World Ballet Day 2018 – Royal Ballet

Vadim e Osipova como Solor e Gamzatti
Natalia Osipova e Vadim Muntagirov ensaiam La Bayadère (Fotos: Reprodução)

O Royal Ballet fez uma das suas transmissões mais ‘cheias’ desde que o #WorldBalletDay começou, há quatro anos (nós acompanhamos desde 2015, quando lançamos o blog!).  Além da aula, a transmissão cobre sete ensaios (ainda que alguns sejam poucos minutos), uma aula da escola, entrevistas e vídeos de companhias parceiras, como o Royal Birmingham Ballet, English National Ballet e Scottish Ballet. Haja conteúdo!

A apresentação ficou por conta da principal character Kirsten McNally e principal Alexander Campbell, como no ano passado. É bem legal quando integrantes da companhia estão na apresentação porque os comentários são de gente que vive o dia a dia do ballet. Mas achei que eles interagiram pouco em relação ao Australian Ballet – quem não entende muito de dança pode ter ‘boiado’ um pouco.

Plies
Pliés na barra

Quem ministrou a aula foi, mais uma vez, Olga Evreinoff, professora e ensaísta convidada da companhia. Ela é BEM exigente com as terminações dos passos, direções e posições bem marcadas. Achei o nível bem alto, em especial no centro com as piruetas e centro prático. É uma aula bem técnica, pra quem quer se aperfeiçoar – e não apenas ‘aquecer’ para os ensaios.

Contei quatro principais: Marianela Nuñez, Lauren Cuthbertson e os recém-promovidos Matthew Ball e Yasmine Naghdi (Viu mais algum? Coloca nos comentários!). Aliás, palmas para Naghdi, que bailarina LIMPA! E é uma das poucas que ‘dança’ durante a execução dos passos, tanto no centro como na barra.

Joseph Sissens em Jojo
Joseph Sissens ensaia ‘Jojo’

Como são MUITOS ensaios, vou apenas aos que achei mais legais: gostei muito de Jojo, uma coreografia de Charlotte Edmonds dançada por Joseph Sissens. Aliás, vale a pena destacar o investimento do Royal Ballet em coreógrafas mulheres – bandeira levantada pelo English National Ballet há pelo menos dois anos.

Charlotte é uma coreógrafa promissora e Jojo foi um dos solos mais bonitos, fluidos e gostosos de assistir que eu vi nesses últimos anos. Adorei a forma como ela misturou tendências neoclássicas, passos casuais e movimentos clássicos, e a escolha da música deu um tom diferente. Ponto alto para Sissens, que desenvoltura e controle!

Marianela e Thiago em Winter Dreams
Marianela e Thiago com Kevin O’Hare, diretor artístico do Royal

Outro ensaio que gostei demais foi Winter Dreams, com o ex-casal Marianela Nuñez e Thiago Soares. Essa é a primeira vez que vejo um ensaio deles desde que eles se separaram, embora eles tenham dançado juntos mais vezes. É bem legal ver que eles continuam com uma química muito boa enquanto partners, dá pra ver que eles se ‘entendem’ bem enquanto colegas. Muito legal!

Marianela é uma das maiores bailarinas do mundo, isso fica inegável nesse ensaio. E é bonito ver o quanto de coração ela “despeja” na dança, mesmo que fora do palco. Ainda acho que ela carrega um pouco na expressividade em alguns papeis, mas aqui essa dosagem foi perfeita.

Achei Thiago um pouco ‘contido’ no ensaio, não sei se ele está voltando de lesão ou se ele preferiu se poupar um pouco (às vezes acontece, você não tá naquele dia melhor de giros, perna alta, etc). Mesmo assim, dá pra ver por quê ele é um dos primeiros bailarinos do Royal.

Sarah e Steven em Mayerling
Sarah Lamb e Steven McRae em Mayerling

Outro ensaio que foi ponto alto da transmissão foi Mayerling, com Steven McRae, Laura Morera e Sarah Lamb; o ruivo como o príncipe Rudolf, Laura como a princesa Stephanie e Sarah como a baronesa Mary Vetsera.

Enquanto o primeiro pas de deux, com Laura e McRae, é de uma frieza enorme por parte do príncipe e de desespero por parte da princesa, o segundo, entre o príncipe e sua amante, é só desejo. É impressionante como McRae consegue mudar tão completamente e de forma tão rápida, como se fosse um sentimento dele próprio. Sarah Lamb não é nem de longe uma das minhas bailarinas preferidas, mas a química que ela tem com McRae é incrível: eles dois, juntos, conseguem tirar e promover o melhor do outro.

