seu pai: quem cuidou de sua formação e educação foi sua mãe, Lyubov Fedorovna, que ganhava a vida lavando roupas. Lyubov foi a responsável pelo primeiro contato de Anna com a dança: levou-a ao Teatro Mariinsky em seu aniversário de oito anos para assistir A Bela Adormecida.

Fascinada, Anna resolveu se matricular na  Escola Imperial de Ballet de São Petersburgo, mas só conseguiu ser admitida dois anos depois, em 1891, quando completou dez anos. Com 18 anos estava formada na escola e entrou para o corpo de baile do Ballet Imperial Russo em 1899. A partir daí, sua carreira deslanchou.

Mas não sem antes quebrar barreiras. Anna tinha biotipo magro e longilíneo, bem diferente do ideal para bailarinas na época, que priorizava dançarinas fortes e musculosas. Ela também foi responsável por revolucionar a forma de subir à ponta – colocando todo o peso do corpo nos dedos, e esticando os pés.

anna-pavlovaEm 1906 chegou ao posto de prima ballerina, já famosa em sua terra natal. Nesse mesmo ano realizou seu sonho de infância e apresentou-se como Aurora em A Bela Adormecida no Teatro do Mariinsky.

Sua primeira apresentação internacional foi em 1908, emParis, quando dançou no Théâtre du Châtelet com o Ballets Russes de Sergei Diaghilev. De 1908 a 1911, apresentou-se com a companhia de Diaghilev, passando a dividir o seu tempo profissional entre as turnês e as apresentações no teatro Mariinsky. Em 2010 dançou em Nova York pela primeira vez, também com o Ballets Russes.

Em 1913 sai do Ballet Imperial e passa a se apresentar por sua própria conta, empresariada por Victor d’Andre, com quem casou-se no ano seguinte, em meio à Primeira Guerra Mundial. Os dois passaram a viver em Londres, e nessa época Anna excursionou nos Estados Unidos e na América do Sul – dançou no Municipal do Rio de Janeiro e São Paulo, além do Teatro da Paz, em Belém do Pará. Dançou também na Ásia, Oriente e África do Sul.

Olha só sua interpretação de Odette em A Morte do Cisne:

Anna morreu vítima de pneumonia, no auge da fama, e a duas semanas do seu aniversário de 50 anos.

Quer ver mais perfis? Clica aqui!

 

 

 

Alison Stroming: “Adoraria dançar e ensinar no Brasil”

Uma das bailarinas mais promissoras de sua geração, a brasileira radicada nos Estados Unidos Alison Stroming quer mais do que ser apenas uma estrela do ballet: ela quer fazer a diferença. Nascida no Recife (PE), ela foi adotada aos quatro meses de idade por um casal americano e, desde então, só voltou ao Brasil uma vez. No que depender dela, isso vai mudar! Além de dançar, Alison quer treinar pequenas bailarinas na sua cidade natal, e trazer para o Brasil a inclusão na dança (algo que discutimos muito por aqui!).

Calma que tem mais: ela ainda fala da importância de companhias como Alvin Ailey e Dance Theatre of Harlem, onde ela dança, duas das mais importantes instituições dos Estados Unidos e que têm uma base muito forte na cultura e dança negras e afro-americanas. Para ela, isso (junto ao apoio às artes) permite que os Estados Unidos estejam vivendo uma onda de diversidade e pluralidade na dança.

Segue a nossa entrevista!

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Alison em ensaio para o Ballet Zaida (Foto: Reprodução / Ballet Zaida)

Quantos anos você tinha quando começou a dançar? E como foi sua carreira até agora?

Eu comecei a dançar aos dois anos de idade. Eu tenho quatro irmãos mais velhos que dançaram em algum ponto de suas vidas, então minha mãe me colocou na aula de dança achando que seria um hobby legal para mim e nunca achou que seria algo a mais.

Enquanto menina eu pratiquei vários esportes e fiz um monte de atividades extracurriculares, mas dança sempre foi minha favorita.

Eu tinha nove anos quando comecei a treinar na School of American Ballet (SAB). Eu me apaixonei pelo ballet e soube desde pequena que eu queria ser uma bailarina. Eu estudei na SAB por três anos e depois fui para a Divisão Junior da Escola de Ballet Jacqeline Kennedy Onassis (JKO), onde continuei minha educação até eu me formar.

Desde que me formei na escola e na JKO na American Ballet Theatre, eu tive a sorte de ter meu primeiro contrato de corpo de baile na Alberta Ballet, no Canadá. Eu dancei no Alberta Ballet por dois anos participando de produções de George Balanchine, Kirk Peterson e vários outros coreógrafos canadenses. Eu tive a oportunidade de me apresentar com a artista Sarah McLachlan em seus concertos por Toronto, o que foi uma experiência incrível. Então, fui para o Ballet San Jose, na Califórnia. Minha mãe e meus irmãos se mudaram para Los Angeles, e eu fiquei extasiada em ficar perto deles. Eu dancei lá por um ano e agora estou na minha segunda temporada no Dance Theatre of Harlem.

Olhando pra trás, eu certamente me mudei muito nos últimos quatro anos, mas estou muito feliz em chamar Nova York de ‘casa’ novamente.

 

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Causando no metrô! (Foto: Reprodução / Underground NYC)

Quando foi que você decidiu se tornar profissional?

Ainda como aluna da Escola do American Ballet  eu tive várias oportunidades de participar em espetáculos do New York City Ballet em papeis infantis. Eu nunca vou esquecer dançar Polichinelle numa performance d’O Quebra Nozes e assistir das coxias os dançarinos da companhia e Maria Kowrowski como Fada Açucarada. Eu me senti tão inspirada em ver a companhia tão de perto e dividir o palco com eles que eu sabia que o ballet era o que eu queria buscar para minha vida.