Laura e Steven
Laura Morera e McRae

Nas entrevistas eles falam bem as paixões dos personagens, e como isso é importante de passar.  “É o tipo de ballet que, por mais que você ensaie e estude o personagem, cada vez que você sobe no palco é diferente. A mecânica dos passos a gente discute e espera que aconteça, mas é sempre único”, ele disse logo depois de ensaiar com Sarah.

E ele falou, também, que cada vez que ele estuda o Rudolf, a sensação é outra. “Tudo depende de como eu sinto o personagem, isso influencia diretamente em como eu lido com Sarah, com minhas colegas. É um papel dos sonhos”.

Laura ainda falou sobre os personagens serem reais, terem realmente vivido. E que isso, claro, não é a mesma coisa que interpretar personagens de contos de fadas.

“É diferente porque você pode estudar, socialmente, onde essas pessoas viveram. Mas do jeito que Macmillan criou o ballet não é exatamente como a história, então é preciso dosar um pouco”.

Mayara Magri
Tem ensaio de Mayara Magri, solista brasileira

Ainda tem muito mais coisa na transmissão: novas produções, ensaio da escola… Vale a pena ver tudo!

Não leu nossa resenha do Australian Ballet? Clique aqui.

Fotos:

Link para a transmissão:

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Vídeo da semana #12!!

Linda Celeste Sims e Glenn Allen Sims dançam pelo Alvin Ailey (Foto: Reprodução)
Linda Celeste Sims e Glenn Allen Sims dançam pelo Alvin Ailey (Foto: Reprodução)

Chegou atrasadinho, mas chegou! Nosso #videodasemana de hoje acaba sendo uma plataforma de divulgação de duas companhias que amamos: o Royal Ballet e o Alvin Ailey. Explicamos: a coreografia escolhida é a After the Rain, assinada por Christopher Wheeldon. Neste vídeo os dançarinos são da Alvin Ailey, mas quem está remontando o repertório para esta temporada é o Royal Ballet – com os queridos Thiago Soares e Marianela Nuñez!

Vamos à coreografia: o pas de deux, executado por um homem e uma mulher, é até simples, se comparado a outras montagens contemporâneas assinadas pelo coreógrafo, como Alice no País das Maravilhas. Mas tem um impacto muito forte, talvez por essa simplicidade. O que mais chama atenção, para mim, é a leveza dos braços dos dois dançarinos, e também a movimentação do pulso – lembra até a técnica do flamenco, embora muito mais delicada. Expressão, aqui, é a chave.

O ballet, que foi montado em 2005, exige uma cumplicidade muito forte entre o casal. Nesse caso, os bailarinos do Alvin Ailey são o par perfeito: além de partners, são, também, marido e mulher! As sequências e “carregas” não são óbvias, mesmo para uma montagem que flerta com o contemporâneo. Logo no início da coreografia, por exemplo, o bailarino sustenta a bailarina, de lado, ela com as pernas abertas na segunda posição. O movimento, em espiral, termina em um abraço suave entre os dois. Durante a dança, Wheeldon brinca com o equilíbrio do casal. Os dois estão sempre sendo a base ou a impulsão para os passos do outro. Pela movimentação, sobretudo dos braços, o que podemos inferir é uma sensação de busca pela liberdade.

Olha a sincronia da Linda Celeste Sims e Glenn Allen Sims! (Foto: Reprodução)
Olha a sintonia da Linda Celeste Sims e Glenn Allen Sims! (Foto: Reprodução)

Vale muito a pena assistir o repertório todo, mas, por enquanto, deixamos aqui a “cereja do bolo”. Esperamos que goste!

 

Veja aqui nosso acervo!

Vídeo da semana #11

Vídeo da semana #10

Vídeo da semana #09

Vídeo da semana #08

Vídeo da semana #07

Vídeo da semana #06

Vídeo da semana #05

Vídeo da semana #04

Vídeo da semana #03

Vídeo da semana #02

Vídeo da semana #01

 

Vídeo da semana #07!!

Olá, queridíssimos leitores!! Mais uma sexta-feira chega e com ela mais um vídeo da semana para VOCÊS! O vídeo de hoje foi postado pela nossa amada leitora Tatiana Schwartz, e graças a ela (obrigado, Tatiana!) vamos falar sobre, talvez uma das partes mais importantes dentro de um ballet de repertório: a mímica.

Fato é que, por ser voltado para um público mais entendido, as pessoas que assistem a um ballet de repertório muitas vezes não entendem “bulhufas” dos gestuais e mímicas que os bailarinos estão executando (às vezes entendem uma coisa ou outra, mas nem sempre tudo). Pensando nisso, o Royal Ballet, em seu canal no Youtube, postou um vídeo que serve como um guia iniciante para as mímicas.

A “aula” começa no encontro de Odette, Rainha dos Cisnes, com o Príncipe, no segundo ato de “O Lago dos Cisnes”. David Pickering é o professor que tem a tarefa de decodificar para a plateia do vídeo cada parte da mis-en-scéne. Os bailarinos que encenam esse momento são nada mais, nada menos que os queridos Thiago Soares e Marianela Nuñez, primeiros bailarinos do Royal Ballet, e os favoritos do pessoal aqui do blog, com certeza :-)!!!

Marianela ri ao 'interpretar' o bruxo (Foto: Reprodução / ROH)
Marianela ri ao ‘interpretar’ o bruxo (Foto: Reprodução / ROH)

Aqui temos uma explicação de cada gestual executado pelo bailarino para se fazer entender nas mímicas: as lágrimas, reverências, apontar para lugares, juras de amor. Tudo isso faz parte desse e de outros ballets já conhecidos. Marianela faz muito bem seu papel de anfitriã do público, sendo bem humorada a todo tempo em que ela mesma explica a cena. O vídeo ao final tem as legendas em inglês, para facilitar ainda mais a compreensão de quem assiste pela net. Posso dizer que é um vídeo muito educativo, esperamos que o Royal Ballet continue a investir em mais iniciativas assim. Então, vamos a ele:

 

Continuem a sugerir vídeos para nós!! Quer ver os nossos outros vídeos da semana? Clica aqui embaixo!

Vídeo da semana #06

Vídeo da semana #05

Vídeo da semana #04

Vídeo da semana #03

Vídeo da semana #02

Vídeo da semana #01

Carlos Acosta e sua “Carmen” reestilizada

O bailarino e coreógrafo (e deus!) Carlos Acosta divulgou nas redes sociais dele que nesta quinta-feira, 12/11, estreia o último trabalho dele no Royal Ballet. É ele quem dança e assina a montagem de Carmen, ballet que será apresentado junto com “Viscera”, “A Tarde de Um Fauno” e “Tchaikovsky Pas de Deux”. Um mix beeem eclético, fiquei até um pouco surpresa com essa vanguarda toda do Royal!

Agora é que vem o mais legal: a parte boa é que essas apresentações serão transmitidas, ao vivo, para cinemas do mundo todo (como já aconteceu com produções do Bolshoi, Mariinsky e do próprio Royal). A parte ruim é que o Brasil ficou de fora. Na América do Sul, só vai passar na Argentina e no Uruguai 😦

Além de ver a montagem de Acosta (e ele dançando com a diva Marianela Nuñez), queria muito assistir “Viscera”, de Liam Scarlett, uma coreografia muito intensa e com movimentos bem amplos. Fiquei interessada graças ao ensaio com Laura Morera transmitido no World Ballet Day – e é ela mesma quem vai dançar. (Escrevemos sobre todos as companhias que participaram, aliás! Se quiser dar uma olhadinha, clica aqui!)

Agora é esperar (e torcer!) que essa apresentação vire DVD! Por enquanto, temos esse ‘aperitivo’ que o Royal preparou:

 

O ensaio de “Viscera” no World Ballet Day você assiste aqui.

La Bayadère, do Royal Ballet

Foto: Royal Opera House
Roberta Marquez como Nikiya

Assistir uma produção do Royal Opera House é, em si, uma experiência para se lembrar – independente do que você escolheu ver. Só de passar pelos portões do teatro, pelos salões em que figurinos de bailarinos históricos são cuidadosamente expostos, olhar os restaurantes e bares imponentes e impecavelmente mantidos (ambos com vistas privilegiadas para a Covent Garden Piazza) seu humor é automaticamente alterado para o “modo artístico”.