Você disse que nasceu no Recife, mas se mudou para os Estados Unidos ainda muito jovem. Você acompanha o cenário de dança brasileiro?

Não tanto quanto eu gostaria! Felizmente eu tenho grandes amigos brasileiros no Dance Theatre of Harlem e é bom ouvir as histórias deles, e eles me mantêm informada do que está acontecendo com a dança no Brasil. Não existem tantas oportunidades para bailarinos e artistas no Brasil. Eu conheço muitos dançarinos brasileiros que estão agora dançando em grandes companhias  no mundo e suas histórias são muito inspiradoras.

Você pensa em se apresentar aqui?

Claro! Eu adoraria me apresentar no Brasil. É um país belíssimo e seria um sonho dançar no meu país de origem. Eu estive no Rio uma vez de férias com a família quando eu tinha 13 anos, mas seria muito bom voltar para visitar Recife, que é onde eu nasci. Além de dançar, eu adoraria ensinar e treinar meninas no Brasil.

Você dança numa companhia muito cultural e conhecida pela proximidade com a cultura negra. Qual é a importância desse tipo de companhia, como o Harlem, Ballet Black e Alvin Ailey?

A importância de companhias como a Dance Theatre of Harlem e Alvin Ailey é de abraçar a noção de diversidade e abrir mais oportunidades para bailarinos de diferentes trajetórias e contextos, particularmente afro-americanos. Essas instituições representam essa transformação do ballet e são fortes ícones na história da dança. Com o passar dos anos, muitos bailarinos quebraram barreiras e deixaram o caminho pronto para a geração seguinte. Com essas companhias, o mundo do ballet ficou mais diverso e se transformou numa reflexão mais verdadeira da nossa sociedade.

 

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Linhas! (Foto:Reprodução/ Underground NYC)

O ballet está se tornando mais inclusivo?

Absolutamente. Os bailarinos são muito diversos e diferentes, particularmente nessas companhias nos Estados Unidos. Aqui os bailarinos podem ser eles mesmos, e não se preocupam em ter que parecer um com o outro nem em se enquadrarem no esteriótipo típico de como uma bailarina deve ser. A arte ficou ainda mais bonita por causa dessa ‘leva’ de diversidade e como os bailarinos podem mostrar sua individualidade.

Existe algum papel que você gostaria de representar? Você já dançou seu repertório preferido?

Um papel que eu gostaria de dançar é Odette/Odile em O Lago dos Cisnes. Eu simplesmente amo a qualidade suave e graciosa de Odette e depois a energia forte e misteriosa exigida para Odile, o cisne negro. O Lago é uma das minhas histórias de ballet preferidas, e eu tive a oportunidade de dançar a produção de Kirk Peterson quando eu estava no Alberta Ballet. Eu também dancei Serenade, de George Balanchine, que é outro repertório preferido que eu me sinto muito honrada de ter dançado.

Quais são suas metas para o futuro?

Tenho muitas metas para o futuro e a lista está sempre expandindo e crescendo. Mas a maior delas é dançar como bailarina principal numa grande companhia de ballet nos Estados Unidos ou na Europa. Tem muitos coreógrafos contemporâneos com quem eu sonho em trabalhar e aprender. Além do ballet, eu também treino sapateado e jazz, então eu adoraria dançar na Broadway, em TV ou em filmes.

MAIS:

Além disso tudo, ela tem um eixo in-crí-vel! Olha só esse vídeo:

 

Perfil: Aurélie Dupont

Aurélie Dupont é a personificação do Ballet Opéra de Paris. Após 26 anos como bailarina  (sendo 17 como étoile – ou estrela), ela hoje responde pela direção artística da companhia.

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Aurélie como Raymonda (Foto: Reprodução)

De estilo bem eclético, Aurélie interpretou todos os grandes papéis dos ballets mais tradicionais, como A Bela Adormecida, Sylvia, La Bayadère; aos neo-clássicos, como Balanchine, Forsythe e Roland Petit; e contemporâneos, como Pina Bausch e Wayne McGregor.

Por conta dessa característica e também do seu carisma para com o público francês, a expectativa é que sua gestão seja bem-sucedida. Na sua noite de despedida como étoile do Opéra, ela foi ovacionada por 25 minutos.

Nascida em Paris, na França, em 15 de janeiro de 1973, Aurélie começou a dançar somente depois de se interessar pelo piano e pela ginástica, e aos dez entrou na Escola de Dança da Ópera Nacional de Paris. Ela foi aluna de Claude Bessy, um dos maiores professores da academia.

Estilo

Aurélie é, talvez, a bailarina que melhor define a Opéra de Paris:  uma característica muito forte da sua dança é a limpeza, aliada ao rigor técnico e à elegância – traços, aliás, comuns também à escola francesa.

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Aurélie Dupont e Joshua Hoffalt em La Bayadère  (Foto: Reprodução)

Mas se engana quem pense que ela é pouco expressiva. A interpretação da bailarina também é uma característica marcante especialmente em tragédias, como A Dama das Camélias e Romeu e Julieta. Ela foi musa inspiradora de alguns coreógrafos, como Benjamin Millepied (que a antecedeu na direção artística no Opéra), que criou dois ballets para ela, Amoveo e Triade;  e o japonês Saburo Teshigawara, da companhia Karas, com o repertório Sleep.

Aurélie também teve bailarinos maravilhosos como partners: Manuel Legris, Nicolas Le Riche e Harvé Moreau.

Veja aqui um trecho de Amoveo, de Benjamin Millepied:

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