Para mim, a experiência foi duplamente rica. Primeiro, porque fui assistir a um dos meus ballets preferidos, La Bayadère. Segundo, porque foi minha primeira ida ao Covent Garden para prestigiar a maior companhia de dança do mundo. Mas o principal foi a surpresa gratificante de assistir Roberta Marquez, uma brasileira, como protagonista.

A história do ballet

La Bayadère, ballet clássico de três atos, foi provavelmente uma das produções mais aguardadas da estação, a única que estreou já esgotada. O enredo se passa na Índia e conta a história do amor trágico entre a dançarina do templo (significado de bayadère), Nikyia, e o guerreiro Solor. Esse romance é testado logo no primeiro ato, quando o Rajá decide casar Solor com sua filha, a princesa Gamzatti, fazendo com que ele quebre a jura de amor eterno, feito sob o fogo sagrado, a Nikyia.

Marianela Nuñez como Gamzatti
Marianela Nuñez como Gamzatti

Os papéis principais foram para Roberta Marquez (que substituiu Alina Cojocaru), e Federico Bonelli, enquanto Gamzatti foi interpretada pela nova queridinha do Royal, Marianela Nuñez.

Apesar de ser uma história relativamente complicada de se seguir, que envolve gurus, vingança, profecias e morte, os detalhes não são tão importantes. “Você pode não ter ideia do que está se passando no palco e ainda assim achar lindo”, disse um senhor na plateia. Colocação deveras pertinente.

A performance

Essa foi a primeira vez que Roberta dançou La Bayadère com Bonelli, e os dois não tiveram muito tempo para ensaiar.  Infelizmente, isso ficou claro. O casal teve dificuldade para encontrar harmonia nas primeiras cenas, e Roberta hesitou muitas vezes, parecendo insegura em relação a seu novo partner. Mais para frente eles pareceram relaxar, mas ainda assim a dança dos dois em nada se compara com a química de Roberta com Steven McRae, com quem ela normalmente divide o palco, ou a intimidade que Bonelli e Marianela mostraram no pas d’action de Gamzatti e Solor.

Ainda assim, Roberta apresentou uma Nikyia bastante expressiva e emocionada. Toda a hesitação das primeiras cenas foi perdoada no solo de Nikyia, quando Roberta, em equilíbrio, desenvolveu o retirée para o arabesque, onde se manteve num balance lindamente controlado, só mudando de posição para seguir a música. Duas vezes. Isso não é algo que muitas bailarinas profissionais consigam fazer em uma carreira inteira, muito menos no palco.

Marianela brilhou como a má e elegante princesa Gamzatti, que tenta roubar o amor de Solor. Apesar dela também interpretar Nikyia em algumas apresentações de La Bayadère, bem como papéis principais em outras produções, é em personagens como Gamzatti e Fada Lilás, da Bela Adormecida, que ela mostra o que tem de melhor. As coreografias exigem técnica afiada, suavidade e controle, algumas das melhores características dessa bailarina. Quando interpreta personagens muito emotivos (como Nikyia e Odette do Lago dos Cisnes, por exemplo), Marianela tende a pesar um pouco na expressividade.

Corpo de baile, a estrela d'O Reino das Sombras
Corpo de baile, a estrela d’O Reino das Sombras

Já no segundo ato, O Reino das Sombras, a produção encontrou a harmonia e a manteve até o último ato, O Templo. A grande estrela do Reino das Sombras foi o corpo de baile, perfeitamente ensaiado – as bailarinas provavelmente respiravam ao mesmo tempo.

Bonelli teve a chance de mostrar seu lado artístico no terceiro ato (quando Solor alucina vendo o fantasma de Nikyia) e ele o fez muito bem. No geral, Bonelli apresentou um Solor elegante, gracioso e até delicado para um guerreiro, bem diferente da versão famosa de Carlos Acosta (bailarino principal que reveza o papel com Bonelli), bastante forte e masculina.

Mais detalhes

No geral, a versão do Royal Ballet de La Bayadère, coreografada pela icônica Natalia Makarova, conseguiu emocionar o público e envolvê-lo na tragédia indiana.

“Apesar de ser um enredo dramático, você sai da sala com o humor leve, se sentindo bem consigo mesmo. Essa é uma coisa que o ballet faz por você que a ópera não faz”, disse, mais uma vez, o senhor na plateia. E, de novo, eu não poderia concordar mais.

Fotos: Royal Opera House

*Post originalmente publicado no blog Revista Pulso em 26/04/2013. Para ver, clique aqui